UOL Notícias Internacional
 

03/10/2009

Relatório da ONU diz que Irã tem informações para construir bomba nuclear

The New York Times
William J. Broad e David E. Sanger
Altos funcionários da agência nuclear da ONU concluíram, numa análise confidencial, que o Irã adquiriu "informações suficientes para conseguir projetar e produzir uma [bomba atômica] funcional".

Irã deverá informar as datas para a inspeção da polêmica usina nuclear

O relatório feito por especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) enfatiza, em sua introdução, que suas conclusões - tiradas a partir de informações das agências de inteligência e de suas próprias investigações - ainda são provisórias e estão sujeitas a uma futura comprovação.

Mas as conclusões do relatório, descritas por altos funcionários europeus, vão bem além das posições públicas assumidas por vários governos, incluindo os Estados Unidos.

Há dois anos, as agências de inteligência norte-americanas publicaram um relatório detalhado concluindo que Teerã havia interrompido seus esforços para produzir uma arma nuclear em 2003. Mas nos últimos meses, a Inglaterra se juntou à França, Alemanha e Israel para contestar essa conclusão, dizendo que o trabalho foi retomado.

Um alto funcionário norte-americano disse na semana passada que os Estados Unidos estão agora reavaliando suas conclusões de 2007.

O relatório da agência atômica também apresenta provas de que, além de reunir mais informações sobre como produzir a bomba com especialistas nucleares inescrupulosos de todo o mundo, o Irã fez extensas pesquisas e testes sobre como fabricar os componentes para uma arma nuclear. O relatório não diz até que ponto o trabalho progrediu.

O relatório, intitulado "Possíveis Dimensões Militares do Programa Nuclear do Irã", foi produzido com a colaboração de vários especialistas em armas nucleares, fora da agência. Ele revela um programa complexo, comandado pelo ministro da Defesa do Irã, "com objetivo de desenvolver uma carga nuclear para ser lançada pelo sistema de míssil Shahab 3", o míssil de médio alcance do Irã, que pode atacar o Oriente Médio e partes da Europa. De acordo com o relatório, o programa aparentemente começou no início de 2002.

Se o Irã está projetando uma ogiva nuclear, isso representaria apenas uma parte do complexo processo de fabricação de armas nucleares. Os especialistas dizem que o Irã já dominou a parte mais difícil, enriquecendo o urânio que pode ser usado como combustível nuclear.

Embora a análise represente o julgamento de altos funcionários da agência nuclear, uma disputa emergiu nos últimos meses quanto à necessidade de torná-la pública ou não. A disputa colocou o diretor que está saindo da agência, Mohamed ElBaradei, contra sua própria equipe e governos estrangeiros ansiosos para intensificar a pressão sobre o Irã.

Irã será desafio de nova direção da agência nuclear da ONU

ElBaradei tem relutado em adotar uma estratégia de confronto com o Irã, uma abordagem que ele considera contraproducente. Ele respondeu aos pedidos para a liberação do relatório levantando dúvidas sobre a credibilidade e abrangência do mesmo.

No mês passado, a agência divulgou uma declaração pouco comum alertando que "não tinha provas concretas" de que o Irã tenha de fato tido a intenção de fabricar armas nucleares, muito menos de aperfeiçoar uma ogiva. No sábado, na Índia, ElBaradei teria dito que "uma questão importante" sobre a autenticidade das provas impediu que sua agência "fizesse qualquer julgamento" sobre o fato de o Irã ter intenção de projetar uma ogiva nuclear.

Mesmo assim, a crença emergente na comunidade de inteligência de que o Irã resolveu os maiores problemas em relação a seu projeto de armas nucleares representa um novo desafio para o presidente Barack Obama e seus aliados na disputa com o Irã.

Autoridades norte-americanas dizem que, nas negociações diretas com o Irã que começaram na semana passada, será essencial fazer com que o país abra todos os lugares suspeitos pra os inspetores internacionais. É uma longa lista, encabeçada pelo centro nuclear subterrâneo de enriquecimento de urânio em construção perto de Qum, que foi revelado há dez dias.

