UOL Notícias Internacional
 

30/09/2009

Posição americana em relação à revelação do Irã difere do pré-guerra no Iraque

The New York Times
Scott Shane
Em Washington (EUA)
Para muitos americanos, o discurso do secretário de Estado, Colin Powell, à ONU sobre as armas não convencionais do Iraque, em fevereiro de 2003, foi um poderoso persuasivo. Foi uma apresentação impressionante, contendo imagens por satélite e interceptações das comunicações iraquianas, feita por uma das figuras mais confiáveis na vida pública.

Então começou uma guerra longa e cara, e o país descobriu que as afirmações de que o Iraque possuía armas ilícitas eram completamente infundadas.
  • Laurent Rebours/AP

    Em 2002, o governo americano invadiu o Iraque de Saddam Hussein sob o pretexto de evitar a proliferação de armas químicas e biológicas. Agora, quem preocupa é o governo do Irã, com o seu programa nuclear. Desta vez, no entanto, não há uma marcha à guerra liderada pela Casa Branca



Agora o confronto dos Estados Unidos com o Irã sobre seu programa nuclear está esquentando, com a revelação na semana passada de que o governo iraniano está construindo um segundo complexo de enriquecimento de urânio não previamente reconhecido.

A pergunta é inevitável: o barulho em torno da instalação secreta perto de Qum seria outro julgamento apressado, baseado em evidência ambígua, provocado pelo desejo de parecer duro em relação a um regime odiado? Em outras palavras, os Estados Unidos estariam repetindo os erros de 2002?

Ativistas antiguerra, com o ceticismo de quem já foi enganado uma vez, assistem a disputa em torno de Qum com um senso alarmado de déjà vu. E alguns especialistas em controle de armas e Irã estão pedindo por mais evidências e alertando contra conclusões apressadas.

Mas apesar das semelhanças entre 2002, quando as avaliações falhas de inteligência foram apresentadas, e 2009 serem inconfundíveis, as diferenças são profundas.

Desta vez, segundo todos os relatos, não há uma marcha à guerra liderada pela Casa Branca. O secretário de Defesa, Robert Gates, disse que uma ação militar apenas adiaria as armas nucleares iranianas por um a três anos, e não há evidência de que o presidente Barack Obama deseja acrescentar uma terceira guerra às suas responsabilidades.

Desta vez, também, a disputa em torno dos fatos é mais limitada. O Irã admitiu a existência das instalações nucleares de enriquecimento e na terça-feira reconheceu que estava construindo uma instalação subterrânea, ao lado de uma base militar, para sua proteção. Ainda assim, o Irã contesta as alegações americanas de que faz parte de um programa de armas nucleares.

As autoridades de inteligência americanas disseram ter aprendido uma lição traumática com o desastre das armas iraquianas, e que avaliações do programa nuclear do Irã são estudadas cuidadosamente e não influenciadas por considerações políticas.

"Nós falhamos para com o país, e queremos assegurar que nunca mais aconteça de novo", disse Thomas Fingar, que antes da guerra no Iraque liderava o birô de inteligência do Departamento de Estado, que discordou das alegações equivocadas a respeito do programa nuclear do Iraque. A dissensão de pontos de vista majoritários nas avaliações de inteligência agora é encorajada, e suposições são descartadas, disse Fingar, que deixou seu cargo como vice-diretor de análise de inteligência nacional em dezembro e agora está na Universidade de Stanford. "Agora é uma briga de ideias muito mais transparente", ele disse.

Essa briga produziu uma conclusão surpreendente, em uma avaliação nacional de inteligência de 2007, sobre o programa nuclear do Irã: que o trabalho de Teerã no desenvolvimento de uma ogiva foi suspenso em 2003. Hoje, a posição americana é de que o trabalho no projeto ainda não foi retomado, uma posição bem mais conservadora que a de alguns aliados próximos, que acreditam que o trabalho foi retomado ou que nunca parou, incluindo a Alemanha, Israel e, segundo uma reportagem de terça-feira no "Financial Times", o Reino Unido.

