UOL Notícias Internacional
 

28/09/2009

Vacina contra Aids mostra benefícios e aponta caminho para mais estudos

The New York Times
Donald G. Mc Neil Jr.
Cientistas afirmaram na última quinta-feira (24) que uma nova vacina contra a Aids, a primeira que até agora foi declarada como eficaz para proteger uma minoria de seres humanos contra a doença, será estudada para responder a perguntas fundamentais: por que ela funcionou em algumas pessoas e não em outras e por que as que foram infectadas apesar de terem sido vacinadas não receberam nenhum benefício.
  • AP

    A pesquisa foi conduzida pelo Programa de HIV do Exército dos EUA, em colaboração com centros de pesquisa e com o Ministério de Saúde da Tailândia



A vacina - conhecida como RV 144, uma combinação de duas vacinas produzidas por meio de engenharia genética e que não haviam funcionado antes em seres humanos - foi declarada como um sucesso restrito depois de um teste clínico de seis anos com mais de 16 mil voluntários na Tailândia. Os que foram vacinados foram quase três vezes menos infectados do que os outros, informaram os responsáveis na manhã de quinta-feira.

"Não quero usar uma palavra como 'avanço', mas acho que não existem dúvidas de que este é um resultado muito importante", disse o Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, que é um dos patrocinadores dos testes.

"Há mais de vinte anos, os testes de vacina têm essencialmente fracassado", disse Fauci. "Agora foi como se estivéssemos tateando num caminho escuro, e uma porta foi aberta. Podemos começar a fazer algumas perguntas muito importantes."

Entretanto, ainda serão necessários anos de trabalho antes que seja possível considerar uma vacina que possa acabar com a epidemia, que já matou cerca de 25 milhões de pessoas.

"Costumamos discutir até mesmo se é possível criar uma vacina", disse Mitchell Warren, diretor-executivo da AIDS Vaccine Advocacy Coalition, ou Avac. "Esta não é a vacina que acaba com a epidemia e diz: 'Ok, vamos partir para outra coisa'. Mas é um passo fabuloso que nos leva a uma nova direção."

Ainda não se sabe ao certo que direção é essa. Ninguém - incluindo os pesquisadores do Exército dos EUA, dos Institutos Nacionais de Saúde, do Ministério de Saúde Pública da Tailândia e de duas companhias que testaram a vacina - sabe nem mesmo por que a vacina deu este fraco indício de sucesso.

Os especialistas geralmente desdenham as vacinas que não protegem no mínimo 70% a 80% das pessoas que as tomam. E esta vacina não reduziu a quantidade de vírus das pessoas que foram vacinadas e contraíram o vírus, o que é um mistério porque mesmo vacinas para outros fins costumam fazer isso.

Seria inútil simplesmente repetir o teste para confirmar os resultados, garantem os especialistas.

O teste, que foi o maior de vacina de Aids já realizado, custou US$ 105 milhões (R$ 189 milhões) e acompanhou 16.402 voluntários tailandeses.

Os homens e mulheres entre 18 e 30 anos foram recrutados em duas províncias a sudeste da capital, Bancoc, em meio à população geral e não em grupos de alto risco como usuários de drogas injetáveis e trabalhadores do sexo. Metade recebeu seis doses de duas vacinas diferentes, a outra metade recebeu placebo.

Por motivos éticos, todos receberam camisinhas, foram ensinados como evitar a infecção e receberam a promessa de tratamento anti-retroviral vitalício se contraíssem a Aids. Eles foram testados regularmente por três anos; 74 das pessoas que receberam placebos foram infectadas, mas apenas 51 dos que receberam as vacinas contraíram o vírus.

Apesar de a diferença ser de apenas 23 pessoas, o coronel Jerome H. Kim, médico e gerente do programa de vacina contra HIV do Exército, disse que o número é estatisticamente importante e significa que a vacina foi 31,2% efetiva.

