UOL Notícias Internacional
 

14/09/2009

Alto escalão tenta manter vigilância sobre blogs de militares dos EUA

The New York Times
James Dao
Durante os dez meses que passou no leste do Afeganistão, um soldado especialista do Exército norte-americano apelidado de Mud Puppy manteve um blog que fazia uma crônica irreverente sobre a vida na frente de batalha, do terror das bombas de beira de estradas à tirania dos sargentos.

Com frequência engraçado e sempre profano, o blog "Embrace the Suck" (gíria militar que significa tirar o melhor de uma situação ruim) passa despercebido pelo radar do Exército. Sem ter a aprovação oficial, ele está escondido sob proteção de senha porque o soldado reservista não quer que seus superiores o censurem.
  • Gregorio Borgia/AP

    Soldados da Divisão de Infantaria usam a internet às vésperas do Natal de 2003, na base militar de Tikrit, no Iraque. Fiscalizar o fluxo diário de mensagens, vídeos e fotos trocadas por militares é praticamente impossível, mas isso não impede que alguns oficiais do Pentagono tentem.


"Algum oficial acabaria revisando tudo o que escrevi", disse o soldado de 31 anos, que pediu para que seu nome não fosse divulgado, numa mensagem de e-mail. "E mais cedo ou mais tarde ele descobriria alguma coisa para me pegar."

Existem dois lados no avanço militar dentro do mundo livre da rede interativa. Nos altos escalões do Pentágono, oficiais civis e generais de quatro estrelas passaram a elogiar com entusiasmo o poder das redes sociais para humanizar as tropas, incitar os recrutas e formar a opinião pública sobre a guerra.

O general Ray Odierno, comandante das forças norte-americanas no Iraque, está no Facebook. O presidente do Joint Chiefs of Staff [comissão que reúne os oficiais mais graduados das forças armadas dos EUA], almirante Mike Mullen, tem um canal no YouTube e publica mensagens no Twitter quase que diariamente. O Exército está encorajando oficiais de todas as patentes a entrarem na internet para reescrever de forma colaborativa sete de seus manuais de campo. E em 17 de agosto, o Departamento de Defesa divulgou um site que promove links para seus blogs e contas no Flickr, Facebook, Twitter e YouTube.

A internet, entretanto, é um lugar imenso. E os milhares de soldados que usam blogs, Facebook, Twitter e outros sites de rede social para se comunicarem com o mundo de fora nem sempre estão em sintonia com a voz oficial do Pentágono. Fiscalizar esse fluxo diário de mensagens, vídeos e fotos é praticamente impossível - mas isso não impede que alguns militares tentem.

O Departamento de Defesa, alegando preocupações crescentes quanto à segurança na rede, planeja lançar uma nova política nas próximas semanas que deve estabelecer restrições em todo o departamento para o acesso a sites de rede social a partir de computadores militares. Pessoas a par dessa revisão de normas dizem que a nova política pode limitar o acesso a sites de rede social àqueles que demonstrarem uma clara necessidade disso no trabalho, como oficiais de informação e conselheiros familiares.

Se este for o caso, muitos oficiais dizem que isso prejudicaria significativamente os esforços para expandir e modernizar o uso militar da internet, no exato momento em que esses esforços estavam ganhando terreno. E apesar de a nova política não se aplicar a soldados que usam provedores de internet privados, um grande número de oficiais militares em bases e navios de todo o mundo depende de seus computadores de trabalho para ter acesso à internet.

Para muitos analistas e oficiais, o debate revela um conflito cultural mais amplo: entre a natureza anárquica, sem filtros e democrática da internet, e a tradição hierárquica, controlada e autoritária dos militares.

"Enquanto instituição, ainda não conseguimos determinar como queremos usar os blogs" e outras mídias sociais, disse o tenente-genaral William B. Caldwell IV, comandante do Army Combined Arms Center em Fort Leavenworth, Kansas.