Ao avaliar a construção nuclear próxima de Qum, a CIA "formou suas conclusões de forma cuidadosa e paciente ao longo do tempo, pesando e testando cada peça de informação que chegava", disse Paul Gimigliano, um porta-voz da agência. "Este foi um grande sucesso de inteligência."

Mas nem todos estão persuadidos. Glenn Greenwald, um autor e blogueiro de esquerda para a revista online "Salon", chamou os paralelos com as acusações de que o Iraque tinha as chamadas armas de destruição em massa em 2002 de "substanciais e perturbadores".

"O governo está fazendo alegações inflamadas a respeito de um programa de armas de destruição em massa e intenções de outro país sem fornecer qualquer evidência", ele disse.

Gary Sick, um especialista em Irã da Universidade de Colúmbia, disse que, desde 1992, as autoridades americanas alegam periodicamente que a república islâmica está próxima de produzir uma bomba nuclear. Como Saddam Hussein do Iraque, o governo clerical no Irã é "desprezado", ele disse, levando a suposições de pior cenário.

"Em 2002, parecia total ingenuidade acreditar que Saddam não tinha um programa" disse Sick. Agora, a noção de que o Irã não está correndo para fabricar uma bomba é igualmente excluída da discussão séria, ele disse.

Irã é alertado sobre fraude nuclear



Sick, como alguns na comunidade de inteligência, disse acreditar que o Irã pode pretender parar prestes a fabricar uma arma, mas criando a capacidade de produzir a bomba em questão de meses no futuro. Este cenário é que pode permitir espaço para uma intervenção posterior.

Sem de fato fabricar uma bomba, o Irã poderia ganhar a influência de ser uma potência quase nuclear, sem enfrentar as repercussões consequentes da conclusão do trabalho.

Greg Thielmann, um analista de inteligência do Departamento de Estado antes da guerra no Iraque, disse acreditar que as avaliações de inteligência sobre o Irã estão bem mais equilibradas, em parte porque não há uma pressão urgente por parte da Casa Branca de chegar a uma conclusão em particular, como ocorreu em 2002. Mas ele está incomodado com o que acredita ser um senso exagerado de crise em torno da questão nuclear iraniana.

"Algumas pessoas estão dizendo que o tempo está se esgotando e que temos que agir até o final do ano", disse Thielmann, atualmente um membro sênior da Associação de Controle de Armas. "Eu tenho argumentado que temos anos, não meses. Os fatos argumentam a favor de uma abordagem mais calma."

David Albright, um ex-inspetor de armas nucleares que agora chefia o Instituto para Ciência e Segurança Internacional, disse que a "história bem-documentada (do Irã) de programas nucleares não declarados" dá credibilidade às suspeitas americanas.

Ainda assim, disse Albright, o governo deve fornecer mais informação para apoiar suas acusações. Sobre a instalação em Qum, por exemplo, ele perguntou: as agências de inteligência americanas têm evidência de que ela visa produzir urânio para armas, ou apenas poderia receber equipamento para essa finalidade?

"Elas precisam mostrar sua mão", ele disse sobre as agências de inteligência americanas. "Ou não temos que acreditar nelas."

Em muitas análises dos erros cometidos antes da guerra no Iraque, a imprensa, incluindo o "The New York Times", recebeu sua parcela de críticas, por repetir as alegações do governo Bush a respeito do Iraque sem investigação ou ceticismo suficiente.

Greenwald, o blogueiro da "Salon", disse que considera a cobertura de Qum sem muita melhoria por parte da imprensa.

"Não há virtualmente nenhum questionamento sobre se essa instalação poderia ser utilizada para fins civis, ou se o fato do Irã a estar informando mais de um ano antes dela entrar em operação demonstra sua boa fé", ele disse.

Greg Mitchell, cujo livro de 2008, "So Wrong for So Long", analisou os fracassos da imprensa a respeito do Iraque, disse que daria notas melhores à cobertura a respeito do Irã.

"Eu não vejo o mesmo nível de aceitação cega ao que os falcões estão dizendo", disse Mitchell, editor da revista "Editor and Publisher". "Eu acho que a imprensa aprendeu algumas lições."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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