UOL Notícias Internacional
 

16/09/2009

Comissão ordena recontagem de votos no Afeganistão

The New York Times
Richard A. Oppel Jr. e Sangar Rahimi
Em Cabul (Afeganistão)
Uma em cada sete cédulas das eleições presidenciais afegãs do mês passado - e possivelmente muitas outras - será examinada como parte de uma grande recontagem e investigação de fraudes que poderá obrigar o atual presidente, Hamid Karzai, a enfrentar um segundo turno, afirmaram na terça-feira (15) autoridades eleitorais afegãs.

Uma comissão apoiada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que atua no país como árbitro supremo da eleição, ordenou a recontagem de cerca de 10% dos votos do país devido à suspeita de fraude, disse na terça-feira o diretor do painel, embora o número de votos reais sujeitos à recontagem seja bem maior, segundo revelam números exibidos por uma autoridade eleitoral afegã.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Tão logo acabou as eleições, o candidato Abdullah Abdullah denunciou as supostas fraudes. Em coletiva de imprensa, segurou um livro inteiro com cédulas preenchidas, aparentemente antes do dia do pleito, todas em favor do presidente Karzai



A eleição de 20 de agosto foi repleta de fraudes eleitorais e deposições de cédulas irregulares nas urnas, o que fez o Afeganistão mergulhar em uma crise eleitoral em um momento em que o Taleban ganha terreno no acidentado interior do país.

Algumas autoridades ocidentais temem que esse fato possa prejudicar os esforços norte-americanos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no sentido de estabilizar o país, ao reduzir o respeito dos afegãos pelo governo e diminuir o apoio ao aumento de tropas nos Estados Unidos e na Europa, onde cresce a desaprovação a esta guerra que já dura oito anos.

Autoridades ocidentais estão bastante divididas quanto à firmeza com que exigirão das autoridades governamentais afegãs, muitas delas leais a Karzai, que adotem medidas contra fraudes mais rígidas.

Essa divisão tornou-se pública nesta semana, quando o embaixador Peter Galbraith, um norte-americano que é a segunda autoridade mais importante na missão local da ONU, retornou abruptamente aos Estados Unidos, após desentender-se com o principal representante da ONU em Cabul, Kai Eide, quanto a energia com que o governo afegão deveria ser admoestado.
Galbraith preferiria uma postura mais dura.

"Kai e eu temos visões diferentes sobre como proceder, mas continuamos amigos e concordamos quanto a quase tudo mais", afirmou Galbraith em uma entrevista por telefone na terça-feira. "Tendo em vista esta discórdia, eu sugeri que este seria um bom momento para que eu me afastasse da missão, e ele concordou".

"Essa eleição deveria ser decidida matematicamente por meio de uma contagem honesta de votos depositados pelos eleitores, e não politicamente", acrescentou Galbraith.

Funcionários graduados da ONU enfatizaram que Galbraith deverá retornar ao Afeganistão no final do mês, e que Eide também está empenhando-se em acabar com a fraude eleitoral. "Certamente a eleição está gerando posições diferentes no seio da missão", disse um funcionário da ONU, que pediu para não ser identificado devido ao protocolo diplomático.

A cada dia que o processo se estende aumenta a probabilidade de que, caso haja um segundo turno, o país acabe tendo aquilo que muitos afegãos verão como um governo ilegítimo no decorrer do longo inverno. A menos que os resultados sejam certificados dentro de quatro a seis semanas, será muito tarde para realizar uma outra eleição, antes que o tempo inclemente a inviabilize. Só em abril a neve terá se derretido em quantidade suficiente para possibilitar uma outra eleição em nível nacional.

Tal cenário, segundo um diplomata, consistiria em um "território não mapeado", que reduziria ainda mais a credibilidade de um governo que já é considerado fraco, corrupto e incompetente.

Karzai lidera com 54,3% dos votos, uma margem aparentemente confortável acima da margem de 50% necessária para evitar um segundo turno contra o seu adversário mais popular, o ex-ministro das Relações Exteriores Abdullah Abdullah, que conta com 28,1% dos votos.

A Comissão de Queixas Eleitorais, que juga os resultados da eleição e que é apoiada pela ONU, declarou na semana passada ter encontrado "evidências claras e convincentes de fraude". Ela ordenou uma recontagem e a investigação das urnas e cédulas em todo local de votação que apresentasse mais de 600 votos ou no qual mais de 100 votos e 95% das cédulas favorecessem um único candidato.

A comissão eleitoral independente afegã, que está executando a ordem, determinou que 2.516 locais de votação, ou quase 10% do total, encontram-se em uma ou nas duas situações, segundo Grant Kippen, um canadense que chefia a comissão de queixas.

Mas o número de votos realmente sujeitos a recontagem é muito maior. Daoud Ali Najafi, um membro da comissão eleitoral, anunciou as descobertas em uma entrevista na terça-feira: 505 postos de votação tiveram mais de 600 votos; 1.325 postos tiveram mais de 100 votos e pelo menos 95% da votação total em um único candidato, e 689 locais de votação atenderam a ambos os critérios. O número de postos de votação citados por Najafi - 2.519 - é o triplo do relatado por Kippen.

Caso os números de Najafi sejam precisos, isso significaria que um mínimo de cerca de 850 mil votos estão sujeitos a recontagem, o que representa aproximadamente 15% da votação total até o momento. Esses resultados mostram Karzai com 3.009.559 de um total de 5.545.149 votos válidos. Não se sabe ao certo quantos votos poderão acabar sendo anulados.

Embora haja postos de votação em cada uma das 34 províncias do Afeganistão sujeitos à recontagem e à investigação, Najafi diz que, entre as províncias com a maior quantidade de urnas afetadas estão Kandahar, Paktika, Faryab e Cabul, nas quais Karzai venceu, e Badghis e Ghor, onde o vencedor foi Abdullah. A província de Ghazni, onde o terceiro colocado, Ramazan Bashardost, vence Karzai por uma estreita margem, também tem postos de votação que estarão sujeitos a uma recontagem.

Najafi deu a entender que um segundo turno talvez só seria possível na próxima primavera do hemisfério norte. Ele afirmou que poderá ser necessário um mês e meio para a conclusão da recontagem e da investigação, e acrescentou que os resultados precisariam ser certificados até a segunda semana de outubro para que houvesse um segundo turno em outubro.

"Se demorarmos mais do que isso, a neve chegará e não será possível realizar eleições", explicou Najafi.

O porta-voz de Abdullah disse que a recontagem foi um "passo positivo", mas afirmou que é necessário que mais votos sejam recontados.

"A fraude foi muito mais ampla", acusou o porta-voz, Fazel Sancharaki.
Os oponentes de Karzai acreditam que a votação real no presidente, depois que os votos fraudulentos forem descartados, ficará pelo menos vários pontos percentuais abaixo dos 50%.

Waheed Omer, um porta-voz da campanha de Karzai, disse estar convicto de que Karzai ainda terá mais de 50% dos votos depois que as cédulas fraudulentas forem descartadas.

Mas Omer não respondeu diretamente quando lhe perguntaram se Karzai aceitaria incondicionalmente os resultados finais, que precisam ser endossados pela comissão de queixas.

"Caso isso seja feito de forma transparente, e de uma maneira responsável, e se a nossa voz for ouvida, esse será um processo que nós respeitaremos e, sem dúvida aceitaremos, o resultado", disse ele.

Tradução: UOL

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