UOL Notícias Internacional
 

29/09/2009

Honduras fecha dois veículos de mídia, então volta atrás

The New York Times
Elisabeth Malkin e Ginger Thompson
Em Tegucigalpa (Honduras)

Que medidas o Brasil deveria adotar em relação ao presidente deposto?

O governo de fato recuou na segunda-feira (28) de sua tentativa de acabar com os protestos e limitar a liberdade de expressão após os líderes legislativos terem alertado que não apoiariam a medida.

A revolta do Congresso, a primeiro racha público na coalizão que depôs o presidente Manuel Zelaya há três meses, mostrou que o presidente de fato, Roberto Micheletti, enfrenta limites no seu poder para reprimir a dissensão.

Em uma coletiva de imprensa extraordinária televisionada na noite de segunda-feira, Micheletti pediu "perdão ao povo hondurenho" e disse que suspenderia o decreto impondo o estado de sítio "o mais rápido possível".

Veja a cronologia da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição



Mas o recuo do governo ocorreu no mesmo dia em que os Estados Unidos enviaram mensagens ambíguas em relação à crise, comentários que alguns especialistas disseram que poderiam encorajar o governo que chegou ao poder pelo golpe.

O governo Micheletti anunciou o estado de sítio na noite de domingo, impondo amplas restrições às liberdades civis. O decreto permitia ao governo fechar empresas de rádio e televisão e proibir reuniões públicas não autorizadas, além de permitir que a polícia detivesse suspeitos sem mandados.

Na manhã de segunda-feira, policiais mascarados tomaram uma emissora de televisão e soldados formaram uma barricada ao redor de uma emissora de rádio, fechando dois veículos de mídia que eram as principais vozes da oposição ao golpe de 28 de junho que derrubou Zelaya.

Posteriormente, centenas de policiais fizeram um cordão de isolamento em ambos os lados de uma rua onde várias centenas de manifestantes se reuniam para uma marcha que Zelaya rotulou como a ofensiva final. Os simpatizantes do presidente deposto pareceram ter ficado assustados e a marcha foi prevenida.

Mas no meio da tarde, a liderança parlamentar chegou ao palácio presidencial para dizer a Micheletti que o Congresso não aprovaria o decreto, o que a lei hondurenha exige que faça.

"Nós precisamos reduzir a pressão e todos precisam se acalmar para que possamos ter um diálogo", disse José Alfredo Saavedra, o presidente do Congresso e membro da delegação que se encontrou com Micheletti.

A resposta americana à crise na segunda-feira foi um tanto contraditória.

O Departamento de Estado condenou as ações do governo. "Eu acho que é hora do regime de facto largar a pá", disse um porta-voz, Philip J. Crowley. "A cada ação, eles continuam tornando o buraco mais fundo."

Mas na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington, onde os diplomatas se reuniam em uma sessão de emergência para discutir a expulsão pelo governo Micheletti de quatro diplomatas no domingo, o embaixador americano reservou sua condenação mais forte a Zelaya.

O embaixador, W. Lewis Amselem, chamou Zelaya de "irresponsável e tolo" por retornar a Honduras antes da obtenção de um acordo negociado. "O presidente devia parar de atuar como se estivesse estrelando em um filme antigo", disse Amselem.

Chris Sabatini, um analista do Conselho das Américas, disse que o governo americano estava embaraçado por estar ligado a Zelaya, "um líder perigosamente caprichoso". Mas ele disse que as mensagens ambíguas também poderiam ser uma tentativa de "abrandar a posição de Micheletti, ao mostrar que estão agindo de forma equânime".

Ele acrescentou: "O efeito, entretanto, é que os Estados Unidos parecem fraquejar diante do governo de facto".

José Miguel Vivanco, do Human Rights Watch, disse que se os Estados Unidos estavam tentando distribuir a culpa, a estratégia não estava funcionando. "Isso acaba por neutralizar a pressão", ele disse. "Micheletti é aquele que está removendo as liberdades em um grau ultrajante e os Estados Unidos precisam concentrar toda sua atenção nele."
  • Arte UOL


Apesar da condenação internacional e do corte da ajuda, o governo Micheletti aposta que pode suportar até as eleições marcadas para 29 de novembro e até que o novo presidente assuma o governo em janeiro.

Mas o retorno clandestino de Zelaya a Honduras na semana passada parece ter forçado a mão de Micheletti, o forçando a tomar medidas cada vez mais severas e que aumentam seu isolamento.

No sábado, o governo de facto disse aos diplomatas da Espanha, México, Argentina e Venezuela para que entregassem suas credenciais caso seus governos não reconhecessem o governo Micheletti.

No domingo, o governo barrou quatro diplomatas da OEA que tinham chegado para iniciar os preparativos para uma visita de ministros das Relações Exteriores dos países da OEA. Ele ameaçou fechar a embaixada brasileira em 10 dias caso o Brasil não entregasse Zelaya para julgamento ou lhe concedesse asilo, uma ameaça rejeitada pelo Brasil.

A resposta do Congresso ao decreto parece refletir diferenças na estratégia dentro da coalizão de governo, se não na meta final. Apesar do governo de facto parecer disposto a desprezar a condenação internacional em seus esforços de deter a oposição, os principais partidos no Congresso têm um forte interesse em encontrar uma saída política para a crise.

Nas ruas de Tegucigalpa, vivas a Lula e ao Brasil durante uma manifestação pró-Zelaya

  • Rafael Alegria, um dos coordenadores do grupo
    de resistência ao golpe em Honduras, fala sobre
    o fascínio dos partidários de Zelaya pelo presidente brasileiro, em virtude do apoio oferecido ao líder deposto hondurenho. Comentários em espanhol



Os líderes que confrontaram Micheletti na segunda-feira pareciam preocupados com o fato do decreto ter ido longe demais, podendo minar a legitimidade da eleição e colocando em risco o futuro da ajuda externa, que representa 20% do orçamento do país.

Os Estados Unidos e outros países sugeriram que não reconhecerão um novo presidente eleito sob as condições políticas existentes. O decreto que estabeleceu o estado de sítio, que expiraria apenas duas semanas antes da eleição, tornaria mais improvável que as eleições fossem vistas como livres e justas.

Ao longo da semana passada, tiveram início alguns pequenos passos no sentido de uma negociação. Quatro candidatos presidenciais se encontraram com Zelaya na embaixada do Brasil e o arcebispo auxiliar de Tegucigalpa, Juan José Pineda, se encontrou com ambos os lados.

Na noite de segunda-feira, o governo Micheletti também anunciou que convidaria outra visita da OEA na próxima semana.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h20

    0,99
    3,158
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host