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28/09/2009

Oliver Stone produz continuação do filme "Wall Street" após crise financeira histórica

The New York Times
Tim Arango
De Nova York
Recentemente, um Cadillac Escalade preto chegou ao Federal Reserve Bank de Nova York, em Lower Manhattan, construído na década de 1920 para lembrar os palácios de Florença da época da Renascença. Do banco de trás, surgiu um homem - ele usava suéter e calças escuras.

"Aqui é onde está o dinheiro", disse ele, pegando emprestadas as palavras de Willie Sutton, o ladrão de bancos da era da Grande Depressão. "Há mais ouro aqui do que em qualquer lugar do mundo". Cuidado, Wall Street: Oliver Stone está de volta.
  • Chris Pizzello/AP

    Ao caminhar por Wall Street, em Nova York, o popular cineasta Oliver Stone foi parado somente uma vez. Não por um corretor de valores, mas por um segurança da bolsa de valores que queria conversar sobre sua temporada no Vietnã (Stone
    é veterano da guerra e, em 1986, dirigiu "Platoon")



Este é um terreno familiar para Stone: seu pai era corretor, e seu filme de 1987, "Wall Street", se tornou o símbolo de uma era de excessos que o cineasta julgou estar no fim - mas que, na verdade, estava apenas começando. Agora, ele está aqui para filmar uma continuação, para captar a ambição em celulóide novamente. O pano de fundo é o colapso financeiro iniciado no ano passado com a queda do Bear Stearns.

Numa caminhada descompromissada pelas ruas tortas do distrito financeiro de Manhattan - uma semana antes do início previsto das gravações da sequência, intitulada "Wall Street 2" -, Stone disse nunca esperar que o alto mercado financeiro servisse de novo de cenário para sua narrativa.

"Achava que essa bolha tinha acabado", disse Stone, referindo-se à década de 1980. "Achei que aqueles dias iam acabar. Todo o excesso".

Apesar de seus próprios anos difíceis e uma existência nômade - ele iria para Veneza em alguns dias -, Stone parecia revitalizado e, aos 62 anos, surpreendentemente jovem. Seu filme original era um conto moralista sobre a ganância e a ambição pura e simples, e as próprias opiniões de Stone sobre os excessos do capitalismo eram evidentes. Porém, o filme e suas famosas frases - "É bom ser ambicioso", "O dinheiro nunca dorme" - tiveram uma persistência cultural que ele nunca esperou, talvez até nunca desejou.

"Nem te conto quantas pessoas jovens chegam a mim e dizem: 'Fui para Wall Street por causa do filme'", disse Stone, de pé, na esquina entre o Federal Hall e a Bolsa de Valores de Nova York. Ele próprio um rosto reconhecível, foi parado somente uma vez durante a caminhada, não por um corretor de valores, mas por um segurança da bolsa de valores que queria conversar sobre sua temporada no Vietnã (Stone é veterano do Vietnã e, em 1986, dirigiu o filme "Platoon").

Depois de trocar algumas palavras com o segurança do lado de fora da bolsa, Stone parou em frente ao prédio e ficou maravilhado com a mudança da cultura financeira depois do filme original. "Virou algo glamuroso cobrir Wall Street", disse ele. "Não era assim antes".

Outro aspecto de Wall Street que mudou - a imprensa financeira - pegou emprestado uma parte do glamour do tema do filme. Jim Cramer, o hipercinético apresentador de "Mad Money", da CNBC, e ex-administrador de fundos hedge, que certamente fez sua parte para mudar a situação das notícias financeiras, fará uma aparição no filme.

"Tem uma frase no filme antigo que dizia: 'beijá-la é como ler o Wall Street Journal'", disse Stone (na época, não era um elogio).

O mercado de ações, cujo agitado pregão era uma imagem frequente no primeiro filme, vai ser menos importante na sequência. Em vez disso, o prédio do Federal Reserve, onde várias reuniões financeiras importantes ocorreram no último outono durante os primeiros dias da crise, será uma locação mais importante.

"No filme original de 87, não havia Federal Reserve, não chegamos lá", disse Stone. "Mas agora o mundo mudou radicalmente. Isso é parte do baluarte do sistema".

"Wall Street" foi premiado com o Oscar de melhor ator para Michael Douglas, que interpretou Gordon Gekko, implacável especulador corporativo cujas frases memoráveis ainda são citadas nos pregoes. Aqui vai um exemplo: "Estou falando de liquidez. Rico o suficiente para ter seu próprio jatinho. Rico o suficiente para não perder tempo. Cinquenta, cem milhões de dólares, cara. Um player".

