UOL Notícias Internacional
 

16/09/2009

Grupo de direitos humanos afasta funcionário que colecionava objetos nazistas

The New York Times
John Schwartz
Em Nova York (EUA)
Um importante grupo de defesa dos direitos humanos suspendeu seu analista militar sênior após revelações de que ele é um colecionador ávido de artefatos nazistas.

O grupo, Human Rights Watch, havia inicialmente dado seu total apoio ao analista, Marc Garlasco, quando as notícias de seu hobby vieram à tona na semana passada. Na segunda-feira à noite, o grupo mudou de ideia e suspendeu-o sem pagamento, "esperando uma investigação", disse Carroll Bogert, diretora-associada do grupo.

"Temos dúvidas se descobrimos tudo o que precisávamos saber", disse ela.

A suspensão veio num momento de aumento de tensão entre, de um lado, o novo governo israelense e seus aliados da direita, e do outro, as organizações de direitos humanos que vêm criticando Israel. Nos últimos meses, o governo prometeu uma abordagem mais agressiva em relação aos grupos para tirar o crédito do que eles argumentam, afirmando que é equivocado e tendencioso.

Injetado repentinamente no calor do conflito, as notícias sobre o interessse de Garlasco pareceram chocantes para muitos. A revelação ricocheteou por toda a internet: Garlasco, um norte-americano, não era apenas um colecionador, ele havia escrito um livro, com mais de 400 páginas, sobre medalhas da era nazista. Seu hobby, inspirado diz ele por um avô alemão convocado pelo exército de Hitler, foi revelado num blog pró-israelense, Mere Rhetoric, que citou suas mensagens entusiasmadas nos sites de colecionadores que escrevia sob o pseudônimo "Flak88" - como esta: "Isso é muito legal! A jaqueta de couro da SS faz meu sangue gelar, é muito LEGAL!".

Foi um momento Rorschach no conflito entre Israel e seus críticos. As revelações eram, dependendo de quem estava falando, ou provas incontestáveis de preconceito ou uma difamação irrelevante.

O texto do Mere Rhetoric disse que os interesses de Garlasco explicavam as "tendências anti-Israel".

O governo do primeiro ministro Benjamin Netanyahu também pesaram, mas suas visões sobre grupos como o Human Rights Watch já eram claras. O diretor de política de Netanyahu, Ron Dermer, disse ao The Jerusalem Post em julho: "Nós vamos dedicar tempo e pessoal para combater esses grupos; não vamos ser como patos sentados no lago para os grupos de defesa dos direitos humanos venham e atirem em nós impunemente."

Depois que as notícias sobre Garlasco vieram à tona, Dermer chamou-as de "talvez uma nova queda".

A princípio, o Human Rights Watch, uma organização global com sede em Nova York, divulgou uma declaração inequívoca de apoio a Garlasco, dizendo que ele "nunca teve ou expressou nenhuma visão nazista ou antissemita."

Bogert disse na época que seu trabalho foi "extensivamente revisado, tanto do ponto de vista legal, escrutinizado, pulverizado por nosso programa e equipe legal, e não tivemos nenhum motivo para questionar o julgamento profissional dele em seis anos."

Garlasco, que trabalhou no Pentágono ajudando a encontrar bombas na segunda guerra no Golfo Pérsico, desde então viajou o mundo pela Human Rights Watch, investigando e escrevendo relatórios sobre o suposto uso de munições de fósforo branco em Gaza, munição aglomerada na Rússia e Geórgia, e outras práticas militares no Iraque, Afeganistão e Líbano.

Bogert chamou os ataques contra Garlasco e seu grupo de "uma distração do tema real, que de fato é o comportamento do governo israelense."

Mas alguns que apoiam firmemente a Human Rights Watch ficaram abalados com as atividades extracurriculares do pesquisador.

Helena Cobban, uma blogueira e ativista que está no comitê de aconselhamento sobre o Oriente Médio do grupo, perguntou em seu blog "Just World News" se as atividades de Garlasco eram "algo que um empregador como a Human Rights Watch deveria se preocupar? Depois de considerar, eu diria que sim."

Outros grupos dizem que sentiram mais pressão do governo israelense e seus aliados. "Recentemente temos visto uma nova atitude, um aumento na pressão", disse Sari Michaeli, assessora de imprensa para o grupo B'Tselem, que recentemente recebeu duras críticas dos militares israelenses por causa de um relatório que concluía que mais da metade das vítimas palestinas na ofensiva à Faixa de Gaza eram civis.

Garlasco recusou-se a ser entrevistado. Mas na sexta-feira ele publicou um ensaio no Huffington Post no qual ele chamava os nazistas de "piores criminosos de guerra de todos os tempos", explicando que ele era simplesmente um "aficionado em coisas militares" cujo interesse vem de sua própria história familiar.

"Eu nunca escondi meu hobby, porque não há nada vergonhoso em relação a isso, embora possa parecer estranho para os que não são fascinados por história militar", escreveu. "Precisamente porque é tão óbvio que os nazistas eram maus, eu nunca percebi que outras pessoas, incluindo amigos e colegas, poderiam se perguntar o motivo pelo qual eu me interesso por essas coisas."

Yaron Ezrahi, professor de ciência política na Universidade Hebraica em Jerusalém, disse que ele não acreditava que o interesse de Garlasco em antiguidades nazistas poderia sustentar críticas de "parcialidade premeditada". Ele disse, entretanto, que a credibilidade da Human Rights Watch pode ter sido afetada porque o hobby de Garlasco "deu munição aos fanáticos de direita" que "trabalham dia e noite para demonizar qualquer indivíduo ou organização que levantem questões sobre as práticas militares de Israel quando eles acabam até com vítimas civis não intencionais."

E isso é uma das coisas que mais parece irritar Cobban, que disse numa entrevista que a controvérsia foi usada pelo governo e seus ajudantes na luta.

"Eles ganharam um presente estilo deus ex machina", disse ela, "com a descoberta de Garlasco e seu hobby fora do expediente."

Tradução: Eloise De Vylder

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