UOL Notícias Internacional
 

18/09/2009

Indianas veem o boxe como caminho para a vida de classe média

The New York Times
Somini Sengupta
Em Trivandrum (Índia)
As garotas batem forte. Elas vieram de toda a Índia para este grande e enfumaçado ginásio administrado pelo governo. Antes de entrar no ringue de boxe, elas inclinam a cabeça para o chão, como se estivessem entrando em um templo. A filha do dono de uma loja de doces desfere um gancho de direita. A filha de um operário da construção se inclinou contra as cordas, com gotas de suor pingando do rosto. Saltando, esquivando-se como um grilo apressado, estava uma pequena garota de Calcutá, com o olhar decidido; ela tinha perdido o casamento de sua irmã pela oportunidade de vir aqui para lutar. O ruído de luva contra luva ecoa nas paredes cavernosas.

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Meninas treinam em Trivandrum (Índia). Boxe pode ser um meio de elas terem uma vida melhor



Em um país com diversos obstáculos para elas, as garotas estão se preparando para lutar na grande liga. O Comitê Olímpico Internacional anunciou no início deste mês a entrada do boxe feminino nos Jogos de Londres em 2012. A Índia estava entre os países que pressionaram para romper a barreira de gênero.

"Este é meu sonho que se realiza", disse esta semana Mangte Chungneijang Merykom, 27, a boxeadora mais aclamada da Índia, conhecida como Mary Kom.

Kom é a maior esperança da Índia na competição de boxe. Desde que a Associação Internacional de Boxe iniciou os campeonatos mundiais femininos em 2001, Kom detém o recorde, com quatro medalhas de ouro.

Com relativamente pouco apoio do governo, as indianas se saíram surpreendentemente bem nos campeonatos mundiais. A China é o mais duro adversário da Índia. Nos últimos campeonatos, realizados em Ningbo City, na China, o time da casa venceu 11 medalhas, seguido por 5 da Rússia, 4 da Índia e 4 dos EUA.

Kom, que acaba de voltar de um campo de treinamento em Pequim, explicou rapidamente por quê. Até os treinadores na China estão em forma, ela disse, e os atletas comem carne no desjejum, no almoço e no jantar. Os modestos campos de esportes da Índia servem carne ou peixe uma vez por dia. Os atletas lavam suas roupas à mão. Não há fisioterapeutas dedicados aos boxeadores que se ferem.

Não importa. O boxe representa um novo tipo de liberdade para as mulheres que entraram nesse ringue enfumaçado e antigo na extremidade sul da Índia.

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Varsha Padmalayam, 16, ouve instruções de seu técnico de boxe em uma academia em Trivandrum

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Meninas beijam ringue de lutar antes de iniciar
    o treinamento; boxe pode significar liberdade

Hema Yogesh, 16, filha de um plantador de temperos, fugiu de casa para entrar em seu primeiro acampamento de boxe. Seu pai ficou furioso no início. Mas logo ela trouxe para casa sua primeira medalha de ouro, de uma competição estadual. Suas colegas a encheram de guirlandas e cumprimentos. Seu pai não conteve as lágrimas, ela disse. Agora Hema quer competir internacionalmente.

O boxe lhe ensinou "coragem", disse. E também alimentou sua ambição. Como a maioria das garotas neste campo, Hema vê o boxe como uma passagem para a vida de classe média. O governo indiano recompensa os atletas com empregos oficiais cobiçados, geralmente na polícia ou nas ferrovias. Ninguém na família de Hema jamais foi funcionário público.

Como seria a vida sem o boxe?, perguntaram a Hema. Ela disse que teria de ficar em casa cuidando das duas vacas da família. E fez uma careta.

Para outras mulheres, o boxe traz recompensas menos tangíveis: a confiança de sair na rua sem medo, por exemplo. Ou, como disse uma boxeadora chamada Usha Nagisetty, a oportunidade de ser alguém.

"Antes do boxe eu não tinha nada", disse Nagisetty, que veio treinar neste verão em outro campo na cidade de Bhopal, centro da Índia. "Quem é Usha? Ninguém sabia. Eu era gorda e uma estudante mediana. Achava que a vida não tinha nada a me oferecer."