Douglas irá repetir seu papel como Gekko. Da última vez em que foi visto pelo público, o personagem estava indo em direção à prisão por fazer transações com base em informações privilegiadas.

"Quando Gekko sai da prisão, no começo desse filme, ele basicamente tem de se redefinir, redefinir seu caráter", disse Stone. "Ele está buscando uma segunda chance".

Algumas semanas atrás, Douglas e Stone jantaram no Shun Lee, um restaurante chinês no Upper West Side de Manhattan, com uma companhia improvável: Samuel D. Waksal, o fundador da empresa biofarmacêutica ImClone Systems, que passou cinco anos numa prisão federal por fraude acionária.

"Foi para que Michael conhecesse um cara que tivesse sido preso", disse Stone. Douglas, em entrevista, disse que os atores muitas vezes hesitam em fazer continuações, "particularmente uma em que ganhei um Oscar da primeira vez". No entanto, ele disse que a magnitude da crise financeira apagou qualquer reserva.
  • Divulgação

    Os atores Michael Douglas (à esquerda) e Charlie Sheen em cena do filme "Wall Street - Poder
    e Cobiça", rodado nos Estados Unidos em 1987



A ressonância de Gekko, disse Douglas, "provavelmente foi a maior surpresa da minha carreira. As pessoas dizem que esse vilão sedutor as motivou a entrar para esse ramo".

Hoje, disse Douglas, é comum sair para jantar e, no final, ver um "executivo de Wall Street bem apessoado chegar e dizer: 'Você é o cara'". Douglas acrescentou: "Isso é meio absurdo".

O resto do elenco inclui Shia LaBeouf como Jake Moore, um jovem corretor e noivo da filha de Gekko, interpretada por Carey Mulligan; Josh Brolin como o presidente de um banco de investimentos; Frank Langella como mentor de Jake; e Susan Sarandon como mãe de Jake. Charlie Sheen, que interpretou o papel central de Bud Fox, um jovem corretor, no original, fará uma interpretação breve na continuação.

Um roteiro para a continuação tem circulado há anos. Porém, no ano passado, no meio da crise financeira, a 20th Century Fox contratou o escritor Allan Loeb para reescrever o roteiro e amarrar a história a eventos atuais.

"Começamos de novo, com a história de um jovem que está no centro disso tudo, e como ele precisa da ajuda de Gordon Gekko para navegar por essas águas", disse Alex Young, co-presidente de produção da 20th Century Fox.

Apesar da infância de Stone ter sido imersa no mundo das finanças, graças à profissão do pai, ele não herdou a facilidade para o assunto. Ele foi muito mal na faculdade de economia de Yale, e entrou para o cinema. Ele passou os últimos meses pesquisando sobre o colapso financeiro, lendo e se reunindo com executivos e acadêmicos.

No verão, ele trouxe LaBeouf para um coquetel organizado por Nouriel Roubini, professor de economia da New York University e diretor de uma empresa de consultoria, e se reuniram no Maritime Hotel, no bairro de Chelsea, em Nova York. Ali, Stone e LaBeouf discutiram sobre o colapso financeiro com gerentes de fundos hedge que são clientes da empresa de Roubini.

"Nesta crise financeira, foram os bancos tradicionais e os de investimento que tiveram um papel maior em fazer coisas estúpidas e idiotas", disse Roubini, que foi aclamado por ser um dos primeiros a prever a crise financeira (Stone ofereceu a Roubini um pequeno papel no filme, como gerente de fundos hedge).

Stone também conversou com Jim Chanos, conhecido administrador de fundos hedge, que lhe pediu que focasse menos nesse tipo de fundo e mais no sistema bancário. "Há uma coisa muito mais importante, uma história maior, no que aconteceu com o sistema", disse Chanos.

Na primeira vez em Wall Street, Stone produziu personagens e um retrato que perdurou mais tempo do que ele jamais esperou, e com consequências involuntárias. Entretanto, ele nunca faria uma segunda versão do filme se não percebesse que o sistema e o alto mercado financeiro estivessem finalmente de joelhos.

"Não faríamos esse filme em 2006", disse ele. "As coisas eram mais soltas. Não queria glorificar idiotas".

Tradução: Gabriela d'Avila

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