UOL Notícias Internacional
 

21/09/2009

Em uma nova era, Bahrein luta para respeitar os mortos e atender aos vivos

The New York Times
Michael Slackman
Em Manama (Bahrein)
Há um grande choque de valores acontecendo aqui, assim como por toda uma região onde a fabulosa riqueza do petróleo e a intoxicante influência da globalização frequentemente superam a herança e a tradição.

A questão enfrentada por este pequeno reino insular no Golfo Pérsico é: Bahrein pode proteger a maior concentração de sepulcros datados da Era do Bronze encontrada em qualquer parte do mundo e ainda atender às necessidades contemporâneas de seu povo? O país pode proteger seu passado e ainda assim acomodar seu presente?
  • Hasan Jamali/AP

    Rico em petróleo, o Bahrein vive hoje num grande choque de valores, no qual a intoxicante influência da globalização frequentemente supera a herança e a tradição deste país árabe


"As pessoas estão exigindo moradias, elas querem desenvolvimento", disse Al Sayed Abdullah Ala'ali, um membro do Parlamento. "Elas querem tudo o que é relevante para suas vidas hoje."

Em poucas décadas, os petrodólares e a modernidade afetaram os países árabes no Golfo Pérsico, elevando os padrões de vida e ao mesmo tempo minando práticas que definiram a identidade por gerações.

A pesca e a coleta de pérolas foram substituídas pelos petroquímicos e serviços financeiros. O inglês tem tirado o lugar do árabe como língua dos negócios.

Trabalhos manuais tradicionais se tornaram novidades. O pouco de arquitetura do passado ainda existente foi demolido para abrir espaço para os horizontes de aço e vidro do presente.

"É uma luta entre o velho e o novo, entre a identidade cultural e o desenvolvimento recente, entre a autenticidade e a modernidade", disse Ahmad Deyain, um escritor e editor do vizinho Kuait.

Bahrein é uma coleção de 36 ilhas no Golfo Pérsico, apesar da maioria de seus 730 mil habitantes viverem amontoados ao redor da capital, Manama. Há meio século, havia dezenas de milhares de sepulcros que ligavam os cidadãos de Bahrein ao passado antigo das ilhas.

Os sepulcros sob sol forte, a maioria com aproximadamente a altura de um carro, eram cobertos por pedras cinzentas. Os bareinitas costumam dizer que havia até 300 mil deles. Karim Hendili, um conselheiro da Unesco para a ministra da Cultura, disse que o número era próximo de 85 mil.

Ele disse que restam, no máximo, 6 mil em 35 campos fúnebres. É um número com que todos parecem concordar. E estes locais restantes, ele disse, "estão sob séria ameaça".

Construídos pelos habitantes da ilha entre 2.500 a.C. até 500 d.C., eles oferecem uma janela ao que Hendili chamou de "uma civilização perdida da Era do Bronze". Acredita-se que Bahrein tenha sido a capital de Dilmun, que ficava ao longo da rota comercial ligando o Vale do Indo e a Mesopotâmia.

A maioria dos sepulcros contém uma câmara mortuária na forma de uma bota em sua lateral. O corpo era colocado em posição fetal enquanto itens pessoais, como potes cerâmicos, selos pessoais e facas eram armazenados no "dedo".

O valor dos sepulcros não é, necessariamente, o que contêm, mas sim o que dizem sobre as vidas, valores e práticas funerárias de uma civilização antiga.

"Há um ditado aqui: 'Não se pode dar prioridade aos mortos. É preciso dar moradia aos vivos'", disse Hendili, que chama os sepulcros de "conjuntos funerários de Dilmun e Tylos".

Bahrein ganhou a independência do Reino Unido em 1971. Logo depois, o preço do petróleo subiu durante a guerra entre árabes e israelenses de 1973.

As reservas de petróleo do Bahrein eram pequenas em comparação às de seus vizinhos, mas forneceram combustível para um rápido desenvolvimento.