A ascensão do boxe feminino ocorre em meio a um grande reboliço na vida das indianas comuns. Preeti Beniwal, uma boxeadora de 22 anos de Hisar, uma pequena cidade no norte da Índia, verificou a mudança em sua família. Na época de sua mãe, para ter uma perspectiva de casamento decente, as garotas deviam saber tecer e cozinhar. Hoje, ela disse, se dá mais valor a uma mulher capaz de ganhar a vida. "A geração atual é diferente", disse Beniwal. "Se uma garota é independente, terá uma boa casa e um bom marido."

Beniwal vê o boxe como sua passagem para a independência, mas também protege suas opções. "Se nós falharmos nesse campo", ela disse, referindo-se ao esporte, "devemos saber o trabalho básico de uma mulher." Com isso ela quis dizer ser esposa e mãe.

O estado natal de Beniwal, Haryana, é famoso por outra divisão de gêneros. A prática da eliminação de fetos femininos - abortar uma garota - tornou-se tão predominante que modificou radicalmente a proporção entre os gêneros. Em partes de Haryana e nos Estados próximos, no norte da Índia, há menos de nove garotas para cada dez meninos.

Kom está hoje entre as atletas mais valorizadas de seu país. Tem um emprego vitalício no departamento de polícia, uma casa construída pelo governo e uma série de honras lucrativas, como o maior prêmio esportivo do país, o Rajiv Gandhi Khel Ratna, que ela receberá esta semana juntamente com um prêmio em dinheiro de quase US$ 15 mil.

Para chegar lá ela teve de lutar vários "rounds" pessoais.

Aos 17 anos saiu de casa para entrar em um centro de treinamento esportivo do governo em Imphal, a capital de seu Estado natal, Manipur, e suplicou ao treinador que a deixasse subir no ringue.

"Ela era tão pequena que eu disse não", lembra o treinador, L. Ibomcha Singh. As lágrimas rolaram por seu rosto e o treinador cedeu.

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Sawa, 18 anos, de Manipur, conduz sessão de treinamento em academia de boxe em Trivandrum

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Meninas se encaminham para a academia de boxe

Kom manteve o boxe em segredo de sua família - até que ganhou um campeonato estadual em 2000, e todos, incluindo seus pais, descobriram o que ela vinha fazendo. Seu pai lhe pediu para desistir. O boxe é perigoso demais, ele disse. Membros de seu clã reprovaram. Os rapazes de sua cidade zombaram dela, mas Kom persistiu.

"Um dia vou lhes mostrar quem sou", ela lembra de ter pensado.

Ganhou uma medalha depois da outra, então se casou e sofreu mais pressão para abandonar a luta.

"Meu pai me disse: 'Está bem, agora você para. Já está casada'", ela disse. Kom resistiu. Seu marido, K. Onkholer, um ex-jogador de futebol, a apoiou.

Hoje os dois têm juntos uma academia esportiva improvisada perto de sua casa, em parte como uma maneira de manter as crianças locais fora das ruas. Manipur, aninhada nas montanhas na fronteira de Mianmar, é conhecida por sua rede de traficantes de drogas e os rebeldes armados; as crianças são atraídas pelos dois grupos.

O maior teste de Kom foi depois do nascimento de seus filhos gêmeos, em agosto de 2007. Durante mais de 18 meses ela ficou fora dos ringues. Voltar foi duro para o corpo e para a alma. Suas costas doíam e seus reflexos tinham diminuído. Era difícil afastar os meninos de seus seios, e ainda mais deixá-los em casa e ir para o campo durante um mês de cada vez. Ela perdeu sua primeira luta, em setembro de 2008.

Mas não desistiu. Treinou ainda mais que antes. Dois meses depois estava de volta ao ringue para o Campeonato Mundial Feminino em Ningbo City. Venceu sua quarta medalha de ouro, um recorde.

Lutar na Olimpíada de 2012 é seu último desafio. Pesando pouco mais de 45 quilos, Kom lutou na categoria peso mínimo. Para competir nas Olimpíadas ela deve ter pelo menos 48 kg, o menor dos três pesos estabelecidos para mulheres.

"Vou rezar para Deus manter meu corpo em forma", ela disse. "Porque se meu corpo estiver em forma posso fazer qualquer coisa."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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