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14/09/2009

Nas alamedas de Pequim, gritos dos vendedores são como ecos do passado

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim
Não muito tempo depois do nascer do sol, antes que a cidade começasse seu burburinho a pleno vapor, os gritos e chamados podiam ser ouvidos para cima e para baixo desde as velhas alamedas e nas profundezas dos jardins murados que formam o coração movimentado da capital chinesa.

"Carne de bode, carne de bode!"

"Ovos, arroz, ovos, arroz!"

"Sucata, olha a sucata!"

Com maior ênfase na música do que na letra, esses são os cantos dos vendedores ambulantes de frutas, vendedores de pato assado e homens de coluna curvada que dominaram a arte de ressuscitar facas de cozinha cegas. Assim como o ruído familiar das cigarras em agosto, seus gritos confusos são a trilha sonora do verão de Pequim, e muitos moradores esperam ansiosamente pelo retorno das tortas de arroz gelatinosas dos mascates, das louças que não formam conjunto e dos gafanhotos de estimação que cantam.

Ambulantes da Velha Pequim

  • Shiho Fukada/The New York Times

    O vendendor de gafanhotos não precisa gritar para atrair compradores: os insetos cantam por ele

  • Shiho Fukada/The New York Times

    Coelhos e outros animais de pequeno porte estão entre a variedade de produtos que os mascates cantantes vendem nas alamedas de Pequim



Ainda mais numerosos do que os mascates são os catadores. Migrantes do interior, queimados pelo sol, sobrevivem coletando os jornais do dia anterior, computadores ultrapassados ou cobertores de algodão rasgados que serão costurados para fazer as colchas do próximo inverno.

"Se você não consegue gritar alto, morre de fome", disse Chen Li, 37, um homem animado e ossudo que ganha cerca de US$ 5 (R$ 9) por dia recolhendo equipamentos quebrados e qualquer coisa que contenha metal.

"Ninguém sabe exatamente o que eu estou gritando", disse ele, "mas eles se lembram da minha melodia e isso faz com que saiam de suas casas".

Os mascates cantores e os catadores são lembranças da época em que Pequim era um labirinto de hutongs, ou alamedas, densamente povoadas, que se estendiam a partir da grandiosa área imperial ocupada pelos monarcas da China e pelos oficiais e artesãos que os serviam. Cao Huiping, 45, um motorista de táxi que morava em um conjunto com outras 17 famílias na infância, lembra-se de quando os vendedores enchiam o ar com a cacofonia das melodias que competiam entre si.

"Num minuto era alguém vendendo açúcar, depois, logo que sua música sumia, aparecia o vendedor de farinha, depois o de tecidos", disse Cao, cuja casa desde então foi substituída por um shopping elegante. "Agora eu moro num prédio onde as pessoas nem mesmo conhecem umas às outras, e todos compram no supermercado."

Os conjuntos de apartamentos cercados são os inimigos dos mascates. Da mesma forma que os aparelhos de ar condicionado, que não permitem ouvir os pregões de vendas e mantêm os moradores do lado de dentro.

As autoridades da cidade também não são amigas dos vendedores de rua. Leis restritivas e funcionários do gerenciamento urbano, conhecidos como chengguan, os mantém sempre em movimento com multas e perseguição. "A melhor hora é a hora do almoço, quando os chengguan não estão trabalhando", disse Meng Xiangdong, 54, vendedor de batata-doce seca, enquanto observa a multidão nervosamente.

Um bom lugar para sentir um gostinho da velha Pequim é Qianmen, um bairro pobre e colorido ao sul da Praça Tiananmen que é uma confusão de hutongs tortuosos e casebres. Na maioria dos dias, é possível encontrar mascates vendendo abacaxis meticulosamente descascados, um homem oferecendo dois tipos de mel - puro e medicinal - e um sapateiro que consegue trocar a sola de um par de sapatos com a mesma rapidez que come uma tigela fumegante de macarrão.

