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12/09/2009

Trauma de 11 de Setembro propagou-se por toda sociedade, relembram terapeutas

The New York Times
Clyde Haberman
Anne Kane não estava nem perto das torres gêmeas quando desmoronaram há oito anos, mas naquele momento ingressou no que descreveu como um dos piores anos de sua vida profissional.

Kane é psicóloga. Ela trabalha em grande parte com pessoas que estão morrendo ou sofrendo. Portanto, não foi de surpreender que dezenas de pessoas a tivessem procurado após perder seus parentes ou amigos no World Trade Center.

"Sempre tentei deixar algum espaço em minha clínica para pessoas neuróticas normais, legais, para que meu dia inteiro não fosse apenas sobre a morte", disse Kane. Isso não foi possível após o ataque de 11 de setembro de 2001. "Era morte o dia todo, todos os dias", disse ela. "Eu entrava no consultório às 8h da manhã e ia até 20h lidando com pessoas que perderam entes queridos - o dia todo por mais de um ano."

O trabalho cobrou um preço. Não foi nada parecido com o que seus pacientes passaram, mas tampouco foi um passeio no parque. Ela chorava no caminho de casa do trabalho. Seus músculos e ossos ficaram doloridos. E ela compreendeu que, apesar de toda sua formação, "estava mal preparada para lidar com aquele tipo de trauma".

Neste respeito, Kane não estava sozinha.

Milhares de profissionais do ramo da saúde mental - vamos chamá-los de terapeutas por questão de brevidade - ofereceram seus serviços após o ataque. Eles se apresentaram nos escritórios da Cruz Vermelha e nos centros de assistências montados pela prefeitura. Eles reconheceram um aspecto da crise no qual poderiam ajudar.

"O dia 11 de setembro foi rapidamente enquadrado como emergência de saúde mental", disse Karen M. Seeley, psicoterapeuta e professora de antropologia psicológica na Universidade de Columbia. A maior parte dos terapeutas, contudo, treinados para prestar assistência a uma pessoa por vez, não estava preparada para esta "catástrofe coletiva", disse Seeley. "Para todos, foi sem precedentes. Os bombeiros não estavam preparados. A polícia não estava preparada; tampouco os terapeutas".

Seeley passou quase dois anos conduzindo entrevistas detalhadas com 35 terapeutas que trabalharam de perto com sobreviventes e parentes de vítimas de 11 de setembro. Elas formaram a base para um livro chamado "Therapy after Terror: 9/11 Psychoterapists and Mental Health" (terapia após o terror: 11 de setembro, psicoterapeutas e saúde mental), publicado no ano passado pela Cambridge University Press.

O que ela descobriu foi que os profissionais em sua área não apenas não estavam preparados para o desastre, mas também foram tomados pelas histórias de horror que ouviram e pelas próprias ansiedades induzidas pelo terrorismo. Obviamente, as famílias das vítimas sofreram mais, porém todos os nova-iorquinos ficaram traumatizados em certo grau. Sua cidade fora atacada. O país entrou em um estado de guerra constante, e eles ouviram dos líderes políticos que deviam ter medo. E muitos tiveram.

Sendo humanos, os terapeutas frequentemente sucumbiram aos mesmos temores. Seeley chamou de "trauma simultâneo" - "uma situação clínica extremamente rara na qual os terapeutas ficaram profundamente abalados pelos mesmos eventos catastróficos que feriram os pacientes que estavam tratando."

Uma psicóloga, Donna Bassim, viu-se "emocionalmente transformada" pela experiência. "Comecei a ficar mais consciente do trauma da comunidade, percebi o quanto as pessoas precisavam umas das outras, não apenas 45 minutos no consultório do psicoterapeuta", disse ela.

Que tipos de erros foram feitos em 2001?

"Foi uma histeria, os terapeutas correram para ajudar sem terem a menor ideia de onde estavam se metendo", disse Ghislaine Boulanger, também psicóloga. Alguns tentaram mergulhar imediatamente nos trabalhos da terapia, disse Boulanger, mas o que as pessoas precisavam de fato era de "primeiros socorros psicológicos", de perguntas simples como "tem alguém em sua casa com quem você possa conversar?".

Margaret Klenck, psicanalista e ministra ecumênica, disse que uma resposta "instantânea" na época era "medicar demais as pessoas com tranquilizantes e antidepressivos".

"As pessoas não estavam deprimidas", disse ela. "Estavam traumatizadas. Estavam de luto - é claro que estavam chorando."

Do lado positivo, foram aprendidas lições sobre como responder, caso o terror volte a ocorrer - "Deus nos livre", disse Klenck. "Provavelmente não vamos fazer os mesmos erros", disse ela. "Você fica mais esperto. Fica mais sólido."

Evitar erros antigos não significa necessariamente não cometer novos. "Essa é praticamente uma das características definidoras dos desastres", disse Seeley. "São sempre inusitados."

Tradução: Deborah Weinberg

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