UOL Notícias Internacional
 

26/09/2009

Irã é acusado de construir nova instalação nuclear secreta

The New York Times
David E. Sanger e Helene Cooper*
Em Pittsburgh (Estados Unidos)
O presidente Barack Obama e os líderes do Reino Unido e da França acusaram o Irã na sexta-feira (25) de construir uma planta secreta subterrânea para fabricar combustível nuclear, dizendo que o país escondeu a operação dos inspetores de armas internacionais por anos.

Diante dos repórteres em Pittsburgh, Obama disse que o programa nuclear iraniano "representa um desafio direto ao fundamento básico do programa de não-proliferação". Ao lado de Obama, o presidente Nicholas Sarkozy, da França, disse que o Irã tinha um prazo de dois meses para cumprir as exigências internacionais ou enfrentar maiores sanções.

"O nível de tapeação do governo iraniano e a escala do que acreditamos ser um rompimento dos compromissos firmados vão chocar e irritar toda a comunidade internacional", disse o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, do outro lado de Obama. "A comunidade internacional não tem escolha hoje a não ser traçar um limite na areia."

A apresentação extraordinária dos três líderes foi arranjada rapidamente, e Obama disse que a chanceler Angela Merkel da Alemanha pedira que transmitisse que também estava com eles. A medida acrescentou urgência ao confronto diplomático com o Irã sobre sua ambição de construir capacidade atômica. Os três líderes exigiram que o Irã permitisse que a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) conduzisse uma inspeção imediata da instalação, 160 km ao sul de Teerã.

Autoridades americanas disseram que vinham acompanhando o projeto secreto há anos, mas que Obama decidiu tornar pública a descoberta americana após o Irã descobrir, nas últimas semanas, que agências de inteligência ocidentais tinham furado o segredo em torno do projeto. Na segunda-feira, o Irã escreveu uma carta breve e críptica à Agência Internacional de Energia Atômica, dizendo que agora tinha uma "planta piloto" sob construção, cuja existência nunca tinha revelado.

Em uma declaração de sua sede em Viena na sexta-feira, a agência de energia atômica confirmou que tinha sido informada pelo Irã na segunda-feira que "uma nova planta de enriquecimento de combustível piloto está sob construção no país". A agência disse que tinha pedido mais informações e acesso à planta o mais breve possível. "A agência também compreende que nenhum material nuclear foi levado à instalação", disse a declaração.

Na sexta-feira, a rede de notícias iraniana Isna citou uma "fonte informada" confirmando a existência do segundo local de enriquecimento de urânio, descrevendo-o como similar às instalações conhecidas de enriquecimento do Irã em Natanz.

O presidente Mahmoud Ahmadinejad nada disse sobre a planta em sua apresentação nesta semana à ONU, na qual repetiu que o Irã tinha cooperado plenamente com os inspetores e que as alegações de um programa de armas nucleares eram fabricações.

A planta de enriquecimento recém descoberta ainda não está em operação, mas poderia estar no ano que vem, segundo as autoridades americanas.

É provável que o anúncio de Obama domine grande parte do encontro do G-20, cujos líderes se reuniram para planejar os próximos passos no combate à crise financeira mundial. Em vez disso, aqui e durante a abertura da ONU em Nova York, as autoridades de vários países receberam informações de inteligência e participaram de sessões de estratégia sobre as primeiras conversas diretas com o Irã em 30 anos que incluirão os EUA -marcadas para quinta-feira.

Autoridades americanas disseram que esperavam que o anúncio dos três líderes tornasse mais fácil a defesa de sanções internacionais contra o Irã se o país impedir a entrada de inspetores ou se recusar a parar seu programa nuclear.

"Eles mentiram três vezes e foram pegos três vezes", disse sobre os iranianos uma alta autoridade com acesso aos dados de inteligência no final da quinta-feira.

A autoridade referia-se às revelações de um grupo dissidente iraniano que levaram à descoberta da planta subterrânea de Natanz em 2002, e às evidências encontradas há dois anos -após as redes de computação iranianas serem penetradas por agências de inteligência americanas- que o país tinha buscado secretamente projetar uma ogiva nuclear. Autoridades americanas acreditam que este esforço foi interrompido no final de 2003.

Após meses falando da necessidade de engajamento, Obama parece ter avançado no sentido de ver como inevitável o enrijecimento de sanções contra o Irã. Ele evitou Ahmadinejad na abertura da Assembleia Geral da ONU nesta semana, apesar das promessas feitas durante a campanha presidencial e após a posse de que ia procurar dialogar com os líderes iranianos. Em vez disso, Obama passou grande parte de seu tempo em Nova York dizendo aos governantes, particularmente da Rússia e da China, que tinha acabado o tempo para o Irã e que o Conselho de Segurança logo ia precisar agir para deter as ambições nucleares de Teerã.

Durante anos, autoridades de inteligência americanas buscaram um local escondido onde o Irã poderia enriquecer urânio secretamente, longe dos inspetores que agora monitoram regularmente a atividade em Natanz. Um capítulo altamente secreto da Estimativa Nacional de Inteligência sobre o trabalho de armas nucleares do Irã fornecido ao governo Bush identificava mais de uma dúzia de locais suspeitos em torno do país -alguns para a construção de centrífugas e outros equipamentos, outros para projetar armas ou testar explosivos.

Membros do governo não puderam dizer imediatamente se o novo local, construído dentro de uma montanha, está nessa lista.

