UOL Notícias Internacional
 

11/09/2009

12 de Setembro: Lembrando do futuro que estávamos certos que nos aguardava

The New York Times
N.R. Kleinfield
Em Nova York
O dia amanheceu diferente e permaneceu daquela forma. Havia pouco trânsito e as calçadas estavam silenciosas. O mercado de ações não funcionou, nem os aeroportos, escolas, a Broadway. As pessoas estocavam água engarrafada, baterias, canoas. A presença policial era intensa: homens com metralhadoras, embarcações armadas patrulhando o porto.

No centro, incêndios, nuvens de fumaça. O odor era forte.
  • Brad Rickerby/Reuters - 11.09.2001

Era uma cidade humilhada e assustada, onde as possibilidades de destruição eram reavaliadas. Era 12 de setembro de 2001. O dia depois.

Muito foi dito e escrito sobre o que aconteceu no 11 de Setembro. O dia seguinte é esquecido, apenas outro interlúdio entorpecido após uma manhã incoerente.

Mas os nova-iorquinos foram introduzidos naquele dia às previsões certas a respeito de sua cidade ferida, que muitos acreditavam que ficaria endurecida e gravada no legado duradouro do evento.

Nova York se tornaria uma fortaleza, sufocada pela apreensão e resignação, patrulhada para sempre por soldados e submarinos. Outro ataque ocorreria. E logo.

Turistas? Bem, quem se arriscaria? Trabalhar em um dos arranha-céus da cidade? Pouco provável. O Corpo de Bombeiros, abalado por 343 mortes, nunca se recuperaria.

Para que um centro de Manhattan debilitado possa ter alguma chance de regeneração, o ponto zero teria que ser reconstruído rapidamente, uma banana de tijolos e cimento para o terror.

Oito anos depois, essas previsões são lembranças cobertas de teia de aranha que nunca se concretizaram. De fato, vislumbres de alguns poucos aspectos da cidade ajudam a medir a diferença entre o que foi previsto e o que de fato aconteceu.

É possível começar por uma esquina do centro. Naquele dia, a percepção era de que Nova York nunca mais aglutinaria importantes centros nervosos institucionais, os unindo em vulnerabilidade.

No 11 de Setembro, a American Express tinha sua sede na esquina sudoeste das ruas West e Vesey. Ela ainda está lá. De lá para cá, a Verizon instalou sua sede na esquina nordeste. O Goldman Sachs assumiu a noroeste. Só resta a esquina sudeste. Ela será ocupada pelo prédio mais alto dos Estados Unidos.
  • Todd Heisler/The New York Times

    Vendedores de bandeiras ocupam a Times Square às vésperas do aniversário dos ataques de 11/9



O homem das novidades de Times Square
David Cohen apontou o que os turistas gostam: réplicas de táxis, camisetas "Eu Amo Nova York" e dedais -qualquer bugiganga com Nova York inscrito. "Vê este cartão postal digital?" ele disse. "Excelente item."

Cohen, 83 anos, é o patriarca da Grand Slam, uma loja de propriedade familiar de roupas de beisebol e novidades, situada na Broadway entre as ruas 46 e 47, no coração de Times Square. Há oito anos, ele não conseguia imaginar o comércio movimentado, os novos prédios grandes e, especialmente, a cena complacente do lado externo de suas portas. Pessoas desfrutando do clima agradável em mesas e cadeiras, sob guarda-sóis, espalhadas pela Broadway. Se elas se preocupam com algo, é com uma queimadura solar.

Que tal isso? Pessoas, atendendo ao prefeito, indo para Times Square para relaxar!

Quando o medo envolveu a cidade no 12 de Setembro, muitos descartaram Times Square. Bombas químicas certamente explodiriam lá. Um homem-bomba suicida estava destinado a detonar a si mesmo na hora do almoço.

"Era assustador", disse Cohen. "Era: 'Meu Deus, o que virá a seguir?' Eu achava que aqui seria o próximo alvo."

O movimento foi fraco por meses. Souvenires pareciam não significar mais o mesmo. "Sim, os negócios despencaram", disse Cohen. Ele reduziu o horário de funcionamento da loja.

Mas não partiu. "Não se pode viver com medo", ele disse. "As coisas acontecem e então não acontecem."

Agora a economia em dificuldades reduz as vendas, mas o movimento de pedestres em Times Square é muito maior do que antes do 11 de Setembro. Uma segurança reforçada foi implantada e, mesmo quando incidentes a desafiam, como a pequena bomba que explodiu no posto de recrutamento militar em março de 2008, as pessoas dão pouco atenção.

