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23/09/2009

Mistério em Honduras: como exatamente o líder deposto retornou?

The New York Times
Marc Lacey e Ginger Thompson
Na Cidade do México (México) e em Chestertown (EUA)
Ele é o homem mais procurado em Honduras, com um rosto e bigode preto conhecidos por todo soldado, policial e guarda de fronteira do país. Assim, enquanto o impasse político em Honduras entrava em um novo capítulo surpreendente, a grande pergunta na terça-feira era como Manuel Zelaya, o presidente deposto e exilado, conseguiu entrar em seu país sem ser detectado.

Em um porta-malas de carro? Com a ajuda de soldados leais? Disfarçado? Sob a proteção de outros países? Todas as opções estavam sendo consideradas e debatidas em Tegucigalpa, onde a população está bastante dividida em relação a Zelaya.

Sua aparição inesperada na Embaixada do Brasil, na segunda-feira, certamente surpreendeu o governo que o derrubou há quase três meses e que prometeu prendê-lo por 18 acusações caso ousasse voltar. Após inicialmente negar que Zelaya tinha voltado, o governo foi forçado a enviar soldados e policiais para dispersar milhares de simpatizantes de Zelaya na terça-feira, que desafiaram o toque de recolher e se reuniram do lado de fora da embaixada para vislumbrar seu ex-líder.

Que Zelaya queria voltar não era segredo. Ele sobrevoou a capital em um pequeno avião em 4 de julho e deu vários passos fronteira adentro no final daquele mês, vindo da Nicarágua, para alegria de seus simpatizantes. Em ambos os casos, entretanto, os militares hondurenhos o impediram.

Como ele conseguiu desta vez e, ainda mais importante, se sua presença ajudará a resolver o impasse em seu país, são tema de um debate feroz.

"Todo mundo está trabalhando arduamente para encontrar uma solução pacífica para esta crise", disse um alto funcionário do Departamento de Estado americano, quando perguntado sobre a reaparecimento de Zelaya. "O retorno de Zelaya foi inesperado e o fato de tê-lo feito sem consultar outras partes certamente não ajuda. Dito isso, é uma realidade e poderá ter o efeito de forçar as pessoas a tomarem as decisões que estão evitando - ou pode vir a causar a desestabilização da situação.


Roberto Micheletti, o presidente em exercício, prometeu não invadir a Embaixada do Brasil, onde Zelaya, em seu característico chapéu branco de caubói, e dezenas de amigos e parentes agora estão sitiados. Entretanto, o governo cortou o fornecimento de água, luz e serviço telefônico ao prédio.

Mas ele apelou na terça-feira à comunidade internacional por um diálogo para resolver a crise, que teve início em 28 de junho, quando as forças armadas, o Judiciário e o Legislativo decidiram que Zelaya tinha violado a lei ao planejar prolongar seu mandato além do que é permitido pela Constituição, e portanto tinha que sair. Mas apesar da condenação mundial à remoção de Zelaya, Micheletti se recusou a ceder o poder. Eleições estão marcadas para 28 de novembro para escolha de um novo presidente, mas muitos países disseram que não reconhecerão os resultados e que Zelaya deve ser autorizado a cumprir o restante de seu mandato.

De dentro da Embaixada brasileira, Zelaya descreveu seu retorno aos repórteres como sendo uma viagem árdua de 15 horas, que exigiu caminhar por entre montanhas e percorrer estradas vicinais em ônibus, carros e caminhões para contornar as barreiras militares. Ele disse que foi auxiliado por um cidadão hondurenho, cujo nome ele se recusou a citar.

"Eles não perceberam quando eu entrei", disse Zelaya na rádio hondurenha. "Eu os enganei."

Vários relatos surgiram sobre a jornada de Zelaya, que pode ter envolvido a ajuda de outros países. Após insistir inicialmente que Zelaya não estava em Honduras, mas sim em um hotel de luxo na Nicarágua, Micheletti disse que soube que o líder deposto tinha passado por vários países centro-americanos, aparentemente em um esforço para disfarçar seus movimentos antes de entrar em Honduras.

O jornal espanhol "El País", citando uma autoridade salvadorenha cujo nome não foi revelado, relatou que Zelaya foi passageiro de um avião venezuelano que pousou sem autorização na noite de domingo em El Salvador. Ele foi recebido, disse o jornal, por um carro pertencente à Frente de Libertação Nacional Farabundo Martí, o partido do governo salvadorenho. Tanto a Venezuela quanto El Salvador possuem governos esquerdistas que apoiam Zelaya.

Para onde Zelaya foi em seguida, entretanto, ninguém parece saber.

As forças armadas hondurenhas negaram que seu retorno tinha sido uma grande falha de segurança. "A inteligência militar não falhou", disse Adolfo Lionel Sevilla, o ministro em exercício da Defesa, para o jornal hondurenho "El Heraldo". Ele acrescentou enigmaticamente: "Nem tudo pode ser publicado porque poderia causar ansiedade".

Uma preocupação é de que alguns membros das forças armadas hondurenhas, leais a Zelaya, possa ter ajudado em seu retorno. "Há uma certa preocupação entre os hondurenhos a respeito de como Zelaya entrou no país", disse Christopher Sabatini, editor do "Americas Quarterly", uma revista acadêmica de Nova York. "É difícil imaginar que ele conseguiria entrar sem alguma cooperação das forças armadas. E Micheletti, em particular, precisa se preocupar se realmente controla todas suas forças."

Um jornal venezuelano disse que Zelaya ficou parte do tempo escondido no porta-malas de um carro. Outros relatos dizem que ele entrou na Embaixada do Brasil em um veículo com chapa diplomática pertencente ao Parlamento Centro-Americano. Se os brasileiros sabiam que ele estava a caminho é motivo de debate.

O funcionário do Departamento de Estado disse que os Estados Unidos estavam cientes de que Zelaya queria retornar a Honduras, porque ele prometeu fazer exatamente isso durante sua última visita a Washington. Mas o funcionário disse que os Estados Unidos foram pegos de surpresa pela aparição de Zelaya na embaixada brasileira, já que ele era esperado nesta semana em Nova York, para discursar na Assembleia Geral da ONU.

Após gás lacrimogêneo ter sido disparado para dispersar os manifestantes e várias prisões terem sido efetuadas na terça-feira por violação do toque de recolher, o funcionário do Departamento de Estado disse que os Estados Unidos estavam profundamente preocupados com as ações do governo em exercício. Ele disse que ouviu relatos de que as forças de segurança tinham assumido o controle das casas em torno da embaixada, levando os Estados Unidos a enviarem "fortes sinais" a Micheletti de que esperam que o governo "respeite a inviolabilidade do território e pessoal diplomático".

Apesar dos detalhes completos da viagem de Zelaya ainda não terem sido narrados, sua chegada definitivamente dificultou para outros chegarem ou partirem de Honduras. Preocupado com a insegurança, o governo fechou na terça-feira todos os aeroportos do país.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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