UOL Notícias Internacional
 

02/10/2009

Em uma província espanhola, um crepúsculo dos matadores

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Barcelona (Espanha)
Aqui na Catalunha, esta região persistentemente separatista da Espanha, as touradas enfrentam dificuldades há eras. E a economia não tem ajudado. Os preços dos ingressos para as touradas são equivalentes aos das óperas. E a produção das touradas é uma atividade cara. Neste ano o número de touradas despencou em toda a Espanha.

Mas Jose Tomas ainda atrai enormes multidões. Para os aficionados, ele é a última grande esperança para o "toreo", conforme as touradas são chamadas por aqui. Reservado, um matador dotado de um destemor e uma calma sobrenaturais, cercado de histórias e de mistérios, ele aposentou-se em 2002, aos 27 anos, e no auge da fama, apenas para retornar inesperadamente cinco anos mais tarde em Barcelona para uma tourada que seria a primeira com venda total de ingressos em 20 anos.
  • Manuel Ruiz Toribio/AP - 19.ago.2002

    O toureiro José Tomas tenta pegar uma galinha que foi jogada na arena durante tourada em Ciudad Real, Espanha. Apesar do declínio das touradas na Catalunha, o matador continua atraindo multidões



Todos os 19 mil lugares do Plaza Monumental, a bela arena de tijolos e azulejos desta cidade, foram vendidos.

No último domingo ele estava de volta, para mais uma ocasião especial:
talvez a última tourada na Catalunha. Nas últimas três décadas, a queda do interesse dos jovens catalães somou-se à pressão dos defensores dos direitos dos animais e dos nacionalistas da região para acabar com o toreo na Catalunha.

Nas quatro províncias da região, as arenas de touros foram fechadas; a de Barcelona é a única que ainda encontra-se ativa. Agora um referendo no parlamento catalão poderá acabar completamente com as touradas na província. Muito se tem falado nesta parte da Espanha sobre uma proibição total do toreo. Os fãs minimizavam o fato. Mas, desta vez, até mesmo os aficionados acreditam que é provável que a proibição seja aprovada.

Assim, a corrida do domingo - o termo refere-se a uma apresentação regular à tarde de três matadores e seis touros - seria mais do que apenas a última tourada da estação. Ela marcaria também o fim de uma era. E Jose Tomas (Jose Tomas Roman Martin, mas todo mundo o conhece pelo primeiro nome composto) chegou, naquilo que parecia ser uma última tentativa de preservar as touradas. Ele trouxe a sua arte e o sucesso de bilheteria.

Arte sim, mas para os aficionados. Esta é a arte do ritual, antiga e colorida, com a sua sequência de movimentos, firmemente executados mas, como os touros sempre variam, diferentes a cada vez. Uma sequência que resulta na graça de um balé por parte dos matadores, que são julgados também pela capacidade de fazer com que os touros movimentem-se graciosamente. As touradas fazem parte do patrimônio cultural espanhol, dizem os fãs. A Europa pode desejar unir-se em torno de interesses sociais e econômicos comuns, mas as culturas nacionais precisam ser respeitadas, e o toreo representa diversidade cultural.

É claro que os oponentes veem a questão de outra forma. Cerca de doze defensores dos direitos dos animais estavam em frente à arena no domingo, portando cartazes manchados de tinta vermelha.

Na rua, no La Gran Pena, um bar frequentado pelos fãs das touradas, Isabel Bardon, a proprietária, equilibrava uma bandeja cheia de cervejas enquanto atendia a uma multidão de fregueses, alguns deles esticando o pescoço para ver o matador aposentado, que sorria para fotografias ao lado de homens idosos que fumavam grossos charutos. "Isso seria uma má notícia para mim e o meu negócio", disse ela, referindo-se à possível proibição das touradas.

Pode ser. Quem sabe? O que está evidente é que, nos primeiros anos do século passado, Barcelona tinha pelo menos três arenas de touros. A cidade era uma meca para os fãs. Entre as décadas de vinte e sessenta houve mais touradas aqui do que em qualquer outra cidade espanhola.