"Este é o melhor ponto em Nova York", disse Cohen. "Escute, a Square é o lugar."

  • Todd Heisler/The New York Times

    Homem manobra carros em estacionamento de NY

O gerente de garagem
Os incêndios não terminavam. O cheiro persistia. Que empresa abriria suas portas na Baixa Manhattan? Quem moraria ali? Quem era capaz de se sentir seguro?

A polícia parava e revistava caminhões. Apenas uns poucos carros eram autorizados abaixo da Rua 14.

Ainda assim, Wilson Ortega, 34 anos, foi trabalhar. Ele era o gerente de um estacionamento no Nº56 da North Moore Street, em Tribeca.

No 12 de Setembro, os negócios, como ele colocou, estavam "100% parados". Mas carros ainda estavam lá e talvez as pessoas os quisessem.

À medida que as ruas foram reabertas, dar carona era obrigatório em Manhattan durante o horário do rush. Bombas ameaçavam na mente das pessoas. Muitas garagens por toda a cidade começaram a checar caminhões e a olhar com espelhos sob os veículos. Algumas ainda fazem isso, mas em grande parte as práticas são relíquias adicionais da época.

"Sim, eu checava", disse Ortega.

Todo caminhão era revistado. Ele reconheceu que não tinha treinamento em explosivos, não sabia exatamente o que estava procurando, mas ele checou todos os carros por vários meses, depois aqueles que não reconhecia, os não regulares, por quase um ano. Algumas pessoas se sentiam insultadas, não abriam o porta-malas, e ele as mandava embora. Ele nunca encontrou nada.

O local do World Trade Center permanece um projeto de construção cheio de conflitos. Mas na North Moore, carros entram e saem como antes.

"Eu nunca imaginei que as coisas seriam as mesmas de novo", ele disse. "Mas, cara, eu me enganei. Nós voltamos com força."
  • Todd Heisler/The New York Times

    Bombeiro ajusta flores deixadas sobre o memorial dos colegas que morreram nas Torres Gêmeas



O bombeiro
O número era 343. Naqueles dias terríveis, o chefe Charlie Williams, do 9º Batalhão de Manhattan, olhava para a lista de mortos à procura de bombeiros que estava habituado a cumprimentar: "Oi, Tom. Oi, Joe. Oi, Ray". Após cerca de 40, ele parou.

A perda de vidas no Corpo de Bombeiros foi imensa. Muitos perguntavam quem apagaria os incêndios de amanhã?

Além das mortes, houve uma corrida pelas aposentadorias. As esposas não queriam se juntar às viúvas. E a crescente oportunidade de pagamento por horas extras representava uma chance tentadora para os bombeiros se aposentarem com pensões maiores.

Havia 11.339 membros uniformizados do Corpo de Bombeiros em 10 de setembro de 2001. Em 28 de janeiro de 2003, o número tinha caído para 10.630.

Williams se perguntava: "Eu quero voltar para este trabalho?" Sua esposa queria que ele deixasse aquele trabalho. Mas ele não partiu.

Novos recrutas foram trazidos às pressas. Houve um longo período difícil. Até hoje, o grau de experiência não é o mesmo. Mas há 11.415 bombeiros no corpo, mais do que antes.

"O alarme toca e os homens apagam os incêndios", disse Williams. "A cidade está bem servida."

Após o 11 de Setembro, os bombeiros ganharam um status sobre-humano. As pessoas iam em grande número até os postos, querendo apertar as mãos dos bombeiros, tirar fotos ao lado deles, apenas dizer obrigado. Williams as atendia, apesar de reconhecer que às vezes era excessivo; ele tinha que se trancar em seu escritório para realizar seu trabalho.

A bravura sempre foi real. Mas a mitologia - bem, ela também não duraria. Nos anos que se seguiram, ocorreram incidentes embaraçosos: bombeiros pegos praticando sexo com uma mulher em um posto do Bronx, um briga de bêbados em outro em Staten Island, uso de álcool e drogas no trabalho.

"A adoração certamente era uma coisa inflada", disse Williams. "Era impossível sustentar aquilo."

Ele teve problemas nos pulmões devido ao World Trade Center e se aposentou no ano passado. Ele escolheu a data: 11 de setembro.
  • Todd Heisler/The New York Times

    Turista se enrola em bandeira próximo do memorial das vítimas dos ataques ao World Trade Center



O fabricante de bandeiras
As pessoas as compravam nas lojas, supermercados e de vendedores ambulantes e as abriam à frente de suas casas ou as penduravam nas antenas de seus carros. Elas formavam ondas nas ruas.

