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19/09/2009

Uma "guru" de Nova York

The New York Times
Allen Salkin
Em Nova York (EUA)
O sonho costumava ser diferente.

Há quatro anos, Gabrielle Bernstein seria encontrada ao meio-dia a caminho do almoço na Soho House com um cliente potencial de agência de relações públicas da qual era co-proprietária. À noite, ela seria encontrada tomando tequila Patron no Cielo, Coral Room e em outras casas noturnas do centro que ela representava.

Mas sua ocupação mudou. Na última terça-feira ao meio-dia, Bernstein, 29 anos, estava sobre uma esteira de meditação em um estúdio de ioga na West 13th Street, relaxando em 45 minutos de contemplação silenciosa.

Naquela noite em seu apartamento em Greenwich Village, ela untou suas mãos em um óleo aromático e, usando uma mistura de frases extraídas de livros de autoajuda, exercícios de meditação e música inspiracional, conduziu sete jovens mulheres sentadas em almofadas amarelo-alaranjadas e vermelhas por quase duas horas de orientação espiritual.

"Permaneçam na luz", ela disse às mulheres, todas na faixa dos 20 e 30 e poucos anos, citando seu futuro livro, "Add More -ing to Your Life". "Aja uma vez por dia para fazer algo que acenda sua vida."
  • Francisco Caceres/The New York Times

    Agora há um novo modelo para as antigas Carrie Bradshaws de Nova York -jovens que são vegetarianas, bem-versadas em autoajuda e espiritualidade da Nova Era, e que estão encontrando uma forma de ganhar a vida pregando para públicos ávidos, e femininos

Bernstein, que não come mais carne vermelha e nem bebe, poderia ser chamada de treinadora de vida, guia de meditação ou terapeuta da Nova Era. Mas as clientes que pagam US$ 180 por quatro sessões semanais provavelmente a chamarão de guru.

"Muitas mulheres se espelham nela", disse Jennifer Fragleasso, 31 anos, que ingressou no grupo de Bernstein em janeiro. "Nós precisamos desta orientação e estamos procurando por esta orientação."

Há uma década, poder-se-ia esperar que mulheres jovens como Bernstein buscassem o estilo de vida de saltos altos e vestidos cor-de-rosa nos bares de cobertura do distrito Meatpacking. Mas agora há um novo modelo para as antigas Carrie Bradshaws de Nova York -jovens que são vegetarianas, bem-versadas em autoajuda e espiritualidade da Nova Era, e que estão encontrando uma forma de ganhar a vida pregando para públicos ávidos, em grande parte femininos.

Bernstein é uma das pessoas deste círculo, influenciadas menos pelas obras de Candace Bushnell e mais pelas de Marianne Williamson, a líder espiritual que escreveu "A Idade dos Milagres", e por outros livros de autoajuda populares como "O Segredo", "Comer, Rezar, Amar", ou mesmo "Magra e Poderosa".

Uma das mais proeminentes é Kris Carr, uma ex-atriz que um mês após aparecer em dois comerciais de cerveja durante o Super Bowl (a final do futebol americano), em 2003, descobriu ter câncer no fígado e pulmões. Ela ingressou em uma viagem de autotransformação que narrou em um documentário, "Crazy Sexy Cancer", exibido no canal "TCL" em 2007, seguido por dois livros "Câncer -E Agora?"

Seu site, "Crazy Sexy Life", se tornou um centro de mulheres que se identificam como líderes de uma nova geração de autoempoderamento. Entre as blogueiras do site estão Rory Freedman, uma autora dos livros de dieta "Magra e Poderosa"; Bernstein; e Mallika Chopra, uma autora sobre paternidade e maternidade cujo pai é Deepak Chopra.

"Nós estamos encorajando as pessoas a comerem direito, se exercitarem, buscarem sua espiritualidade, começarem a ouvir a si mesmas, fazendo isso de uma forma ousada e que ressoa", disse Carr, 38 anos, por telefona de sua casa em Woodstock, Nova York.

As últimas semanas na vida de Carr demonstram seu novo status. Ele celebrou seu aniversário e aniversário de casamento no Novo México antes de seguir para San Francisco, para falar com os editores da revista "VegNews". Então ela foi para Los Angeles para reuniões a respeito de um programa de televisão que ela está desenvolvendo. Ela encerrou a viagem em Boston, onde fez o discurso de abertura em uma conferência da Associação dos Médicos Assistentes em Oncologia.

Outras gurus jovens se concentram menos na dieta e mais na espiritualidade. Antes de começar a orientar outras mulheres, Jennifer Macaluso-Gilmore era uma modelo de pés e mãos com problemas financeiros, de relacionamento e álcool. Após três pessoas próximas a ela, incluindo sua mãe, terem morrido em intervalos de poucos meses em 1999, ela escreveu um espetáculo solo sobre lidar com a situação, "Making the Best of It", que atraiu ótimas críticas. Sua carreira decolou, ela abandonou o álcool e se casou com um homem do qual antes mantinha distância.

Logo os amigos começaram a perguntar como ela conseguiu mudar sua vida. Ela ofereceu conselhos extraídos dos cerca de "600 livros de autoajuda" que ela disse ter lido. Ela decidiu organizar uma classe em seu apartamento. "Três amigas compareceram", disse Macaluso-Gilmore. "Uma semana depois, havia nove mulheres, e sete anos depois eu já vi mais de 700."

