UOL Notícias Internacional
 

17/09/2009

Obama tenta evitar debate sobre raça e política

The New York Times
Jeff Zeleny e Jim Rutenberg
Em Washington (EUA)
O presidente Barack Obama há muito sugere que gostaria de deixar o assunto de raça para trás. A dúvida é se os Estados Unidos permitirão.

Ele acordou na quarta-feira em meio a um debate cada vez mais intenso sobre como sua raça interfere na discussão mais ampla sobre civilidade na política, provocada em parte pela afirmação do ex-presidente Jimmy Carter, na noite de terça-feira, de que racismo estava por trás do ataque de um deputado republicano contra Obama, no plenário da Câmara, na semana passada.
  • Doug Mills/The New York Times

    Foco Obama quer evitar o debate sobre raças
    nos EUA e se concentrar na reforma da saúde



Antes mesmo disso, vários conservadores acusaram seus pares liberais de os mancharem injustamente como racistas por fazerem críticas legítimas à Casa Branca.

A resposta de Obama a tudo isso, disseram assessores, tem sido dizer à sua equipe para não se deixar distrair pelas acusações e se concentrar na reforma da saúde e no restante de sua agenda política.

"Nós provavelmente poderíamos fazer um discurso muito poderoso sobre raça, como foi feito durante a campanha", disse Valerie Jarrett, uma alta assessora de Obama. "Mas no momento, sua maior prioridade doméstica é a reforma da saúde. É difícil, desafiadora e complicada. E se ele liderar pelo exemplo, nosso país estará bem melhor."

Durante a campanha presidencial, quando ele repudiou os comentários incendiários feitos pelo seu pastor, o reverendo Jeremiah Wright, ele usou o momento para explicar seus pontos de vista sobre raça nos Estados Unidos e convidar para a reconciliação. Quando ele tropeçou em julho e acusou a polícia de "agir estupidamente" na prisão de Henry Louis Gates Jr., o professor de Harvard, ele usou isso como o que chamou de momento de aprendizado.

Mas desta vez a Casa Branca deixou claro que não deseja se envolver no assunto, que além de ameaçar desviar a atenção do esforço pela reforma da saúde, poderia criar tensão adicional na ampla mas tênue coalizão eleitoral de Obama de liberais e moderados, democratas e independentes.

Obama sinalizou que não tem intenção de emprestar sua voz às alegações raciais feitas por Carter, se recusando a responder a pergunta de um repórter sobre o assunto no Escritório Oval, na quarta-feira. Seu secretário de imprensa, Robert Gibbs, disse aos repórteres novamente na coletiva de imprensa na Casa Branca, na quarta-feira, que Obama não compartilha a posição de Carter a respeito das motivações do deputado Joe Wilson, republicano da Carolina do Sul, que na semana passada gritava "Você mente!" durante o discurso de Obama ao Congresso.

Enquanto vários importantes democratas no Congresso se distanciavam dos comentários de Carter na quarta-feira, outros liberais apontaram para o que disseram ser um número cada vez maior de ataques com tons raciais: bandeiras confederadas, referências a enviar Obama para a África, fotos dele com rosto branco - como o Coringa do último filme do Batman- no protesto dos conservadores no último fim de semana em Washington, assim como o persistente questionamento sobre sua cidadania americana.

Vários conservadores, por sua vez, acusaram seus pares liberais de manchá-los injustamente como racistas por fazerem críticas legítimas à Casa Branca.

Em seu programa de rádio nesta semana, Rush Limbaugh disse: "Hoje, tudo se baseia em racismo; as críticas ao plano de reforma da saúde de Obama ou o que quer que seja". Na "Fox News", o ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich, acrescentou: "Eu acho que é muito destrutivo para a América sugerir que não podemos criticar um presidente sem que isso seja um ato racial".

É difícil medir quanto do ataque voltado contra Obama tem motivação racial e até que ponto é diferente daquele direcionado aos seus antecessores brancos.
  • Doug Mills/The New York Times

    Racista? O deputado republicano Joe Wilson, dedo em riste, chamou Obama de mentiroso no meio
    do discurso que o presidente fazia ao Congresso



Ex-assessores do presidente George W. Bush foram rápidos em lembrar nesta semana como os manifestantes frequentemente comparavam Bush a Hitler, e como o líder da maioria no Senado, Harry Reid, até mesmo o chamou de "perdedor" e "mentiroso".

"É possível encontrar imagens nas quais Bush é chamado de todo tipo de nome, com todo tipo de faixas erguidas e imagens sendo queimadas: eu já vi isso em todas as presidências", disse o general Colin Powell, que foi secretário de Estado no governo Bush, em uma entrevista logo após um encontro privado com Obama no Escritório Oval, na quarta-feira.

Powell disse acreditar que Obama estaria enfrentando uma hostilidade aparentemente maior, mas culpou a atual cultura partidária da Internet e das notícias por cabo por amplificar as vozes mais extremas, não necessariamente as tendências raciais.

"A questão não envolve raça, mas sim civilidade", disse Powell.

"Isso não quer dizer que repentinamente nos tornamos racialmente puros, mas falar constantemente a respeito e reduzir tudo a negros contra brancos não contribuiu para a causa da restauração da civilidade em nosso diálogo público."

Mas outros partidários de Obama dizem que não podem evitar de ver um racismo escancarado em alguns dos ataques conservadores.

"Não é possível agir como se não houvesse várias centenas de anos de contexto racial aqui, onde um rosto pintado tem um contexto racial neste país", disse Cornell Belcher, um analista de pesquisa democrata que ajudou a campanha de Obama e estudou o assunto racial extensamente.

Belcher e outros aliados de Obama disseram que parte do desconforto racial era inevitável, especialmente entre os eleitores brancos ultraconservadores que veem a ascensão de Obama como sendo uma mudança na ordem social em detrimento deles.

"É difícil porque as pessoas não viram isso antes -elas nunca viram um presidente negro querendo falar com seus filhos, um homem negro dizendo 'Nós podemos fazer melhor'", disse o deputado Elijah Cummings, democrata de Maryland e ex-presidente da bancada negra no Congresso.

Obama conta com muitos assessores brancos que passaram anos lidando com raça no contexto da política. Ele também conta com um grupo próximo de amigos e conselheiros afro-americanos para os quais o debate racial que está borbulhando nesta semana não é um assunto abstrato, mas um modo de vida. Ocorreram tensões ocasionais entre os grupos no passado, mas pelo menos na quarta-feira, não havia sinais óbvios de desacordo.

Sua meta, disse Obama para ambos os lados, é ser visto como um homem negro que por acaso é o presidente, em vez do primeiro presidente negro do país.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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