Bandeiras.

As pessoas exibiam abertamente seu patriotismo e desafio. Uma nova coesão, uma unidade, remodelaria o caráter da cidadania americana.

Christopher Gravagna não achava certo as pessoas terem que comprar seu patriotismo. "Aquilo era ridículo", ele disse. "Por que as pessoas investiriam em bandeiras naquela época?"

Ele tinha uma gráfica em Long Island City, Queens, que trabalhava para casas noturnas e concertos. No 12 de Setembro, a demanda por seus serviços basicamente parou e não foi retomada por semanas. Assim, ele decidiu imprimir bandeiras americanas de papel como o lema "Unidos Permanecemos" e as distribuiu de graça. Ele e seus funcionários distribuíram mais de 100 mil.

Ele as via em toda parte.

"Isso ajudou a alimentar o sentimento de que tínhamos que permanecer unidos, de estarmos juntos em meio àquilo", disse Gravagna. "Nós somos um país forte. Nós somos nova-iorquinos fortes."

As bandeiras - de tecido e pape l- praticamente desapareceram. Algumas aparecem, com sempre, em datas como o Memorial Day, no Dia da Independência, no 11 de Setembro, mas só.

Aquele sentimento especial? "Certamente diminuiu muito", disse Gravagna. "Eu esperava isso? Não. Mas como nova-iorquino, eu entendo. Eu acho que parte disso tem a ver com o capitalismo. Na América, nós temos questões. E o tempo passa. Apenas passa."

Ninguém, talvez, tenha exibido mais bandeiras do que o próprio Gravagna. Ele as colou nas janelas de seu apartamento em Queens e nas do seu Nissan Sentra. Elas lotavam seus escritórios.

Após algum tempo, foram retiradas. A última que ele possuía ele emoldurou. Ele a pendurou na parede de seu escritório. Quatro anos atrás, alguém a roubou
  • Todd Heisler/The New York Times

    O dentista Charles Weiss olha a cidade pela janela do seu escritório, no 69º andar do Chrysler Building



O dentista do arranha-céu
"As janelas daqui abrem", disse o dr. Charles Weiss.

Ele abriu uma. A vista do sul era deslumbrante, como uma vista de 300 metros de altitude pode ser. Lá estava o Edifício Empire State e, ao longe, a Estátua da Liberdade e a Ilha Ellis, assim como um ponto onde duas torres gêmeas antes estavam.

No 12 de Setembro, parecia que ninguém mais optaria por trabalhar em um arranha-céu. Especialmente aqueles com nomes emblemáticos, aqueles conhecidos por todos, prêmios valiosos para os terroristas.

Funcionários guardavam pára-quedas sobre suas mesas, recebiam máscaras contra partículas, aprendiam a usar contadores Geiger.

No 11 de Setembro, Weiss, um dentista, trabalhava no 69º andar do Edifício Chrysler, na Avenida Lexington com a Rua 42. Ele ainda trabalha lá.

Capitulação não faz seu estilo. Ele lembrou de um livro, "Rebeldia de um Bravo", no qual um combativo médico do Brooklyn se recusava a se render a vagabundos que chamava de "galoots". Weiss pensou, como uma afirmação de fé: "Eu não vou deixar os galoots me pegarem".

No 12 de Setembro, o Edifício Chrysler ficou basicamente fechado, mas ele entrou. Ele telefonou para os pacientes para remarcar as consultas. Alguns quiseram esperar um pouco antes de voltarem a tratar de suas cáries. Só na segunda-feira da semana seguinte é que os pacientes voltaram a aparecer.

No final, todos voltaram. Os pacientes. Seus funcionários. Seus colegas que trabalham em outros consultórios no mesmo andar.

Sempre há algum paciente com medo de altura. Weiss, atualmente com 82 anos, envia uma enfermeira até o saguão do prédio para acompanhá-lo no elevador. Isso também acontecia antes do 11 de Setembro.

Os pacientes na sala de espera folheiam revistas enquanto a broca canta. "Há um tremendo impulso por parte dos seres humanos de extrair o máximo da vida", disse Weiss. "Nós não somos eremitas. Nós nos levantamos e seguimos em frente."

Weiss desfrutou um pouco mais da vista, observou os carros minúsculos se arrastando pelas ruas sempre congestionadas da cidade. "Eu nunca me canso dessa vista", ele disse. "Nunca."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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