Mas os nacionalistas catalães passaram a espalhar a ideia de que o toreo seria uma imposição à Catalunha feita pelo regime fascista de Franco, que promovia as touradas, bem como o "flamenco", um símbolo patriótico.
A oposição às touradas transformou-se em uma declaração de separatismo por outros meios. Os direitos dos animais surgiram depois e alimentaram a agenda nacionalista.

O fato de a questão continuar sendo sobretudo política é demonstrado do outro lado da fronteira, na região catalã do sul da França, onde as touradas são defendidas de forma tão feroz quanto são combatidas na Catalunha espanhola, por exatamente as mesmas razões separatistas. No caso dos catalães franceses, o motivo é o fato de as touradas terem sido proibidas por Paris.

"Em um momento em que a Europa está se tornando maior e mais multicultural, Barcelona fica menor e mais catalã", opina Robert Elms, um escritor britânico que já morou aqui. Ele veio para ver Jose Tomas, e observou, antes da tourada, como a cidade sombria, mas mágica, que ele conheceu no passado transformou-se em um local brilhante modificado por designers, mas que, não obstante, parece cada vez mais introspectivo.

"É a futilidade", diz ele. "Esta é a única palavra para descrever o que se passa. A futilidade descreve uma cultura insegura". Ele acrescentou que a possibilidade de proibição das touradas equivale a uma lei daqui que exige que as crianças nas escolas recebam grande parte da sua educação em catalão, e não em espanhol.

Paco March concorda ao ouvir falar dessa conexão. Nativo de Barcelona, ele é o colunista de touradas do "La Vanguardia", o segundo maior jornal da cidade. A sua filha de 15 anos é chamada de fascista pelos colegas de classe, diz ele, porque ela traz uma foto de um toureiro no caderno.

"Fico furioso pelo fato de que, em nome da democracia, uma minoria de oponentes do toreo é capaz de acabar com os direitos de uma outra minoria, os aficionados, que estão desfrutando daquilo que neste país é um espetáculo legal que expressa verdades profundas sobre a vida e a morte levadas ao extremo".

Os aficionados falam desta forma. Eles observam como as touradas tornam a morte clara e visível em uma época em que a maioria das pessoas, aquelas que podem fazer tal coisa, opta por distanciar-se dessa realidade. Algumas dessas mesmas pessoas concordam com a pecuária em escala industrial ao comerem carne, mas elas condenam as touradas. Ou elas vão a touradas em lugares como Portugal, onde os touros não são mortos pelos matadores. Os animais são abatidos depois, fora da arena, para que ninguém veja.

Para os matadores, isso é totalmente injusto, porque nega a eles a sua obrigação para com os touros, com os quais eles lutaram, e não lhes proporciona a vulnerabilidade especial que eles deveriam experimentar nesse momento da tourada.

Concordando ou não com esse argumento, seria um erro concluir que um fim das touradas aqui seja o prelúdio de uma proibição em toda a Espanha.
Embora três quartos dos espanhóis afirmem não ter interesse pelas touradas, eles detestam que estrangeiros lhes digam o que podem ou não fazer. É por isso que a Espanha tem resistido consistentemente às pressões do Parlamento Europeu e do Tribunal Europeu de Direitos Humanos para acabar com o toreo. O que poderia acabar com as touradas seria a indiferença pública, a competição por parte de entretenimentos mais baratos como o futebol e os videogames e a morte de uma geração de aficionados.

Assim, na luz fraca de uma tarde quente do início do outono, em meio aos clarões de lâmpadas e gritos de "Torero!" e "Olé", Jose Tomas apareceu pelo menos uma última vez em Barcelona, como principal representante de uma arte que enfrenta problemas. Ele executou a sua série usual de passes emocionantes com os touros. Assim como Roger Federe, ele faz com que cada movimento pareça ser impossivelmente lento e estilizado.

"Esta corrida talentosa para terminar a estação pode ter sido a última nesta arena", lamentou o "El Pais", o jornal espanhol, na manhã seguinte. "Que vergonha o fato de os políticos proibirem as touradas aqui".

March, o colunista de touradas do "La Vanguardia", expressou-se de forma mais contundente. "Nós queremos ser diferentes do resto da Espanha ao não matarmos touros", disse ele. "Mas o que nós estamos matando é a nossa cultura".

Tradução: UOL

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