UOL Notícias Internacional
 

13/09/2009

Plano de exilado cubano para barco até Havana espera aprovação dos EUA

The New York Times
Damien Cave
Em Miami (EUA)
Imagine uma viagem de navio de Miami para Havana que custa bem menos do que uma passagem de avião. Os cubano-americanos, que agora podem visitar a ilha sem restrições, poderiam comer leitão no deck do barco, e depois entregar um carregamento de comida para seus parentes pela manhã.

Armando Ruiz, 72, exilado cubano e ex-promotor de shows, sonhou com isso por uma década. Agora ele acha que a rota pode finalmente virar realidade - se o governo Obama aprovar seu pedido de licença.

"Ele diz que quer ajudar o povo cubano", disse Ruiz, referindo-se ao presidente Barack Obama. "Como ele pode fazer isso sem um navio?"

Até recentemente, a comunidade de exilados cubanos em Miami era considerada inconstante demais para cuidar de uma linha marítima da Flórida para Cuba, pela primeira vez desde 1962. Mas a proposta de Ruiz mostra o quanto o clima político mudou.

  • Michael F. McElroy/The New York Times

    Armando Ruiz diz que teve a ideia de operar um ferryboat de Miami a Havana após uma visita ao país natal. Ele defende que Obama não poderá ajudar os cubanos sem barcos



Foi a fé na demanda por uma nova abordagem que levou Ruiz a considerar arrendar um ferryboat de US$ 23 milhões (R$ 42 milhões) e 600 cabines de um negociante na Lituânia. Também pode ter sido o sonho de riqueza, que ele nega, ou de deixar um legado familiar, que ele não nega. Mas para a Casa Branca, sua proposta mostra principalmente como uma mudança na política pode produzir demandas que ultrapassam a deliberação diplomática.

Desde que o presidente anunciou planos em abril para encorajar o contato com Cuba, permitindo aos cubano-estadunidenses viajar de volta ao país sempre que queiram, além de poder enviar mais dinheiro e presentes, o governo acabou tendo de evitar a pressão para acelerar as iniciativas de normalização das relações com Cuba.

Oficiais cubanos, alguns membros do Congresso e companhias de viagem como a Orbitz pediram que a proibição de viagem fosse cancelada não só para os exilados cubanos, mas para todos os norte-americanos. As operadoras de voos fretados de Miami, depois de elogiar a nova abordagem, passaram o verão reclamando que o governo levou muito tempo para divulgar as regulamentações que colocariam em prática a política para os cubano-estadunidenses.

E agora que as novas regras em vigor - foram publicadas no Registro Federal este mês - os empresários estão aparecendo com ideias para expandir as ligações com Cuba.

O navio de Ruiz é uma das várias propostas que têm como objetivo empurrar a porta que Obama apenas entreabriu. Voos diretos de Los Angeles para Havana começaram em junho. Várias outras cidades, incluindo Tampa, Flórida, e Nova Orleans, também poderão em breve oferecer voos para Cuba através de companhias de fretamento.

As trocas culturais que poderiam garantir direitos de viagem para os norte-americanos que não são descendentes cubanos estão em andamento com as operadoras de voos fretados em Miami - uma tática amplamente usada durante o governo do presidente Bill Clinton e severamente restrita pelo presidente George W. Bush.

Eddy Levy, 75, sócio da Xael Travel, disse que todo o setor de viagens, incluindo companhias charter como a dele, estava estabelecendo as bases para o que, ele espera, será uma abertura bem mais significativa.

"O importante é o relacionamento entre os dois países", disse Levy, que se concentrou em conectar famílias judias em Cuba e nos Estados Unidos. "É um grande passo na direção de normalizar as relações se os Estados Unidos abrirem as viagens para os não-cubanos". Ele disse que permitir que todos os norte-americanos viajem a Cuba significa ter um número de viajantes suficientes para ir e vir - em voos comerciais, navios e fretados.

Tessie Aral, presidente da ABC Charters, que transportou 10.500 passageiros para Cuba neste verão, 6.000 a mais que no ano passado, concordou.

"Acho que seria maravilhoso se todas as restrições de viagem fossem suspensas", disse Aral. "Mas ainda não chegamos lá."

Nesse momento, Ruiz vê o serviço de navio que propôs sobretudo como uma alternativa para aqueles com menos dinheiro, mais presentes ou incapacidade de voar por doença ou medo. Ele descreveu as sete ou mais companhias de charter - o único negócio com direitos de aterrissagem tanto do governo cubano quanto norte-americano - como um monopólio que cobra muito caro (cerca de US$ 500 [R$ 913] por uma viagem de ida e volta) por causa da competição mínima.

Ruiz disse que teve a ideia do navio há 15 anos numa viagem para Cuba. Ele estava num bairro pobre de Havana, comprando charutos de um homem que disse que ninguém em seu prédio tinha dinheiro para comprar uma televisão.

"Eu pensei, temos tantas televisões que são jogadas fora", disse Ruiz, numa entrevista em seu prédio de apartamentos de luxo com vista para o Atlântico. "Se eu tivesse um barco, poderia trazer muitas e doá-las."

A carga parecia entusiasmá-lo ainda mais. Os olhos de Ruiz brilharam atrás de seus óculos escuros Dolce & Gabbana quando ele disse que alguém que poderia levar 20 quilos de bagagem num avião sem pagar taxa extra seria capaz de carregar quatro vezes mais no barco. Isso tudo faria parte do preço do bilhete para o navio, disse ele, que provavelmente ficaria cerca de US$ 100 (R$ 182) mais barato do que a tarifa aérea.

A frequência incluiria pelo menos três viagens durante a noite por semana. Pense nas possibilidades, disse ele: bicicletas e brinquedos para o Natal; alimentos, remédios e materiais de construção depois de furacões. Ele disse que sua companhia, a Florida Ferry International, havia interessado os investidores, inclusive cubano-estadunidenses, e companhias de administração prontas para tripular o barco. Ele disse que o negócio custaria algo entre US$ 300 mil a US$ 1 milhão (R$ 550 mil a R$ 1,8 milhão) por mês para funcionar, dependendo do navio arrendado e dos parceiros envolvidos.

Os críticos de um engajamento maior, como Mauricio Claver-Carone do U.S-Cuba Democracy PAC, disse que isso nunca iria acontecer "sem reciprocidade nas reformas democráticas e direitos humanos por parte do regime cubano."

Cuba também poderia se recusar a deixar Ruiz ancorar seu barco ou - lutando contra uma situação econômica pior do que nunca - tentar cobrar taxas exorbitantes.

Mas a seu ver, Washington é a fonte do impasse. Seu requerimento observa que a lei que governa as viagens permite licenças não só para aeronaves, mas também para embarcações. O Departamento de Estado, onde o advogado de Ruiz ficou sabendo que o pedido de licença está tramitando agora, não respondeu aos telefonemas ou e-mails da reportagem.

"Como ele poderia negar, se diz que quer se abrir para Cuba?", disse Ruiz, um republicano que votou em Obama e carrega uma foto dele em seu Blackberry. "Isso não é um sonho. É um direito."

Tradução: Eloise De Vylder

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