O Irã reconheceu que a instalação subterrânea foi planejada com o objetivo de ser um centro nuclear de enriquecimento de urânio, mas disse que o combustível será usado somente para produção de energia nuclear e isótopos médicos. Segundo autoridades iranianas, o local é mantido sob forte proteção para prevenir potenciais ataques.

O país disse na semana passada que permitiria que os investigadores visitassem o local este mês. Nos últimos três anos, entre um número cada vez maior de provas da possível dimensão militar do programa nuclear do país, o Irã negou que a agência tivesse amplo acesso às suas instalações, documentos e pessoal.

Nas últimas semanas, tem havido vazamentos sobre o relatório internacional, talvez com a intenção de pressionar ElBaradei a divulgá-lo.

A existência do relatório tem sido comentada há meses, e a agência Associated Press, afirmando que havia visto uma cópia, relatou fragmentos dele em setembro. Na sexta-feira, mais trechos detalhados apareceram no site do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, comandado pelo especialista nuclear David Albright.

Em entrevistas recentes, um alto funcionário europeu que conhece o conteúdo completo do relatório o descreveu para o "The New York Times". Ele confirmou que os trechos de Albright eram autênticos. Os trechos foram retirados de uma versão de 67 páginas do relatório escrita no começo do ano e desde então revisada e complementada, disse o funcionário; mas suas principais conclusões continuam as mesmas.

"Este é um resumo atual de onde estamos", disse o oficial. "Mas a linguagem é um pouco vaga", acrescentou, e "não estava pronto para publicação como um documento oficial."

De forma mais dramática, o relatório diz que a agência "estima que o Irã tenha informações suficientes para ser capaz de projetar e produzir um dispositivo de implosão nuclear funcional" baseado no urânio altamente enriquecido.

Armas baseadas no princípio de implosão são consideradas avançadas em comparação ao tipo mais simples de bomba que os Estados Unidos lançaram em Hiroshima. Elas usam uma onda de explosão a partir de uma esfera de explosivos convencionais para comprimir uma bola de combustível de bomba numa massa supercrítica, dando início a uma reação atômica em cadeia a progredindo para a explosão de fogo. O design de implosão, compacto por natureza, é considerado necessário para fazer ogivas nucleares pequenas e poderosas o suficiente para encaixar em cima de um míssil.

Os trechos da análise também sugerem que os iranianos fizeram inúmeras pesquisas e testes para aperfeiçoar armas nucleares, como fazer detonadores de alta-voltagem, usar explosivos-teste e projetar ogivas.

As provas por trás dessas conclusões não são novas: algumas delas foram reveladas numa apresentação confidencial para muitos países no começo de 2008 pelo inspetor-chefe da agência, Ollie Heinonen.

O Irã sustenta que seus cientistas nunca conduziram pesquisas sobre como fazer uma ogiva. Funcionários iranianos dizem que quaisquer documentos em contrário são fraudulentos.

Mas em agosto, um relatório público enviado para o conselho da AIEA por sua própria equipe concluiu que as provas da suposta atividade militar do Irã eram provavelmente genuínas.

O relatório dizia que "a informação contida na documentação parece ter sido retirada de múltiplas fontes durante diferentes épocas, parece ser em geral consistente, e é suficientemente compreensível e detalhada que precisa ser comentada pelo Irã com o objetivo de sanar as dúvidas" sobre a natureza de seu programa nuclear.

A análise provisória da agência também diz que o Irã "muito provavelmente" obteve a informação necessária para projetar e construir uma bomba de implosão "de fontes externas" e depois adaptou as informações para suas próprias necessidades.

Ele não diz nada específico sobre as "fontes externas", mas muitas agências de inteligência assumem que o Irã obteve um projeto de bomba de A.Q. Khan, um inescrupuloso cientista paquistanês que atua no mercado negro e vendeu ao Irã máquinas para enriquecer urânio. Essa informação pode ter sido complementada por um cientista de armas nucleares russo que visitava o Irã com frequência, dizem os investigadores.

O relatório interno da AIEA concluiu que a equipe acreditava "que os experimentos não-nucleares conduzidos no Irã poderiam confirmar se o sistema de implosão funcionaria corretamente".

Tradução: Eloise De Vylder

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