UOL Notícias Internacional
 

02/10/2009

Irã aceita concessões-chave a respeito do combustível nuclear e nova instalação

The New York Times
Steven Erlanger e Mark Landler*
Em Genebra (Suíça) e Washington (EUA)
O Irã concordou nas negociações de quinta-feira com os Estados Unidos e outras grandes potências a abrir sua recém-revelada instalação de enriquecimento de urânio, perto de Qum, para inspeção internacional nas próximas duas semanas, e enviar grande parte de seu urânio enriquecido declarado para a Rússia para transformá-lo em combustível para um pequeno reator que produz isótopos médicos, disseram altos funcionários americanos e ocidentais.
  • Luke Sharrett/The New York Times

    O presidente americano, Barack Obama, fala à imprensa: "Se o Irã não der passos no futuro próximo para cumprir suas obrigações, os EUA não continuarão negociando interminavelmente"

O acordo em princípio do Irã de exportar grande parte de seu urânio enriquecido para processamento - caso aconteça - representaria um grande resultado para o Ocidente, reduzindo a capacidade do Irã de produzir rapidamente uma arma nuclear e ganhando mais tempo para as negociações darem frutos.

Mas se o Irã possuir estoques secretos de urânio enriquecido, entretanto, o resultado seria vazio, reconheceu um alto funcionário americano.

As autoridades descreveram o longo dia de negociações aqui com o Irã, o primeiro no qual os Estados Unidos participam plenamente, como um sucesso modesto em uma estrada longa e complicada. O Irã pelo menos se engajou com as grandes potências a respeito de seu programa nuclear após mais de um ano, e concordou com alguns passos palpáveis, para criar confiança, antes de outro encontro com os mesmos participantes antes do final de outubro.

Mas apesar do resultado relativamente promissor, o governo Obama não mediu esforços para transmitir um tom de cautela, dado o histórico de duplicidade do Irã, sua repressão ao seu próprio povo após as eleições presidenciais manchadas de junho e a preocupação do presidente Barack Obama em ser visto como ingênuo ou suscetível a uma política iraniana de adiamentos.

Obama, falando em Washington, chamou as negociações de "construtivas", mas alertou Teerã que estava preparado para agir rapidamente na busca de sanções mais duras caso as negociações a respeito das ambições nucleares do Irã se arrastem.
  • Atta Kenare/AFP

    Ahmadinejad concordou em abrir sua recém-revelada instalação de enriquecimento de urânio para inspeção internacional em duas semanas



"Nós não estamos interessados em conversar apenas por conversar", disse Obama aos repórteres no Salão de Recepção Diplomática da Casa Branca. "Se o Irã não der passos no futuro próximo para cumprir suas obrigações, os Estados Unidos não continuarão negociando interminavelmente."

A França e o Reino Unido falaram em dezembro como um prazo informal para o Irã negociar seriamente a suspensão do enriquecimento e cooperar plenamente com a Agência Internacional de Energia Atômica. As autoridades americanas disseram que o prazo é "aproximadamente esse", mas o Irã continua insistindo que tem o direito de enriquecer urânio para o que considera um programa puramente civil.

Obama disse que Teerã deve permitir aos inspetores internacionais a entrada na instalação perto de Qum nas próximas duas semanas, um prazo com o qual o negociador chefe nuclear do Irã, Saeed Jalili, concordou em Genebra.

O diretor geral da agência de energia atômica, Mohamed ElBaradei, viajará para Teerã neste fim de semana para discutir detalhes das inspeções, disseram funcionários. Mas os americanos também querem que o Irã coopere com os inspetores e deixe à disposição pessoal e documentos a respeito da instalação próxima de Qum.

Além do agendamento de outro encontro, a principal feito prático na quinta-feira foi a aceitação pelo Irã em princípio - algo a ser acertado pelos especialistas ainda neste mês em Viena - do envio do que as autoridades americanas chamaram de "grande parte" de seu estoque declarado de urânio levemente enriquecido para a Rússia e França, para ser transformado em combustível nuclear.

Apesar das autoridades americanas terem se recusado a especificar a quantidade, outras autoridades ocidentais disseram que poderia ser 1.200 quilos de urânio enriquecido, o que representaria até 75% do estoque declarado do Irã. Apesar da possibilidade de existir estoques escondidos de urânio enriquecido, essa transferência, se ocorrer, "proporciona mais tempo" para mais negociações, disse um alto funcionário americano.

Dada a avaliação de que o Irã produziu urânio pouco enriquecido suficiente para produzir pelo menos uma arma nuclear em algum momento no futuro, uma redução acentuada de seu estoque seria "uma medida para desenvolver a confiança e aliviar as tensões, nos dando mais espaço diplomático", disse o funcionário.