Ela cobra US$ 100 por hora por sessões privadas. A essência de sua mensagem, ela disse, é "quando você parte para o desconhecido, tudo é possível em sua vida".

O espaço de reunião de Macaluso-Gilmore no centro da cidade é decorado com colagens emolduradas de cartas de agradecimento de mulheres que frequentaram suas sessões. "Algumas delas me chamam de oráculo", disse Macaluso-Gilmore, 36 anos. "Algumas me chamam de guru. Mas sou apenas uma garota como qualquer outra."

A nova onda ofereceu alguns nomes divertidos para si mesmas -"As Panteras do Bem-Estar", "Vaqueiras Espirituais" e "Super-Heroínas Espirituais". Está claro que estão oferecendo orientação em uma época em que mulheres urbanas como elas mesmas estão ávidas por isso. Thomas Amelio, diretor do New York Open Center, que oferece cursos de autotransformação há 25 anos, disse que notou que muito mais mulheres jovens estão se matriculando em suas classes de meditação, xamanismo e cura ayurvédica do que nunca. Muitas começaram com ioga, mas seguiram em frente. "Elas estão à procura de algo que é funcional e prático, que torne a vida mais fácil de lidar", ele disse.

Alguns líderes espirituais e de autoajuda mais estabelecidos se mostram céticos em relação às Vaqueiras Espirituais. Esther Hicks, que co-escreveu uma série de livros explicando "a lei da atração", disse que duvida daqueles que pregam uma mistura de filosofias.

"Quando elas misturam o que estamos ensinando com outras coisas que não funcionam, as pessoas ficam confusas", disse Hicks.

Patrick Williams, o fundador do Instituto para Treinamento de Vida, que certifica os treinadores de vida, disse que treinadores não certificados provavelmente não causarão mal, mas também podem não causar muito bem.

"Um bom treinador aprende a produzir o melhor pensamento do cliente e fazer o cliente dizer o que não dizia, sonhar com o que não sonhava, pensar sobre o que não pensava a respeito", disse Williams. "Você faz mais perguntas do que dá respostas."

Mas as seguidoras dessas jovens gurus continuam depositando total confiança nelas -e até as imitando.

Ilana Arazie, que costumava produzir um videoblog sobre sua vida amorosa, "Downtown Diary", o cancelou após se tornar cliente de Macaluso-Gilmore. Ela está se preparando para começar um novo blog, "Downtown Dharma", sobre as buscas espirituais em Manhattan. "Você não quer ficar presa ao papel de ser a solteira", disse Arazie, 34 anos. "É preciso olhar para sua vida de forma holística."

Sera Beak, 33 anos, autora de "The Red Book: A Deliciously Unorthodox Approach to Igniting Your Divine Spark", está trabalhando em um documentário sobre mulheres como ela. "Nós gostamos de ter um relacionamento e uma carreira, mas sabemos que esta busca interna também é uma prioridade", ela disse. "É uma das coisas mais importantes que você pode fazer sendo uma mulher jovem. Não é preciso esperar até chegar à meia-idade."

Sua proposta para o filme -"'O Segredo' encontra Buffy, a Caça-vampiros em um beco escuro, nua"- atraiu figuras notáveis para serem entrevistadas, incluindo Tom Robbins, o autor de "Até as Vaqueiras Ficam Tristes".

E Meggan Watterson, 34 anos, uma ex-professora de religiões do mundo no particular Collegiate School for Boys em Manhattan, está usando os US$ 11 mil que ela levantou junto ao Sister Fund, uma fundação feminina, e outros para dar início a uma conferência anual. Ela disse que deseja reunir mulheres como Carr, Beak e outras ativas nas religiões sikh e muçulmana. "Nós queremos ouvir as histórias de como as mulheres jovens experimentam e dão nome ao divino", anuncia o site da conferência.

Na sessão de Bernstein, na noite de terça-feira, uma cliente de 27 anos compartilhou seus temores de passar a morar junto com seu namorado nos próximos dias. "Eu temo que a presença dele no meu espaço acabe com nossa amizade", ela disse.

Bernstein sugeriu um exercício no qual a mulher escreveria a versão ideal da história da mudança de seu namorado, algo como: "Foi realmente adorável. Ele está presente. Há muito amor. A mudança ocorreu sem o menor esforço. Há espaço abundante para todas as coisas dele".

"Escreva a história do jeito que você quer que aconteça", disse Bernstein. "Releia a história toda noite até ele chegar."

Para os céticos, esta visualização do futuro que alguém espera que se manifeste lembra o movimento simplista do pensamento positivo que teve início no século 19, parte do que é chamado de "Novo Pensamento" e que foi reembalado nos últimos anos pelo best seller "O Segredo".

Ainda assim, há algo que vale a pena ser notado a respeito do grande quadro de avisos de Bernstein, que tem quase o tamanho de sua sala de estar. Ele inclui recortes de jornais, trechos de diários e fotos que representam os desejos dela e de suas clientes para o futuro.

"Há um homem incrível lá fora para mim", escreveu alguém. Há um cartão postal de Dora, a Exploradora. E há um recorte do caderno Estilo do "New York Times".

Ao ser perguntada a respeito, Bernstein disse que montou isso há três anos.

"Eu estou manifestando essa história", ela explicou.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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