Mas os líderes optaram por não usar a riqueza para definir o Bahrein, marcar seu lugar e povo como distintos no tempo e na história, disseram especialistas daqui. A história islâmica era ensinada nas escolas, por exemplo, mas pouco da própria história antiga do Bahrein era ensinada.

"Há um valor que não pode ser tocado", disse Hassan Hujairi, um blogueiro local de 27 anos que já viajou ao Japão para um diploma de doutorado em economia regional e história econômica. "Tem a ver com nossa identidade, nossa herança. Se perdermos essas coisas, nós seremos como qualquer outro lugar."

A ministra da cultura e da informação, Mai Bint Mohammed al Khalifa, é uma força importante por trás da tentativa de preservar e promover o passado do Bahrein.

Ela foi fundamental pela primeira designação de Patrimônio da Humanidade no Bahrein e está trabalhando com Hendili para tentar listar 11 dos 35 campos fúnebres restantes como Patrimônios da Humanidade.

Mas com os sepulcros ela enfrenta não apenas a pressão existencial de construção contra preservação, mas também o desafio de interesses adquiridos.

Resumindo: foi pedido aos mais destituídos no Bahrein que arcassem com o fardo da preservação, disseram autoridades locais, porque os ricos e bem relacionados frequentemente são autorizados a construir em suas terras.

Mesmo aqueles que apoiam a preservação reconhecem que é difícil convencer comunidades de baixa renda sobre o valor desses sepulcros quando elas veem, ao lado, as casas dos ricos e bem relacionados se erguerem onde antes havia sepulcros.

"O problema é que se trata de um jogo de interesses", disse Yousif al Bouri, presidente do Conselho Municipal do Norte, uma entidade que representa mais de 30 aldeias.

"Há todos esses avisos que dizem 'Você não pode fazer isso, não pode fazer aquilo' e, de repente, os avisos são retirados e os sepulcros são demolidos. Estas são terras do governo dadas a pessoas bem relacionadas, que as vendem."

Al Bouri representa a aldeia de Bouri, a cerca de 16 quilômetros da capital. Do outro lado de uma estrada moderna fica outra aldeia, A'ali, com uma população de cerca de 9 mil. Ambas são aldeias de maioria xiita e ambas são margeadas por grandes campos de sepulcros que permanecem intocados.

Há áreas muito maiores de sepulcros em A'ali, chamadas de Tumbas Reais, montanhas de areia e rocha frequentemente mais altas do que as casas de bloco de concreto de dois e três andares nas quais as pessoas vivem. A aparência é de que todas as Tumbas Reais foram saqueadas, transformadas em pilhas de lixo anos atrás. A aldeia cresceu ao redor delas.

"A aldeia de A'ali é um lugar único no mundo onde há a interação da vida contemporânea com elementos fúnebres da Era do Bronze", disse Hendili. Mas, ele acrescentou, "a proteção deles agora não é garantida".

A questão dos sepulcros se soma à percepção entre os xiitas de que são cidadãos de segunda classe, discriminados pela elite governante sunita. "Eles dizem que é histórico e que não podemos removê-los.

Mas em outros lugares, onde há pessoas com poder, eles podem removê-los", disse Abbas Hamid Ali, 32 anos, que vive ao lado de uma das Tumbas Reais.

"Se os removermos, nós podemos abrir espaço para os carros", disse seu vizinho, Ali Hassan, 30 anos.

Hendili e a ministra da cultura, Khalifa, contam com algum apoio nas aldeias. Mas pode ser que a confluência de interesses -os ricos que querem vender suas terras e os pobres que precisam construir em suas terras- seja a força que prevaleça, disseram alguns especialistas.

Aqueles a favor da preservação dizem que a estratégia do governo parece ser a de não fazer nada e torcer para que o problema simplesmente desapareça.

"O governo faz vista grossa para isso por interesses pessoais", disse Ala'ali, o membro do Parlamento. Mas, segundo ele, isso ignora o problema maior, o de que o conflito nunca deveria ter sido definido como um ou outro. Preservação e avanço são, na verdade, dependentes um do outro, ele disse.

"Qualquer um sem passado não tem futuro", ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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