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01/10/2009

Antigo opositor birmanês luta com eleição polêmica

The New York Times
U Win Tin, o mais antigo prisioneiro político de Mianmar (antiga Birmânia), foi atormentado, torturado e espancado por seus captores no notório presídio de Insein durante quase duas décadas. Hoje com 80 anos ele enfrenta um novo tipo de tormento: ver seus colegas de partido político decidirem jogar conforme as regras da junta militar que o colocou atrás das grades.

  • Romeo Ranoco/Reuters - 11.ago.2009

    Manifestantes protestam pela liberdade de Suu Kyi; o cofundador da Liga Nacional pela Democracia é um opositor declarado da participação nas eleições nacionais marcadas para o próximo ano

Libertado em setembro de 2008, depois de mais de 19 anos na prisão, Win Tin continua notavelmente ativo, vigoroso e politicamente engajado. O cofundador da Liga Nacional pela Democracia da ativista Daw Aung San Suu Kyi, ele é um opositor declarado da participação nas eleições nacionais marcadas para o próximo ano. O voto, juntamente com a implementação de uma nova Constituição, introduziria um governo compartilhado civil e militar depois de 45 anos de regime militar.

Mas enquanto a Constituição, aprovada em um referendo polêmico realizado em meio à grande devastação do ciclone Nargis em 2008, permite a representação eleita, dá poderes especiais aos militares no que a junta chama de "democracia disciplinada". Muitos críticos chamam isso de fraude.

"A eleição não pode significar nada se ela ativar a Constituição de 2008, que é muito antidemocrática", disse Win Tin em uma entrevista recente.

No entanto, seu partido está dividido sobre se deve boicotar a eleição. Alguns membros dizem que participar significaria perder a reivindicação moral à vitória arrasadora do partido na eleição geral de 1990, que foi ignorada pela junta militar. Aung San Suu Kyi, que passou grande parte do período desde então em prisão domiciliar e foi condenada a uma nova pena de 18 meses em maio, não divulgou suas opiniões sobre o assunto.

Mas a Constituição oferece certas proteções. Em agosto, o Grupo de Crise Internacional, organização não-governamental baseada em Bruxelas que busca evitar e resolver conflitos mortais, divulgou um relatório recomendando que os grupos de oposição participem da eleição. Ele disse que, embora a nova Constituição "reforce o poder militar", as mudanças pelo menos estabelecem "espaços políticos compartilhados - as legislaturas e talvez o gabinete - onde a cooperação poderia ser promovida".

E no plano internacional algumas políticas em relação a Mianmar estão mudando.

Na semana passada, o governo Obama anunciou que vai tratar diretamente com a junta, enquanto mantém suas sanções. A secretária de Estado Hillary Clinton pediu a libertação incondicional de prisioneiros políticos, incluindo Aung San Suu Kyi, e "uma reforma democrática verossímil".

"Se o envolvimento direto dos EUA resultará na libertação de todos os prisioneiros políticos e em uma revisão da Constituição de 2008, o diálogo poderá começar entre nós e a junta, e consideraríamos disputar a eleição", disse Win Tin.

Caloroso, preciso e claramente determinado, Win Tin disse que a junta pode tê-lo libertado pouco antes de completar sua sentença de prisão para dividir o partido. Ele admitiu que "estamos tendo certas discussões sobre se vamos participar das eleições ou não", mas insistiu que "não há conflito interno no partido hoje".

Antes de ser preso durante três anos em 1989, depois que se tornou secretário da então recém-formada Liga Nacional pela Democracia, Win Tin tinha trabalhado como jornalista. Em 1991, ele recebeu mais dez anos de condenação por seu envolvimento em levantes populares em 1988, que foram esmagados pelos militares. Em 1996, ele foi condenado a mais sete anos por enviar à ONU um abaixo-assinado sobre abusos nas prisões de Mianmar. A maior parte do tempo ele passou em confinamento solitário.

"Eu não podia me inclinar para eles", ele disse. "Não, não conseguia. Escrevia poemas para não enlouquecer. Fazia matemática com giz no chão."

Ele acrescentou: "De vez em quando, eles pedem para assinar uma declaração de que você não vai fazer política e que vai cumprir a lei, etc., etc. Eu me recusava".

Quando todos os seus dentes superiores foram destruídos, ele tinha 61 anos. Os guardas se recusaram a deixar que ele usasse dentaduras durante oito anos, fazendo-o mastigar a comida com a gengiva.

No início deste mês, Win Tin foi detido brevemente depois que escreveu um artigo publicado no "Washington Post" criticando a junta militar e seus planos para a eleição no próximo ano.

"Acho que eles estão tentando me intimidar, impedir-me de aparecer na mídia estrangeira", ele disse.

Durante a entrevista, na varanda cheia de plantas da casa de seu primo no subúrbio de Yangon, espiões do governo o observavam abertamente e tiraram fotografias de fora do portão.

Win Tin, que nunca se casou, fala com carinho de sua filha adotiva, que vive em Sydney, Austrália, depois de conseguir um asilo político no país há 15 anos. Ele não a vê desde então.

Habituado a uma dieta escassa na prisão, ele come uma refeição de manhã cedo e um pouco de fruta à noite. "Não quero ser um peso para ninguém", disse.

Desde sua libertação, Win Tin tentou revigorar a liderança da Liga Nacional pela Democracia aumentando a frequência das reuniões e fazendo lobby junto a governos estrangeiros. Aung San Suu Kyi continua popular, apesar dos longos anos de detenção, mas o partido foi prejudicado pelas prisões de centenas de membros mais jovens, disse Win Tin.

"Temos alguns jovens, mas eles são seguidos e mandados para a cadeia o tempo todo", ele disse. "Às vezes eles vão ao pagode só para rezar. São seguidos e acusados de alguma coisa e condenados." Muitos são torturados, ele disse.

Em um tipo de tortura, chamada "andar de motocicleta", a pessoa é obrigada a dobrar os joelhos, ficar nas pontas dos pés com pregos afiados sob os calcanhares e fazer o som de um motor. Quando a pessoa não consegue mais ficar na ponta dos pés, os pregos os penetram.

Todos menos oito colegas de Win Tin no comitê executivo central do partido são mais velhos que ele. O presidente do comitê, U Aung Shwe, tem 92 anos e está tão doente que não visita a sede do partido há meses. O secretário do partido, U Lwin, 87, está paralisado em uma cama. O mais jovem do grupo é U Khin Maung Swe, 64.

Apesar dos desafios que seu partido enfrenta, Win Tin continua animado.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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