Israel, o país mais preocupado com um Irã detentor de armas nucleares, foi informado a respeito das discussões, disse outro funcionário americano.

O urânio do Irã é enriquecido em cerca de 3,5% a 5%, disseram os funcionários; o reator de Teerã para produção de isótopos médicos, que era alimentado por combustível feito na Argentina em 1993, precisa de urânio enriquecido a 19,75%, ainda muito abaixo do grau necessário para armas. E esse urânio deve então ser transformado em bastões de metal para o reator.

O Irã disse à Agência Internacional de Energia Atômica que precisa do combustível para o reator de Teerã antes de dezembro de 2010. Washington, com seus aliados, pressionou a agência a oferecer ao Irã o combustível, mas feito a partir do urânio enriquecido do próprio Irã. Jalili concordou em princípio com isso na quinta-feira.

As negociações ocorreram entre o Irã e cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França - e mais a Alemanha, liderados pelo chefe da diplomacia da União Europeia, Javier Solana.
  • Ali Shayegan/Reuters

    A televisão iraniana noticiou na segunda-feira
    (28) que o país testou mísseis de longo alcance Shahab-3. Os foguetes têm alcance de cerca
    de 2.000 quilômetros, podendo atingir, em tese, Israel e bases americanas no Oriente Médio



O tom das discussões, realizadas nos arredores de Genebra, foi consideravelmente mais positivo do que há uma semana, após a revelação pelos Estados Unidos da existência da instalação de enriquecimento de urânio perto de Qum e, juntamente com seus aliados europeus, terem ameaçado o Irã com a imposição de sanções mais duras caso se recusasse a suspender seu programa de enriquecimento de urânio, que suspeitam visar a criação de armas nucleares.

"Este foi um dia basicamente dedicado ao caminho do engajamento, na estratégia de dois caminhos", disse um alto funcionário americano, com o segundo caminho - aumento das sanções - a ser discutido apenas se esta nova rodada de negociações fracassar.

Após uma sessão pela manhã, os participantes a encerraram para um almoço onde as discussões prosseguiram de modo informal, seguido por três horas de encontros bilaterais informais. Eles incluíram uma sessão de 45 minutos entre o diplomata chefe americano aqui, o subsecretário de Estado, William J. Burns, e Jalili, a conversação de nível mais alto entre americanos e iranianos em três décadas.

Burns aumentou o número de assuntos, incluindo a disputa nuclear, a instalação próxima de Qum e questões de direitos humanos, disseram funcionários americanos, enquanto os iranianos tinham suas próprias preocupações, como a necessidade de um mundo livre de armas nucleares e acesso à energia nuclear pacífica para todos.

Jalili, em uma coletiva de imprensa, considerou as negociações como sendo "boas conversações que servirão de base para melhores conversações", e expressou satisfação pelo engajamento do mundo na agenda global do Irã, que inclui o desarmamento nuclear. Ele negou a existência de outras instalações nucleares iranianas escondidas da Agência Internacional de Energia Atômica.

Muitos diplomatas e analistas acreditam que a instalação próxima de Qum é apenas uma de uma série de instalações escondidas que o Irã construiu, além daquelas reconhecidas publicamente, para o que é considerado um programa militar. O Irã insiste que seu programa é puramente pacífico e que o país tem o direito, segundo o tratado de não-proliferação, de enriquecer urânio para fins pacíficos. Mas o país mentiu regularmente à ONU e à Agência Internacional de Energia Atômica a respeito das instalações.

Apesar das incertezas, peritos nucleares saudaram os acordos iniciais. "É significativo", disse David Albright, presidente do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado em Washington que monitora a proliferação nuclear. "O princípio é importante."

Albright disse que a quantidade de urânio pouco enriquecido que será exportada pelo Irã também é significativa. O estoque do Irã preocupava alguns controladores de armas, que temiam que Teerã poderia abandonar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e enriquecer ainda mais o material em combustível para uma bomba.

O novo acordo acabaria com essa perspectiva - pelo menos para o urânio exportado.

Ele alertou que o acordo apenas se transformaria em uma solução real se Teerã o expandisse para cobrir todo o urânio que deseja enriquecido. "O Irã fez uma concessão", ele disse. "Mas ela tem pouco significado a longo prazo a menos que o Irã continue exportando" seu urânio para enriquecimento.

*Helene Cooper, em Washington; Sharon Otterman e William J. Broad, em Nova York; e Neil MacFarquhar, na ONU, contribuíram na reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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