UOL Notícias Internacional
 

15/09/2009

Obama enfrenta um público difícil em Wall Street

The New York Times
Stephen Labaton e Jeff Zeleny
Em Nova York (EUA)
Na segunda-feira, o presidente Barack Obama advertiu duramente o setor financeiro e os legisladores a aceitarem suas propostas para mudar a regulamentação financeira, para proteger o país de uma repetição dos excessos que levaram o Lehman Brothers à falência, causando caos na economia global no ano passado.
  • Ruth Fremson/The New York Times

    Obama repreendeu os membros de Wall Street na plateia no Federal Hall. "Em vez de aprender as lições da crise da qual ainda estamos nos recuperando, eles estão optando por ignorá-las"


Mas com os mercados se recuperando lentamente, o plano de Obama para mudança das regras financeiras enfrenta um imperativo político cada vez menor. O desencanto de muitos americanos com o grande governo, juntamente com os crescentes obstáculos dos lobistas do setor financeiro, que pressionam o Congresso a não fazer nada drástico, contribuem para obstruir suas propostas.

Obama repreendeu os membros de Wall Street na plateia no Federal Hall. "Em vez de aprender as lições do Lehman e da crise da qual ainda estamos nos recuperando, eles estão optando por ignorá-las", disse Obama. "Eles estão fazendo isso não apenas colocando a si mesmos em risco, mas também à nação."

O discurso marcou o aniversário de um ano do colapso do Lehman Brothers e implicitamente reconheceu que o tempo era um inimigo da reforma. Por toda a história, a maioria das leis mais importantes para mudança do sistema financeiro nasceu do caldeirão de uma crise. Altos funcionários reconheceram que à medida que o sistema financeiro começa a se recuperar, um tipo de inércia política começa a se estabelecer, na qual os legisladores têm menos incentivos para agir de forma ousada.

Esperando promover o projeto de lei, Obama disse: "Eu quero que eles ouçam minhas palavras. Nós não voltaremos aos dias de comportamento imprudente e excessos sem supervisão presentes no coração desta crise, onde muitos eram motivados apenas pelo apetite por lucros fáceis e bônus inchados".

Ele também alertou que "as pessoas em Wall Street não podem voltar a assumir riscos sem consideração pelas consequências e esperar que da próxima vez os contribuintes americanos estarão lá para aparar sua queda".

O discurso de Obama em Nova York, como seu discurso ao Congresso na semana passada sobre a reforma da saúde, faz parte do esforço para recolocar o plano nos trilhos políticos. Mas com o Senado preocupado com a reforma da saúde do presidente e com a forte oposição aos itens centrais da reforma financeira, o presidente enfrenta grandes obstáculos tanto no conteúdo quanto no prazo.

Os líderes democratas no Congresso planejavam originalmente fazer com que a Câmara concluísse seu trabalho na reforma financeira, antes de encaminhar o projeto a um Senado mais resistente. Mas o prazo mais apertado forçou os legisladores a repensarem a estratégia.

Nesta semana, o deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts e presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, deverá anunciar uma série de audiências para os próximos dias, antes de seu comitê encaminhar a legislação em outubro. Assessores disseram que ele espera enviar o projeto de lei ao plenário até o final do próximo mês ou mais tardar no início de novembro.
  • Ruth Fremson/The New York Times

    Na plateia, o deputado republicano Barney Frank, presidente da Comissão Bancária da Câmara;
    o prefeito Michael Bloomberg, de Nova York; Paul Volker, presidente do Conselho de Recuperação Econômica de Obama e ex-presidente do Federal Reserve (Fed); Christina Romer, presidente do Conselho de Assessores Econômicos; e Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA



Há menos certeza no Senado, onde Christopher J. Dodd, democrata de Connecticut e presidente do Comitê Bancário do Senado, está trabalhando para elaborar um pacote que possa superar a ameaça de uma obstrução.

"O fracasso em agir deixa nossa economia em risco", disse Dodd em uma declaração após o discurso do presidente. "Nós não permitiremos que nossos esforços sejam obstruídos por interesses especiais bem financiados, que visam manter o status quo."

Mas oponentes republicanos da legislação do governo disseram que ela sofre dos mesmos problemas que o plano de reforma da saúde da Casa Branca.

"O presidente ofereceu uma proposta de reforma que concederia uma nova e ampla autoridade a burocratas do governo, invadindo o mercado privado e restringindo a opção pessoal", disse o deputado Spencer Bachus do Alabama, o líder da bancada republicana no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara. "A lição óbvia dos eventos de setembro de 2008 é que precisamos tornar a regulamentação mais inteligente, não aumentá-la, não aumentar a burocracia do governo, não oferecer mais incentivos para adoção de práticas de negócios danosas."

Uma grande dificuldade é que muitas das questões não se dividem segundo as linhas partidárias - elas tendem a forçar desacordos entre setores e vários daqueles que os apoiam no Congresso. Logo, a disputa é tanto entre os democratas quanto entre partidos.

Grandes instituições e bancos comunitários se uniram contra o item central do plano, a criação de uma nova agência de proteção às finanças do consumidor. A nova agência regularia hipotecas, cartões de crédito e outras formas de dívida do consumidor. As empresas, e seus aliados republicanos e democratas no Congresso, temem que a nova agência possa levar a uma supervisão desnecessariamente incômoda.

Alguns importantes reguladores, incluindo Sheila C. Bair, a chefe do Seguro Federal de Depósitos, apoiam a criação da nova agência, mas disseram que dariam a ela menos autoridade do que o presidente está pedindo.

Os legisladores, particularmente no Senado, mas também na Câmara, se mostram céticos em relação a uma segunda grande plataforma, que daria ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano) mais autoridade explícita para monitorar os mercados em busca de problemas que atinjam todo o sistema.

Os oponentes prefeririam um maior papel para um conselho de reguladores. O plano de Obama cria esse conselho, mas coloca o Fed acima dele e reconhece, como disse o secretário do Tesouro, Timothy F. Geithner, que não dá para apagar incêndio por comitê. Geithner, que antes de ingressar no governo foi chefe do Federal Reserve de Nova York, disse que o plano do governo para o Fed é tanto incremental quanto essencial.

Ele e Ben S. Bernanke, o presidente do Fed, também disseram que nenhuma outra agência está melhor posicionada para exercer o papel principal no monitoramento dos mercados à procura de problemas potenciais, que podem atingir em cascata todo o sistema financeiro.

Mas ainda há questões sobre o fracasso do Fed em adotar medidas de proteção ao consumidor, para coibir as hipotecas abusivas e outras regulamentações que poderiam ter reduzido o risco assumido pelos grandes bancos sob sua supervisão. E os principais diretores do Fed foram lentos para compreender a profundidade dos problemas assim que a crise começou.

Nas últimas semanas, Frank tem dito que o Fed poderia ter que compartilhar o papel de regulador de risco ao sistema, indicado que não existe apoio suficiente no Congresso para dar apenas ao Fed a maior autoridade que o presidente está buscando. Outros elementos centrais do plano também estão sob ataque.

Grandes empresas de Wall Street, por exemplo, também buscam diluir a proposta do presidente para endurecimento das regras para derivativos, como os swaps de crédito. Elas também têm feito lobby pesado para assegurar que quaisquer tentativas de impor novas restrições mais duras à remuneração dos executivos não sejam aprovadas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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