UOL Notícias Internacional
 

18/09/2009

Depois de anos de caos na Somália, um líder talvez tenha uma chance

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Mogadício (Somália)
Dos portões da Villa Somália, palácio presidencial no alto de um morro, esta ruína de cidade parece quase pacífica.

Após duas décadas de guerra civil, praticamente não há poluição, já que quase toda a indústria do país foi arrasada. Uma brisa limpa vem o oceano e agita as buganvílias. Poucos carros restam na cidade e relativamente poucas pessoas, porque centenas de milhares fugiram recentemente. É surrealmente silencioso, exceto pelo ocasional tiro de rifle.
  • Jehad Nga/The New York Times

    Soldados seguram seus filhos no colo em um quartel de Mogadício, a capital da Somália


O presidente Sheik Sharif Sheik Ahmed está sentado em sua escrivaninha de terno azul listrado, chapéu de prece, óculos de designer e um relógio volumoso com ar de caro. Ele está cercado de inimigos e é protegido 24h por soldados ugandenses que literalmente acampam na sua porta. Nas raras ocasiões em que deixa o palácio, é levado ao aeroporto em um veículo blindado. Os poucos vislumbres que tem das ruas desertas de Mogadício são por vidros à prova de bala de duas polegadas.

"Este governo enfrentou obstáculos sem paralelos", disse Sharif, ex-professor escolar que se tornou presidente em fevereiro. "Tivemos que lidar com grupos terroristas internacionais criando caos em toda parte. Seu plano era derrubar o governo logo que começasse. O governo provou que pode durar."

A possibilidade de sucesso de Sharif ainda é vaga, mas este governo moderado islâmico é amplamente considerado a melhor chance em anos de a Somália ter estabilidade.

Pela primeira vez em décadas - incluindo 21 anos de ditadura e 18 anos de caos que se seguiram - o líder da Somália tem amplo apoio de base dentro do país e extensa ajuda de nações de fora, dizem analistas e muitos somalis.

"Este governo é qualitativamente diferente dos que vieram antes dele, mas não devemos nos enganar, ele precisa agir rapidamente", disse Rashid Abdi, analista do Grupo de Crise Internacional.

Grande parte do mundo está contando com Sharif para atacar a pirataria e conter a disseminação do islamismo militante, dois problemas somalis que se tornaram importantes questões geopolíticas. A Al Qaeda parece estar se aproximando dos insurgentes somalis em um esforço para tornar este país um porto de lançamento para a jihad mundial. Nesta semana, agentes americanos mataram um membro da Al Qaeda no sul da Somália, em uma batida ousada de helicóptero à luz do dia.

Após anos de ambivalência sobre a Somália, os EUA estão assumindo um papel cada vez mais ativo aqui e recentemente enviaram 40 toneladas de armas para manter o governo de Sharif vivo.

Contudo, as forças armadas somalis parecem sifões. Muitos de seus comandantes ainda têm laços com o Shabab, insurgentes islâmicos que trabalham com a Al Qaeda para derrubar o governo de Sharif e vários oficiais admitiram que uma grande parte das armas americanas rapidamente escorregaram para mãos da Shabab.

Se não fossem os 5.000 soldados da União Africana que vigiam o porto, o aeroporto e a Villa Somália, muitos somalis acreditam que o governo de Sharif cairia rapidamente.

"Não ia durar dias", disse Asha A. Abdalla, membro do Parlamento. "Seriam horas."

O chefe de inteligência da Somália, general Mohamed Sheik, disse que quando Sharif assumiu o cargo, o governo tinha 37 "técnicos", uma invenção somali que é uma caminhonete equipada com um canhão atrás. Então decidiu dar os "técnicos" para milícias islâmicas aliadas ao governo.

"Esse foi nosso erro", disse Mohamed. "Eles desertaram. Uma vez foram quatro. Da outra, foram dois; agora, não temos mais 'técnicos'."

Sharif é um tipo novo de político para a Somália porque, para começar, não é político. Por décadas, este lânguido país costeiro foi reduzido a ruínas por generais, senhores de guerra e guerrilheiros.

Sharif, 43, está acostumado a carregar um compasso, não uma arma. Estudioso e reservado, estudou a política de clã do país e encontrou algo similar a um centro político, uma mistura de crenças islâmicas moderadas e mais estridentes com a ênfase na religião, não no clã. Para ajudar, ele reuniu um grupo de cérebros impressionantes de somali-americanos, somali-canadenses e somali-europeus com doutorados que vinham esperando há anos para ajudar a reconstruir o país.

Contudo, o tempo está passando. A cada dia que Sharif fica encastelado em seu palácio na montanha, com milhões de pessoas à beira da morte por inanição por causa da seca e de granadas explodindo diante dos portões do palácio, a euforia que recebeu sua ascensão vira desconfiança.

A Villa Somália talvez esteja segura, mas o resto de Mogadício, a capital, é uma armadilha mortífera com homicídios, minas terrestres e violência absurda. Morteiros errantes rotineiramente decepam braços e pernas de crianças.

Como o presidente, a Shabab é uma raridade política. Os assessores do presidente alegam que nunca viram uma força tão coesiva, bem treinada e ideológica. A Shabab e seus irmãos insurgentes agora controlam a maior parte de Mogadício e grande parte do país. Muitas vezes é chamada de Taleban somali, e vem serrando as mãos de ladrões e arrancando os dentes das pessoas, dizendo que blocos de ouro de alguma forma não são islâmicos.