Os resultados foram surpreendentes porque ambas as vacinas, uma da companhia francesa Sanofi-Aventis e outra desenvolvida pela Genentech e agora licenciada pela Global Solutions for Infectious Diseases, um grupo sem fins lucrativos, falharam quando usadas isoladamente.

"Isso foi uma surpresa", disse Chris Viehbacher, diretor-executivo da Sanofi. Mesmo uma proteção de 31% "já é pelo menos duas vezes melhor do que nossos especialistas internos estavam prevendo", acrescentou.
  • Sakchai Lalit/AP

    Voluntário cuida de um paciente com Aids em
    um hospital da província de Lopburi, na Tailândia



Em 2004, logo que começou, havia tanto ceticismo em relação ao teste que 22 importantes pesquisadores de Aids publicaram um editorial na revista Science sugerindo que se tratava de um desperdício de dinheiro.

Uma conclusão que se pode tirar a partir do resultado surpreendente, disse Alan Bernstein, chefe da Global HIV Vaccine Enterprise, uma aliança de organizações que buscam a vacina, "é que não estamos fazendo trabalho suficiente em seres humanos".

Em vez de voltar aos ratos ou macacos, disse ele, novas variações diferentes das duas vacinas poderiam ser testadas em algumas centenas de pessoas em vários países.

Essa vacina foi planejada para combater a variedade mais comum do vírus no sudeste asiático, então terá de ser modificada para as variedades que circulam na África e nos Estados Unidos.

A vacina da Sanofi, Alvac-HIV, é um vírus da varíola dos canários com três genes do vírus da Aids inseridos. Variações dela foram testadas em vários países; ela se mostrou segura, mas não ofereceu proteção. A outra vacina, Aidsvax, foi orginalmente produzida pela Genentech e contém uma proteína encontrada na superfície do vírus da Aids; ela é cultivada num caldo de células de ovário de hamsters. Ela foi testada em usuários de drogas tailandeses em 2003 e em homens homossexuais na América do Norte e Europa, mas falhou.

Em 2007, dois testes de uma vacina da Merck em cerca de 4 mil pessoas foram interrompidos logo no início; ela não só não funcionou como pareceu aumentar o risco de infecção para alguns homens.

Combinar a Alvac e a Aidsvax foi simplesmente um palpite: se uma era projetada para criar anticorpos e a outra para alertar os glóbulos brancos do sangue, será que elas funcionariam juntas?

Um resultado intrigante - as pessoas que foram infectadas tinham tantos vírus em sua corrente sanguínea quer tivessem recebido a vacina ou o placebo - sugere que a RV 144 não produz anticorpos neutralizadores, como faz a maioria das vacinas, disse Fauci. Anticorpos são proteínas produzidas pelo corpo, com formato de Y, que se agrupam em torno dos vírus invasores, bloqueando os espinhos de sua superfície com os quais eles se ligam às células e destruindo-os.

Em vez disso, segundo Fauci, ela pode produzir "anticorpos acopláveis", que se unem às células efetivas, um tipo de glóbulo branco do sangue que ataca o vírus, e as fortalecem. Portanto, disse ele, faz sentido investigar todas as amostras de sangue dos tailandeses em busca de anticorpos acopláveis.

"Na pior das hipóteses", disse ele, "talvez não possamos nem mesmo medir o parâmetro crítico. Pode ser algo que não se costuma associar à proteção."

O Dr. Lawrence Corey, principal pesquisador da HIV Vaccine Trials Network, que não fez parte do teste com o RV 144, disse que o novo trabalho sobre versões enfraquecidas da vacina da varíola havia produzido melhores "esqueletos" de varíola que poderiam ser substituídos pela varíola dos canários. Os novos testes, ele acrescentou, poderiam ser mais rápidos e menores se fossem feitos em países africanos onde a Aids é mais comum do que na Tailândia.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,63
    3,167
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,87
    65.667,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host