Segurando um bule de latão e observando três pares de periquitos engaiolados, Wu Xiulong, 76, estava sentado na frente de seu quintal enquanto se lembrava dos vendedores cuja chegada ele costumava esperar quando era criança: o homem do bolinho de feijão, o vendedor de milho, o padeiro que fazia o pão chato mais crocante. "Ah, na época eles eram assados dos dois lados, tão crocantes, com sementes de gergelim", disse ele. "Era uma delícia. Agora eles não existem mais".

Zhao Cai, um amolador de facas de 66 anos de idade, é um dos vendedores da velha guarda que ainda podem ser encontrados perambulando com uma caixa de ferramentas surrada que faz as vezes de banco. Seu chamado é enérgico, porém melódico; se bem que uma vez que ele começa a trabalhar numa lâmina, o barulho da pedra de amolar no metal já faz com que as mulheres idosas saiam de casa com seus estimados cutelos. "Odeio aço inoxidável", diz ele enquanto pedala a mó. "Ninguém faz mais facas como antigamente."

Rude e pouco sentimental, com um sotaque que denuncia sua origem no nordeste da China, Zhao está em seu ramo há mais de 30 anos. "Quando você é bom em afiar facas, você acaba conhecendo todo mundo", disse ele. O quanto ele é bom? Os clientes às vezes testam desavisadamente o trabalho dele tocando a lâmina afiada. "Já teve senhoras que cortaram o dedo e juraram que não sentiram nada", disse.

Enquanto ele falava, uma batida estrondosa às suas costas foi seguida por uma nuvem de poeira. Trabalhadores com roupas alaranjadas estavam rasgando as placas dos prédios próximos, parte de uma campanha do governo para tornar o bairro mais atraente para os turistas que não gostam de tanto caos visual durante a experiência na Velha Pequim. "Não reconheço mais algumas das ruas por aqui", disse ele antes de fugir do avanço da equipe de demolição.

Um homem que não precisa de nenhum anúncio verbal é Li Hailun, um vendedor de gafanhotos. Seus produtos, centenas de insetos sem asas presos dentro de gaiolas de tecido redondas, produzem uma sinfonia aguda e ensurdecedora. De julho a outubro, Li, 28, anda de bicicleta pela cidade com suas presas cantantes, vendidas cada uma por preços que variam de 50 centavos a US$ 1, dependendo do quanto cantam e da boa fé do comprador. Acrescente mais US$ 1 se a criatura vier numa bela gaiola de madeira.

A maioria das pessoas do vilarejo de Li, a cerca de duas horas de carro da capital, dedica-se ao comércio de gafanhotos: as mulheres costuram as gaiolas, os meninos capturam os insetos e os homens pedalam para vendê-los aos moradores mais nostálgicos das cidades. Quando as vendas caem, ele vai para os portões do hospital infantil mais próximo. Subtraindo uma taxa ocasional por vender sem licença, Li embolsa US$ 200 por semana, uma quantia razoável para um fazendeiro de sorgo no intervalo entre o plantio e a colheita.

Os insetos atraem uma multidão onde quer que Li vá. Num dia recente, os passantes debatiam se deveriam alimentá-los com cenouras, cebolinha ou arroz. Uma mulher disse que bebês criados perto de um inseto que canta não se assustam tanto com barulho.

"Quando o cara do gafanhoto chega, você sabe que chegou o verão", disse um homem que estava querendo substituir seu gafanhoto, preso ao espelho retrovisor, a quem só restavam as últimas pernas.

Li, o eterno vendedor, acrescentou sua oferta poética. Ele disse que os chineses criam gafanhotos há centenas de anos. Até Qianglong, imperador da dinastia Qing, era um conhecedor da variedade de briga.

"Todo mundo adora os gafanhotos", disse Li. "Quando eles cantam, não dá para não ficar feliz."

Tradução: Eloise De Vylder

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