Os somalis, contudo, não são religiosamente tão extremos como a presença da Shabab possa implicar, e muitos dizem que estão cansados da Shabab. Isso pode dar uma enorme oportunidade para Sharif, apesar dos críticos dizerem que ele deve sair da Villa Somália mais e conectar-se com a população sofrida.

"Isso realmente é uma questão de corações e mentes", disse Ahmed Abdisalam, vice-primeiro-ministro no último governo somali. "Este governo precisa alcançar o público. Se eles tiverem o público com eles, a Shabab não poderá sobreviver."

De fato, a Shabab tem seus próprios desertores e pode estar perdendo apoio crítico. Dois jovens que deixaram suas forças recentemente disseram que a mina de dinheiro da Shabab, que costumava vir de somalis ricos fora do país, estava secando na medida em que mais somalis defendiam Sharif. Assistentes sociais disseram que a Shabab estava cobrando impostos sobre a comida em seu território, uma medida muito pouco popular quando os preços dos alimentos já estão altos pela seca.

Em uma frente de batalha há poucos dias, ao longo da praia destruída de Mogadício, soldados do governo atacaram fortificações da Shabab com metralhadoras pesadas. A Shabab devolveu o fogo com rifles de um tiro só.

Os membros da Shabab costumavam ser considerados verdadeiros lutadores pela liberdade, que lideravam a batalha contra milhares de soldados etíopes na Somália, que defendiam o governo de transição anterior.

Mas agora os etíopes partiram, a Chabab parece estar passando por uma crise ideológica. Seu foco não é mais liberar a Somália, dizem os desertores, mas algo maior.

"Nossos comandantes tentavam explicar que não há uma bandeira nacional somali e nem fronteiras nacionais", disse um desertor recente chamado Mohamed que não quis se identificar. "Eles nos disseram que a jihad nunca vai terminar. Uma vez terminada na Somália, vamos para o Quênia e depois para outra parte."

Os interesses globais talvez afastem somalis, mas parecem atrair jihadistas nômades procurando a próxima guerra santa. Ex-comandantes insurgentes pintam um retrato mais alarmante do que as autoridades americanas, que alegam que há apenas algumas centenas de combatentes estrangeiros na Somália.

"Há milhares", disse Sheik Yusuf Mohamed Siad, que recentemente uniu-se ao governo depois de deixar o grupo insurgente Hizbul Islam, associado à Shabab. Ele disse que esses homens com experiência em batalhas vinham do Paquistão, Afeganistão e Sudão, e que uma célula de homens bomba estava sendo treinada em Mogadício por Fazul Abdullah Mohamed, agente da Al Qaeda e principal suspeito nos atentados das embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998.

"Fazul é especialista em guerra", disse Yusuf. "Ele faria mais bombas, mas está ficando sem recursos."

Muitos diplomatas ocidentais agora dizem que é hora de Sharif semear divisões dentro da Shabab e atrair ao governo líderes insurgentes mais moderados, como Sheik Hassan Dahir Aweys e Sheik Muktar Robow, também conhecido como Abu Monsoor. Foi isso que a secretária de Estado Hillary Clinton ressaltou quando encontrou-se no mês passado com Sharif em Nairóbi, Quênia, em uma reunião que Sharif chamou de "chance de ouro".

Sharif entrou na confusa política da Somália em 2004, quando ajudou a formar um tribunal de bairro para julgar sequestradores. Antes disso, era um professor relativamente desconhecido, formado no Sudão e na Líbia, neto de um clérigo famoso. Em 2006, ele se tornou líder de uma aliança islâmica que tirou os senhores de guerra de Mogadício e trouxe um pouquinho de paz à cidade pela primeira vez desde que Siad Barre, ditador da Somália da época da guerra fria, foi derrubado por senhores de guerra em 1991.

Contudo, em dezembro de 2006, tropas etíopes invadiram a Somália com a ajuda americana e varreram a aliança islâmica de Sharif. Um senhor de guerra impopular então governou por dois anos antes da Organização das Nações Unidas e os Estados Unidos o pressionarem a ceder o poder a Sharif, porque seu partido islâmico moderado foi considerado como tendo o maior apoio das pessoas comuns.

Em uma conferência com doadores em Bruxelas em abril, ele recebeu promessas de mais de US$ 200 milhões (em torno de R$ 400 milhões), apesar de grande parte não ter se materializado.

"O problema com a ajuda internacional é que frequentemente chega tarde e é limitada", suspirou Sharif. Talvez haja mais ajuda a caminho. De acordo com autoridades da ONU e somalis, o exército de Uganda planeja invadir Kismayo, uma cidade portuária no Sul da Somália controlada por um grupo aliado à Shabab assim que chegarem mais fundos de paz.

E autoridades somalis dizem que a CIA vai abrir uma base no antigo quartel perto do aeroporto de Mogadício. Elas dizem que três membros da CIA visitaram Villa Somália no final de agosto para discutir o treinamento dos serviços de inteligência de Sharif.

As autoridades americanas admitiram que os EUA estavam ajudando em uma variedade de formas não convencionais, mas não especificaram quais. No palácio, um homem alto, branco e atarracado usando uniforme cáqui e com um rifle de assalto americano, vigiava uma sala de reunião. Não estava claro para quem ele trabalhava. Quando viu um jornalista olhando para ele, entrou e silenciosamente fechou a porta.

Tradução: Deborah Weinberg

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