UOL Notícias Internacional
 

11/09/2009

Uma confusão devido a um retrato de partida em preto e branco

The New York Times
Barry Bearak*
Em Johannesburgo (África do Sul)
Atualmente, o cidadão sul-africano mais comentado é um homem que preferiria ser cidadão de qualquer outro país, um ex-vendedor de sistemas de irrigação de jardins, de 31 anos de idade, chamado Brandon Huntley.

Por mais que Huntley possa ter gostado de vender mangueiras de irrigação, ele, admitiu aqui que vendeu habilmente um pacote de "produtos" ao painel de imigração canadense que lhe concedeu status de refugiado em 27 de agosto. Ao procurar asilo, Huntley disse que foi assaltado sete vezes no seu país natal - e que sofreu ferimentos a facadas no flanco, estômago, mãos e olho direito -, enquanto era xingado pelos assaltantes negros de "cachorro branco" e "colono".

A África do Sul tem um problema terrível de criminalidade, e os seus assaltantes são notavelmente adeptos da crueldade, de forma que essa parte da história de Huntley parecia ser suficientemente plausível. Mas Huntley atribuiu os assaltos a algo mais do que um azar em série. Ele disse que os crimes fazem parte de uma contínua perseguição dos brancos pelos negros, um fenômeno que, segundo ele, o governo trata com indiferença.

William Davis, um dos membros do painel de imigração, evidentemente acreditou nesta premissa de que existe uma opressão racial dos brancos pelos negros. No seu veredicto, ele observou enfaticamente que, se Huntley fosse mandado de volta à África do Sul, ele se destacaria como "um 'dedão machucado', devido à sua cor, em qualquer parte do país".

Para a maioria dos sul-africanos, brancos e negros, isso é absurdo. Como há 4,5 milhões de brancos vivendo neste país, com certeza Huntley precisaria de algo bem mais raro do que uma pele clara para destacar-se, especialmente em Mowbray, a cidade bonita na qual ele foi criado. Mowbray é um subúrbio da Cidade do Cabo que possui uma grande população branca.

Muitos aqui afirmam que a decisão canadense é que foi racista. O Congresso Nacional Africano, o partido governista, emitiu uma declaração insistindo que a decisão foi exatamente isso. Um porta-voz do Ministério do Interior da África do Sul afirmou que o governo ficou "repugnado" com a decisão, e, por ora, o Canadá inteiro - de Whitehorse a Halifax - está sendo responsabilizado aqui pelos atos de um painel independente de imigração, que, pela lei, atua sem influência do governo em Ottawa. Os canadenses foram retratados por cartunistas como lenhadores e policiais imbecis.

Um incidente diplomático entre os dois países pareceu ter sido evitado quando o governo canadense anunciou que contestará a decisão do painel na Corte Suprema. Em uma declaração que poderia ser vista como um pedido sincero de desculpas, Ottawa elogiou a África do Sul por "promover uma sociedade tolerante e multirracial".

Mas uma questão persiste entre os sul-africanos: como é que tal decisão foi tomada originalmente?

Certamentea resposta a essa pergunta envolve Davis, do painel de imigração, o próprio Huntley e o seu advogado no Canadá, Russell Kaplan, um sul-africano que mora naquele país.

Como as questões relativas a refugiados são confidenciais, Davis afirmou que é obrigado a manter-se calado. Huntley também recusou-se a tecer comentários, embora em certo momento tenha dito ao jornal "The Ottawa
Sun": "Agora não posso voltar mais à África do Sul. Só espero que nada saia errado com o processo". Ele estava preocupado com a contestação da decisão do painel por parte do governo canadense. Esse processo pode demorar meses para ser concluído, mas, caso perca, Huntley poderia acabar sendo deportado.

Kaplan, sentindo-se menos obrigado a manter confidencialidade, entregou aos jornalistas várias páginas do parecer emitido por Davis. O documento, juntamente com alguns trabalhos investigativos por parte de jornalistas sul-africanos que cobriram a notícia, preencheram muitas das lacunas na história de Huntley.

O vendedor desempregado, um musculoso jogador de rugby e praticante de artes marciais, mudou-se para o Canadá em 2004, portando uma permissão de trabalho e com um emprego a sua espera. Segundo o parecer, quando a permissão expirou, Huntley tentou permanecer no país "tentando ingressar nas forças armadas e casar-se com uma cidadã canadense".

O pedido de asilo foi um recurso final, ao que parece, e o material que ele forneceu para sustentar o seu pedido consiste de um retrato brutal e unilateral da vida sul-africana: estupros, assassinatos e vítimas torturadas com água fervente e ferros em brasa. A corrupção no país seria epidêmica. De fato, Huntley chegou a afirmar que a sua desconfiança em relação à política é tão grande que que ele nunca comunicou às autoridades policiais nenhum dos sete assaltos de que teria sido vítima.

Huntley disse ainda que as políticas de cotas raciais fizeram com que os brancos perdessem empregos.

"A pobreza branca é um fenômeno novo. Os brancos estão fugindo do país", disse ele. "A África do Sul está à beira da guerra civil".

Mas, como Huntley não está disponível para falar sobre o assunto, a discussão tem sido conduzida por outros sul-africanos, que deixaram um pouco de lado as costumeiras discórdias entre si a respeito dos problemas de crime e racismo para concentrarem-se melhor nas queixas inflacionadas feitas por Huntley. Haveria alguma verdade naquilo que ele disse?

Bem, muitos aqui concordam que talvez haja. Mas o fato de haver alguma verdade não quer dizer que tudo o que ele disse é verídico.

O Instituto Sul-Africano de Relações Raciais, um grupo de pesquisas, interessou-se pelas alegações e divulgou um comunicado. "Sim, a África do Sul é uma sociedade muito violenta, mas não existe um padrão geral de ataques raciais contra brancos. Ao contrário, os negros são as vítimas mais frequentes dos crimes violentos. E, no que diz respeito à economia, o índice de desemprego entre os negros é cinco vezes maior do que entre os brancos - e, em média, os domicílios brancos tem uma renda também cinco vezes maior do que os negros", disse o comunicado.

Outras respostas ao caso Huntley tenderam mais à sátira. O Hayibo.com, um website sul-africano que publica artigos no estilo do "The Onion" [com textos permeados de sátiras e informações inventadas], anunciou que as autoridades canadenses foram avisadas de que podem esperar uma onda imigratória de "jovens brancos sul-africanos que não conseguem arranjar trabalho", depois que um painel de imigração "composto de indivíduos brancos que nunca estiveram na África" concedeu asilo a Huntley.

"Não haverá uma quantidade suficiente de pubs e restaurantes em Vancouver e Toronto para empregar a todos", teria dito uma fonte não identificada do Ministério do Interior, segundo o Hayibo.

*Ian Austen, em Ottawa, contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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