UOL Notícias Internacional
 

03/10/2009

Após massacre na Guiné, uma explicação de um capitão que é presidente

The New York Times
Adam Nossiter
Em Conacri (Guiné)

No campo militar onde ele toma as decisões - ele não se importa com prédios do governo - o capitão que é presidente explicou por que não compareceu ao comício político no início desta semana, aquele em que seus soldados transformaram em um banho de sangue.

Moussa Dadis Camara, 45 anos, o errático novo líder deste país, disse que não conseguiu encontrar as chaves de sua picape.

Três dias após o massacre no qual ao menos 157 pessoas morreram protestando contra o governo militar de Camara, ele continuou falando em um encontro com os repórteres até quase meia-noite, enquanto assessores se mostravam incomodados sob os retratos gigantes de seu líder. Então, ele ofereceu levar os repórteres para clubes noturnos.

"O que vocês quiserem, a qualquer hora", disse Camara, trajando um uniforme militar que ele nunca tira. "Coloquem na minha conta, como chefe de Estado." Por algum motivo, ele acrescentou: "Eu sou incorruptível".

Esta exuberante nação costeira, rica em minérios e frutas tropicais, mas escura como breu à noite devido à falta de eletricidade, conheceu ditadores brutais e chacinas pelo exército em seus 51 anos de independência. Os vizinhos ao norte e ao sul experimentaram guerras civis sangrentas; a Guiné, a ex-colônia francesa que enfureceu Charles de Gaulle com sua recusa de parceria, e que permaneceu presa por décadas a ideólogos tiranos, já foi brutalizada demais para se deixar abalar.

Mas ela nunca vivenciou uma semana como esta, ou mesmo um período de 10 meses como estes.

Camara, um oficial subalterno desconhecido, tomou o poder em dezembro passado, declarou guerra aos senhores das drogas que tomaram o país, interrogou membros corruptos do regime anterior pela televisão e os colocou na cadeia, e silenciou brevemente seus conterrâneos com um discurso improvisado diante das câmeras. Parecia, por um raro momento, uma esperança.

Mas enquanto o governo murchava no pequeno gabinete de Camara no amplo acampamento militar Alpha Yaya Diallo, onde os assessores trajam uniforme militar e empunham rifles AK-47, e onde empresários e funcionários podem esperar por dias por um encontro marcado, os cidadãos se rebelaram.

Nesta segunda-feira, milhares realizaram uma manifestação no estádio de futebol daqui da capital contra as insinuações do capitão Camara de querer permanecer no poder - uma ambição que ele negou ao tomá-lo.

Testemunhas disseram que seus homens atiraram contra muitos à queima-roupa. Eles bateram e esfaquearam muitos mais, agredindo políticos idosos e os enviando aos hospitais.

Camara, oferecendo apenas desculpas contidas pelas mortes, buscou transferir a culpa aos manifestantes. "Não foi uma marcha pacífica; foi premeditado; foi intencional", disse aos repórteres na noite desta quinta-feira, em um monólogo de uma hora que incluiu citações de Maquiavel, o caráter de um exército "republicano", a melhor forma de montar um golpe de Estado e um telefonema que disse ter recebido naquele dia do líder líbio, o coronel Muammar Gaddafi.

Ele disse que a manifestação "tinha o caráter de querer derrubar um chefe de Estado".

Mais chocante para os cidadãos cansados deste país predominantemente muçulmano, os homens de Camara estupraram muitas mulheres a plena luz do dia, atacando sexualmente muitas delas com os rifles. Por cinco dias nesta semana, Conacri tem fervilhado com uma raiva triste, silenciosa, já que muitas pessoas continuavam desaparecidas após a manifestação desta segunda-feira, soldados altamente armados realizavam patrulhas, corriam rumores sobre enterros secretos à meia-noite realizados pelas forças de segurança do governo e grande parte dos serviços de mensagens de texto e de telefonia celular permanecia desativada. Lojas continuavam fechadas e as ruas que normalmente são congestionadas estavam vazias.

Nesta sexta-feira, a raiva começou a ferver. Tentando contê-la, o governo apresentou os corpos daqueles que disse terem sido vítimas do massacre. Sob forte calor, uma grande multidão percorria um campo gigante ao lado da principal mesquita daqui, a Faycal, olhando para cadáveres rígidos, envoltos em mortalhas, que estavam dispostos sob tendas em pranchas de madeira, à procura de irmãos, irmãs, pais e mães desaparecidos.

Mas havia quanto muito algumas poucas dezenas de corpos, enquanto mais de mil pessoas compareceram. A maioria das pessoas na multidão não encontrou entes queridos.

"Eu perdi meu irmão", gritavam muitas pessoas, segurando fotografias. "Eu perdi minha irmã", choravam outras pessoas, implorando aos visitantes estrangeiros que as ajudassem.

"Os corpos que estão aqui não representam todos os que morreram", disse Sekou Keita, que disse que seu irmão mais novo estava desaparecido. Os corpos em exibição não apresentavam sinais óbvios de ferimentos a bala; as mortalhas não tinham sangue. Algumas pessoas na multidão disseram que o governo simplesmente trouxe corpos dos hospitais locais - vítimas de doenças, não de tiros.

Foram proferidos gritos contra Camara, apesar de ser impossível dizer se eram de angústia ou os primeiros gritos de uma revolta. "Todas aquelas baratas no governo Dadis podem sumir", bradou um homem, Alpha Oumar Diallo, provocando gritos de aprovação.

A multidão furiosa rasgou as roupas de um homem que disse ser um ministro do governo. As forças de segurança posteriormente dispersaram a multidão com gás lacrimogêneo.

Coincidentemente, aquele era o dia da independência da Guiné. Mas poucos estavam celebrando, exceto Camara.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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