Um dos principais defensores de um acesso mais aberto à internet no Exército, Caldwell argumenta que as redes sociais permitem a interação entre os soldados alistados, oficiais de baixa patente e generais de uma forma que era impensável há uma década. Ele exige que os alunos do Colégio do Comando e Staff Geral em Fort Leavenworth façam blogs, e o colégio agora patrocina 40 blogs públicos, incluindo o seu próprio, onde as políticas são debatidas livremente.

Mas conseguir a aprovação para esses blogs, assim como para acesso ao YouTube e ao Facebook na escola foi uma dura batalha. "Em todo canto, alguém citava uma norma", disse Caldwell. Nos últimos meses, entretanto, "o Exército deu saltos quânticos" ao abraçar a web, acrescentou.

Noah Shauchtman, editor do blog de segurança nacional da Wired.com, Danger Room, que tem relatado extensivamente sobre a nova revisão de política, disse que perguntou recentemente a alunos de West Point se eles permitiriam que os soldados tivessem blogs. Quase todos os cadetes disseram que não.

"Então eu perguntei: 'Quantos de vocês acham que podem deter o fluxo de informação de seus próprios soldados?'", lembra-se Shachtman. "Todos concordaram que não há como impedir que essa informação saia. Então existe esse tipo de dualidade."

Os céticos em relação à revisão do Pentágono dizem que ela foi motivada em parte por causa de um desejo de alguns oficiais de exercer controle sobre as vozes dos soldados na web. Desde o advento dos blogs militares durante a guerra do Iraque, alguns comandantes continuaram desconfortáveis com esse tipo de expressão, citando preocupações quanto a segurança e ao decoro.

Ao longo dos anos, os blogs vem sendo censurados ou tirados do ar, e há alguns anos o Exército instituiu exigências de que os blogueiros se registrem com seus superiores e submetam as mensagens à revisão destes. Como resultado, dizem alguns blogueiros, os blogs ficaram mais amenos - ou, como no caso do blog de Mud Puppy, caíram na clandestinidade.

Oficiais a par dessa revisão de política dizem que ela é resultado de preocupações crescentes do Comando Estratégico dos EUA, que supervisiona o uso militar da internet, de que os sites de redes sociais possam tornar os computadores militares vulneráveis a vírus, hackers, roubos de identidade, terroristas e até mesmo a governos hostis. (Essas preocupações não dizem respeito ao sistema militar seguro para informações confidenciais, que não usa a internet
pública.)

A revisão já começa a mostrar um efeito desencorajador. O Corpo de Fuzileiros Navais recentemente reinstituiu uma proibição de usar qualquer mídia social em sua rede. E o Exército, que em junho deu acesso ao Facebook, Twitter e outros sites de rede a algumas bases, pediu recentemente às unidades que evitassem criar novas páginas de mídia social até que a política final do departamento seja lançada.

Ainda que eles considerem restringir o acesso das tropas à mídia social, altos oficiais do Pentágono passaram a ver o Facebook, o Twitter, o YouTube e os blogs como elementos cruciais para suas operações de informação ao público.

"Esse departamento, eu acredito, está bem atrasado em relação à nossa tendência" de usar a mídia social, disse o secretário de defesa Robert M. Gates em julho quando elogiou o uso do Twitter por parte dos dissidentes iranianos.

Para os críticos, os sites de mídia social do Pentágono são na melhor das hipóteses tolos, e na pior, propagandísticos. "É como se seus pais tentassem usar gírias modernas e errassem vergonhosamente", disse a sargento Selena Coppa, autora do blog "Active Duty Patriot" que frequentemente critica a guerra no Iraque e que, segundo ela, já a rendeu problemas com seus superiores.

Mas para muitos soldados, a questão mais profunda é se os militares irão permitir que os soldados rasos em campo usem os sites que o próprio Pentágono quer explorar. Para uma geração criada com internet, qualquer restrição prejudicará o moral, dizem eles.

"O que sai no meu blog é a experiência de um soldado bem no meio de tudo isso", disse Mud Puppy (apelido para a polícia militar), que recentemente retornou para casa em Illinois, numa recente mensagem de e-mail. "Acho que as pessoas precisam ouvir de nós, mais do que precisam ouvir dos grandes. A guerra tem um custo, e quem paga esse preço são os soldados."

Tradução: Eloise De Vylder

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