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17/09/2009

Alegação de fraude em corrida agita a Fórmula 1

The New York Times
John F. Burns
Em Londres (Reino Unido)
Ao longo do último mês, a Fórmula 1 foi traumatizada pelas alegações de um piloto de que houve fraude no Grande Prêmio de Cingapura de setembro do ano passado, com um acidente planejado pela equipe Renault para permitir que seu primeiro piloto saltasse de uma posição intermediária para uma vitória inesperada.

Muitos no esporte temem que se a alegação for comprovada, este poderia ser um escândalo capaz de superar todas as turbulências anteriores e até abalar as finanças já frágeis da categoria, colocando em risco bilhões de dólares em investimento por algumas das maiores empresas automotivas e patrocinadores corporativos do mundo.
  • Luca Bruno/AP

    Briatore ameaçou processar os Piquet, mas a Renault disse que não vai contestar as acusações



Esses temores pareceram se confirmar na quarta-feira, quando a equipe Renault com sede no Reino Unido - financiada a um custo de talvez US$ 300 milhões (cerca de R$ 539 milhões) por ano pela empresa Renault, com sede em Paris - anunciou que não contestaria a acusação de manipulação da corrida quando a entidade que rege a Fórmula 1, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), convocar um tribunal para ouvir as acusações em Paris, na segunda-feira.

"A equipe Renault Formula One não contestará as recentes acusações feitas pela FIA em relação ao Grande Prêmio de Cingapura de 2008", disse a equipe em uma declaração.

A declaração disse que os dois homens supostamente responsáveis por armar o acidente, ambos veteranos de campeonatos anteriores, deixaram a equipe. Flavio Briatore, um italiano de 58 anos, era o chefe da Renault, e Pat Symonds, um inglês de 55 anos, era o diretor de engenharia da equipe. Em Paris, a federação anunciou que prosseguiria com o tribunal. Entre as possíveis penas estão a exclusão da Renault do esporte.

A equipe Renault não retornou os telefonemas.

Os desdobramentos do dia representaram a maior crise na história de uma categoria que se posicionou como o pináculo do esporte a motor internacional, como vitrine de um estilo aeroespacial, de tecnologia inovadoras que pessoas ligadas à Fórmula 1 acreditavam dar à categoria uma vantagem sobre as categorias com engenharia mais limitada, preocupada com custo, da Nascar e Fórmula Indy, que dominam o automobilismo americano. A Fórmula 1 alega ter uma audiência mundial de televisão de várias centenas de milhões.

Não há acusações de manipulação de corridas naquela que atualmente é conhecida como Fórmula 1 desde o Grande Prêmio de Trípoli de 1933. Aquela prova se viu envolta em controvérsia em consequência de alegações não provadas de que a vitória do corredor italiano, Achille Varzi, foi acertada entre os pilotos que dividiram o prêmio de uma loteria envolvendo a prova.

Mas a estabilidade da Fórmula 1 já tinha sido profundamente abalada antes do escândalo da manipulação da corrida por outras ocorrências, incluindo uma multa de US$ 100 milhões imposta à equipe britânica McLaren-Mercedes há dois anos, após ter sido descoberto que ela obteve documentos técnicos secretos da equipe italiana Ferrari.

Briatore anunciou na semana passada que tinha dado entrada em um processo na França, dizendo que as alegações de fraude eram uma tentativa do piloto brasileiro de 24 anos, Nelson Piquet Jr., e seu pai, Nelson Piquet, de "chantagear" a Renault a manter Nelsinho como um de seus dois pilotos.

Nelsinho Piquet foi demitido no meio da temporada de 17 provas deste ano, realizadas na Europa, Ásia, Oriente Médio e América do Sul. A corrida de Cingapura do ano passado ocorreu perto do final de sua primeira temporada na Fórmula 1, quando estava sob forte pressão de sua equipe após uma série de fracas apresentações, que incluíram acidentes e a incapacidade de alcançar os tempos de seu companheiro de equipe, o espanhol Fernando Alonso, duas vezes campeão da Fórmula 1 pela Renault.

Logo após sua última corrida pela Renault, os dois Piquets levaram a acusação à FIA, detalhes que foram vazados nos últimos dias aos repórteres que cobrem a Fórmula 1, juntamente com as transcrições das entrevistas da FIA com os envolvidos. Os dois brasileiros disseram que Nelsinho foi instruído em uma reunião em Cingapura com Briatore e Symonds, que queriam que ele batesse em um ponto específico da pista, logo após uma parada para reabastecimento incomumente antecipada de Alonso. O plano, disseram os Piquets, era para que o carro não pudesse ser removido rapidamente da pista, permitindo a Alonso assumir a ponta enquanto os demais pilotos faziam suas paradas para reabastecimento.

Como viram milhões de telespectadores ao redor do mundo, Piquet bateu na 14ª volta da corrida, após a parada para reabastecimento de Alonso na 12ª volta, obrigando a entrada do safety car na pista. Alonso venceu a prova, como fez três semanas depois no Grande Prêmio da China, onde não houve insinuação de fraude. Nada nos documentos vazados da FIA mostraram que Alonso estava ciente dos planos para o acidente, e ele se recusou a comentar antes do tribunal em Paris.

Segundo os documentos vazados da FIA, Nelsinho Piquet disse que estava em "um estado emocional muito frágil" quando foi pedido para que batesse, porque Briatore tinha se recusado a dizer se seu contrato seria renovado para 2009. Symonds foi citado nos documentos como tendo dito que foi Nelsinho que levantou a possibilidade da batida. Em outro ponto, ele foi citado como tendo dito aos investigadores da FIA: "Eu não tenho intenção de mentir para vocês. Não menti, mas guardei parte da minha posição".

Para a Fórmula 1, o impacto potencial vai além do risco da Renault ser excluída da categoria ou que deixe o esporte. O tribunal em Paris ouvirá as acusações de que os dirigentes da Renault armaram o acidente para conquistar uma vitória que persuadiria os executivos da Renault, em Paris, que buscavam cortar despesas em meio à queda mundial na venda de carros, a não abandonar a Fórmula 1.

Se a Renault deixar a Fórmula 1, ela seria a terceira grande fabricante, após a Honda e BMW, a deixar a categoria nos últimos nove meses. Apenas com equipes de propriedade da Mercedes-Benz, Toyota e Fiat, a dona da Ferrari, sobrando para explorar os recursos das grandes fábricas, a Fórmula 1 poderia ser forçada a voltar a uma era em que o grid de largada era composto principalmente de pequenas equipes independentes, sem recursos para desenvolver os motores e aerodinâmicas de alta tecnologia que estão no coração da categoria.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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