Autoridades americanas disseram na tarde na quinta-feira que acreditam que a planta poderia conter cerca de 3.000 centrífugas, que enriquecem o urânio para plantas de energia nuclear -ou, com enriquecimento adicional, para bombas. Esse número de centrífugas seria suficiente para fabricar material para a produção de uma bomba por ano, aproximadamente, apesar de não estar claro se alguma centrífuga foi instalada ou ligada. Obama disse na sexta-feira: "O tamanho e tipo da instalação é inconsistente com o de uma instalação pacífica".

O Irã disse à Aiea que a nova planta enriqueceria o urânio a um nível de 5% -suficiente para servir de combustível nuclear, mas não para produzir material físsil adequado para uma bomba atômica. O Irã garantiu à agência em sua carta que "informações complementares adicionais serão fornecidas no momento devido e apropriado", segundo a Aiea.

Autoridades americanas recusaram-se a dizer que tipo de técnica de inteligência -espiões, interceptações de dados ou telefônicas ou fotografias aéreas- levou à descoberta, citando a necessidade de segredo pela delicadeza da situação. Contudo, parte das redes de computadores da Guarda Revolucionária Iraniana foram penetradas em 2007, levando à descoberta que os engenheiros iranianos, trabalhando sob Mohsen Fakrizadeh, tentaram projetar uma arma nuclear antes de 2003. Israel e algumas agências de inteligência europeias alegam que o trabalho foi retomado depois.

O programa de enriquecimento parece correr separadamente dos projetos de armas, em parte porque os iranianos alegam que o enriquecimento é apenas para abastecer usinas de energia nuclear. Para construir centrífugas, o Irã teve que comprar partes no exterior. No passado, agências de inteligência americanas, alemãs e israelenses interceptaram carregamentos, certa vez desviando partes cruciais para laboratórios de armas americanos antes de enviá-las para o Irã. É muito possível que a infiltração da rede de fornecedores contribuiu para a descoberta em Qum.

Obama foi primeiramente informado sobre o projeto nuclear do Irã antes de se tornar presidente, pelos relatórios de inteligência detalhados fornecidos pelo então diretor de inteligência nacional Mike McConnell. Obama recebeu dados atualizados a respeito "várias vezes", disse um assessor na quinta-feira.

Antes do anúncio da manhã de sexta-feira, Obama enviou altos membros de inteligência para informarem o inspetor chefe da agência atômica, Olli Heinonen. Outros diplomatas americanos e membros da inteligência compartilharam suas descobertas com a China, Rússia e Alemanha, importantes agentes nas negociações com o Irã.

No início desta semana, as discussões de Obama com o presidente da China, Hu Jintao, na terça-feira e sua reunião com o presidente Dmitri A. Medvedev, da Rússia, na quarta-feira se concentraram em grande parte no Irã, disseram membros do governo. Durante sua reunião com Medvedev, em particular, Obama explicou sua posição, expressando pessimismo em relação ao progresso nas conversas marcadas para a semana que vem com os iranianos sobre a questão nuclear.

"O presidente deixou claro que estava disposto a conversar, mas que também tinha uma visão clara sobre as perspectivas dessas conversas", disse um alto membro do governo.

Obama tinha, naquela altura, dado um passo gigantesco para tornar a Rússia mais amigável à ideia de sanções contra o Irã -algo que Moscou não gosta- anunciando na semana passada que estava substituindo o projeto de defesa de mísseis do presidente George W. Bush com uma versão menos ameaçadora para Moscou. Essa questão, disse um membro do governo, mudou completamente a dinâmica durante a reunião de Obama com Medvedev.

Apesar de não estar claro se Obama informou Medvedev sobre as instalações durante reunião no Hotel Waldorf Astoria em Nova York, ainda assim Medvedev saiu prometendo publicamente pela primeira vez que a Rússia concordaria com sanções mais duras.

Na quinta-feira, em Pittsburgh, Medvedev reiterou sua posição. "Quando todos os instrumentos são usados e fracassam, pode-se usar sanções internacionais legais", disse o presidente da Rússia a estudantes da Universidade de Pittsburgh. "Acho que devemos continuar a promover incentivos positivos para o Irã e ao mesmo tempo estimulá-lo a tornar todos seus programas transparentes e abertos. Se fracassarmos, consideraremos outras opções."

Um membro do governo disse que os EUA estavam esperando que, com a Rússia a bordo, a China concordaria com a ideia de sanções mais estritas. Obama está planejando visitar Pequim e Xangai no início de novembro, mais ou menos na mesma época em que se espera que uma resolução de sanções seja apresentada ao Conselho de Segurança.

Obama está distante de quando causou frisson com suas opiniões sobre a política para o Irã, em 2007. Então, ele disse durante um debate democrata em Charleston, Carolina do Sul, que como presidente estaria disposto a se reunir sem precondições com os líderes iranianos e que a noção de não conversar com os inimigos era "ridícula".

De fato, ele entrou no cargo e fez uma série de gestos de aproximação ao regime iraniano, enviando uma mensagem em vídeo na primavera para desejar ao regime e ao povo iraniano um Feliz Nowruz, ou ano novo, suspendendo as restrições de interações de diplomatas americanos com seus colegas iranianos e enviando duas cartas ao supremo líder do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, pedindo relações mais calorosas entre os EUA e o Irã após 30 anos de inimizade.

"A resposta que tivemos foi, como dizer, gelada", disse um membro do governo. Em particular, a forma do governo iraniano lidar com as eleições presidenciais em junho solidificou a crença no governo Obama que era hora de endurecer, disse a autoridade.

* Alan Cowell contribuiu de Paris para esta matéria.

Tradução: Deborah Weinberg

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