UOL Notícias Internacional
 

25/09/2009

Batalha por Honduras ecoa mais alto na mídia

The New York Times
Elisabeth Malkin e Marc Lacey
Em Tegucigalpa (Honduras) e Cidade do México
"As mentiras de Manuel Zalaya", entoa uma voz austera enquanto uma foto de Zelaya, o presidente deposto de Honduras, é exibida na tela. Então, ao som de uma caixa registradora, são exibidas imagens do chapéu de caubói de Zelaya, cavalos, um avião particular, a Times Square.

Enquanto ele era presidente, Zelaya comprou jóias, pagou por viagens e manteve seus cavalos com dinheiro que ele roubou do Banco Central e do Tesouro, segundo a propaganda para televisão produzida pelo governo de fato. Manchetes dos jornais hondurenhos aparecem na tela, como se para demonstrar a verdade das acusações.

Personagens da crise: os protagonistas

  • AP Photo/Jose Luis Magana

    Manuel Zelaya foi eleito presidente de Honduras pelo Partido Liberal (centro-direita) em 2005 e assumiu no ano seguinte, com mandato até 2010. Durante seu governo, aproximou-se dos governos de esquerda da região e Honduras passou a fazer parte da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), bloco liderado por Venezuela e Cuba. Em junho deste ano, tentou promover um referendo para mudar a Constituição e permitir a reeleição presidencial, iniciativa que foi considerada ilegal pelo Parlamento e pelo poder Judiciário. No dia 28 de junho, quando iria levar adiante a votação, Zelaya, ainda de pijamas, foi expulso do país por militares e deposto do cargo de presidente

  • REUTERS/Tomas Bravo

    Roberto Micheletti, também do Partido Liberal, era presidente do Parlamento hondurenho quando Zelaya foi deposto. Assumiu a Presidência e defende que a manobra foi legítima, com o objetivo de proteger o país de um suposto golpe de Zelaya contra a democracia. Durante seu governo interino, que não foi reconhecido por nenhum outro governo, o país foi expulso da OEA e teve parte do financiamento externo congelado. Micheletti anunciou que Zelaya será preso caso volte ao pais



A propaganda, e outras como ela, são veiculadas regularmente pela televisão e rádio hondurenhos, onde um forte debate político que divide Honduras se desenrola em meio a afirmações de todo tipo, independente de serem ou não corroboradas por fatos. O retorno de Zelaya ao país, na segunda-feira, aumentou o volume da guerra na mídia - uma em que a voz do governo é mais alta, mas na qual Zelaya é um combatente hábil e igualmente esquivo.

"Zelaya tem um plano terrorista", afirma outra propaganda do governo, acusando o presidente deposto de usar a Embaixada do Brasil, onde se refugiou, como seu comando-geral. Após isso, vem um alerta sombrio de que "grupos estrangeiros e aviões militares" conseguiram penetrar em território hondurenho.

As propagandas do governo são o exemplo mais extremo das alegações que se tornaram a dieta das ondas de radiodifusão hondurenhas.

Antes mesmo de Zalaya ser derrubado em um golpe em 28 de junho, a televisão e os jornais, controlados por um punhado de empresários ricos, já se opunham a ele. Juntamente com a emissora de televisão estatal, o governo de Roberto Micheletti, o presidente de fato, possui muitos veículos com os quais desacreditar, se não difamar, Zelaya.

Na noite de quarta-feira, por exemplo, a televisão do governo noticiou, sem citar fontes, que o Brasil prometeu devolver Zelaya ao poder em troca de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Mas Zelaya conta com seus próprios aliados na mídia, notadamente a Rádio Globo, com transmissão 24 horas, abrindo seus microfones para os ouvintes e repetindo seus próprios rumores e interpretações. O próprio Zelaya é uma pessoa que telefona frequentemente à emissora e outras ao redor do mundo, onde faz suas próprias alegações exageradas: comandos israelenses foram contratados para matá-lo; ele está sendo envenenado secretamente por gás e radiação; Micheletti está preparando uma invasão à Embaixada do Brasil.

"Ninguém em Honduras diz 100% de verdade", disse Alejandro Villatoro, o proprietário da Rádio Globo e um legislador aliado de Zelaya. Ele disse que os relatos de repressão por parte da polícia e soldados, que se tornaram rotineiros em sua emissora, não são noticiados pela mídia aliada do governo.

O governo claramente tem a vantagem, ele disse, notando que ele e seus repórteres foram presos brevemente no dia do golpe. Essa experiência o deixou determinado a manter a emissora no ar, apesar do governo frequentemente bloquear sua programação (mais recentemente com histórias de ninar para crianças).

Os elementos da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição




Os anunciantes retiraram seus spots desde o golpe, de forma que ele está financiando o custo mensal de US$ 15 mil a US$ 20 mil da emissora.

Cada lado argumenta que está rebatendo as mentiras do outro lado. "Nossa meta é dizer às pessoas a verdade", disse um conselheiro de mídia do governo, que pediu para não ser identificado por não estar autorizado a falar pelo governo. "Eles estão realizando uma campanha de desinformação."

As acusações concorrentes continuam enquanto os dois lados discutem o que levou à crise. Segundo uma recente análise das questões legais envolvidas no caso, preparada pela Biblioteca de Direito do Congresso, em Washington, tanto Zelaya quanto aqueles que o depuseram parecem ter quebrado a lei.

No caso de Zelaya, ele ignorou as decisões judiciais ordenando que não conduzisse um consulta popular sobre a mudança da Constituição. No final, o procurador-geral apresentou uma acusação de traição e abuso de autoridade contra Zelaya na Suprema Corte, entre outras acusações. Isso levou ao mandado de prisão que foi executado em 28 de junho.

Mas Zelaya não foi formalmente preso quando os soldados invadiram sua casa. Em vez disso, o exército o deteve, o levou ao aeroporto e o colocou em um avião para a Costa Rica, apesar da Constituição hondurenha dizer que nenhum cidadão deve ser entregue para autoridades estrangeiras.

Os militares disseram que decidiram retirar Zelaya do país para reduzir a probabilidade de sua detenção causar agitação. Após inicialmente defenderem a decisão, os membros do governo de facto passaram a vê-la como um erro.

Norma C. Gutierrez, uma especialista em lei internacional que preparou uma análise legal para os legisladores americanos no mês passado, criticou ambos os lados. Sua posição: o caso contra Zelaya foi embasado na lei constitucional e estatutária. Sua remoção do país não.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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