UOL Notícias Internacional
 

26/09/2009

Saturados da guerra

The New York Times
Bob Herbert
Colunista do New York Times
A maioria dos norte-americanos, olhando para um globo, teria dificuldade em localizar o Afeganistão. Os norte-americanos de forma geral sabem muito pouco sobre a terra e o povo afegãos -e se importam ainda menos com eles.

Eles sabem que estamos em guerra lá, onde quer que seja, mas se você lhes perguntar o que é um pashtun ou mencionar o nome de Abdullah Abdullah, provavelmente receberá como resposta um olhar vazio.

A cabeça dos norte-americanos está voltada para outras coisas, como, por exemplo, tentar descobrir por que e se a Grande Recessão terminou, conforme acredita Ben Bernanke, por que e se o cenário do desemprego nos Estados Unidos continua parecendo um depósito de lixo tóxico.

Uma pesquisa de opinião New York Times/CBS News revelou que, oito anos após a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos, há um desencanto generalizado com o nosso envolvimento militar naquele país e um desejo de trazer as tropas de volta. Cerca de metade dos norte-americanos acredita que a guerra não teve nenhum efeito sobre a ameaça de terrorismo, e a maioria deseja que as tropas saiam do Afeganistão dentro de dois anos.

Os norte-americanos estão saturados da guerra. Alguns dos jovens que atualmente estão sendo preparados para combate tinham apenas 10 ou 11 anos de idade quando a Al Qaeda atacou os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001. Eles estão seguindo para um conflito pelo qual a maior parte dos norte-americanos não se interessa mais. A diferença entre a opinião pública sobre a guerra e a posição das principais lideranças civis e militares do país é chocante e sinistra.

Há um confronto vindo por aí. O presidente Barack Obama pode estar reavaliando a sua ideia de aumentar substancialmente o número de soldados norte-americanos no Afeganistão, mas nenhum indivíduo da hierarquia superior do governo anda sugerindo que há pela frente algo diferente de uma campanha longa, dura, trágica e cara. Não existe nenhuma promessa de vitória final, ou sequer uma definição séria do que seria uma vitória.

As duas opções mais amplas que têm sido cogitadas e discutidas na Casa Branca, no Pentágono e em outros locais são uma estratégia de contra-insurgência total, que inclui uma ênfase na proteção e na sedução ideológica do povo afegão, e um foco mais restrito no contra-terrorismo.

Essa distinção não é tão clara quanto aparenta ser. Obama diz que a nossa meta no Afeganistão é derrotar a Al Qaeda e os seus aliados extremistas. Isso é contra-terrorismo, e trata-se de um objetivo do qual poucos norte-americanos podem discordar.

Mas o governo argumenta também que é impossível derrotar a Al Qaeda e trazer as tropas norte-americanas de volta para casa se não combatermos o Taleban no seu território e, simultaneamente, trabalharmos no sentido de criar um governo efetivo no Afeganistão, dotado de forças armadas capazes de proteger a sua própria população. Essa é uma estratégia clássica de contra-insurgência e construção de país.

As metas do presidente, não importa como caracterizemos as estratégias cogitadas, podem ou não ser realizáveis. Mas não existe dúvida de que elas não são realizáveis em um curto período de tempo, sem uma grande perda de vidas, e sem um gasto tremendo e contínuo de dólares americanos.

O povo não foi preparado para uma missão renovada longa e dispendiosa no Afeganistão. E caso as baixas norte-americanas aumentem substancialmente, o apoio à guerra diminuirá proporcionalmente. Há pouquíssima tolerância nos Estados Unidos à realidade da guerra, e é por isso que as imagens exibidas pela mídia são tão esterilizadas. A ideia que a população faz de uma guerra é sobremaneira o produto de filmes de Hollywood sobre os episódios heroicos da chamada "Greatest Generation", e de videogames.

Essa desconexão entre aquilo que a população espera, ou que deseja aceitar, em relação à guerra do Afeganistão, e aquilo que a Casa Branca e o Pentágono estão de fato planejando é enorme. Os norte-americanos desejam que os seus políticos concentrem-se na economia aqui em casa. Após a longa e triste experiência no Iraque, e o pior choque econômico desde a Grande Depressão, o povo não tem mais estômago para combates prolongados e missões intermináveis para a construção de um novo país no Afeganistão.

Os generais de poltrona, bastante agitados, estão discutindo entusiasmadamente os méritos desta ou daquela estratégia, e especulando sobre as implicações políticas para Obama. Trata-se de um estimulante exercício intelectual. Mas o povo norte-americano tem outras prioridades em mente.

O que precisamos avaliar são as consequências de empurrarmos ainda mais conflitos bélicos pela garganta de um povo que está alquebrado, desanimado e saturado com os oito anos de guerra contínua que não geraram uma parada de vitória nem uma sensação de que o país encontra-se razoavelmente seguro.

Se o conflito no Afeganistão é tão crucial para a segurança norte-americana quanto Obama diz, então ele precisa defender essa ideia junto à população, de forma clara e convincente. Uma convocação presidencial às armas para fazer frente a uma ameaça de tal magnitude deverá sem dúvida eclipsar o debate nacional sobre o sistema de saúde.

Caso contrário, avaliemos alternativas criativas para essa guerra interminável e comecemos a trazer as tropas cansadas de volta para casa.

Tradução: UOL

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