UOL Notícias Internacional
 

05/10/2009

Artesãos rurais do Vietnã sofrem com a crise global

The New York Times
Seth Mydans
Em Thuong Tin (Vietnã)
Ao olhar para seus campos verdes de arroz, Nguyen Van Truong pode se orgulhar de ter acertado sua aposta quando entrou no mercado global há mais de uma década e começou a ganhar dinheiro.

Quando o Vietnã iniciou seu engajamento incipiente na economia mundial em meados dos anos 90, Truong foi uma das primeiras pessoas a ver o lucro de seu artesanato local, o bordado, e juntou-se a outros moradores locais para vender seus produtos dentro e fora do país.

À medida que centenas, e depois milhares, de vilarejos agrários começaram a se organizar para vender seu artesanato tradicional - trabalhos em laca, tecidos, esteiras, macarrão, ventiladores, incenso - passaram a simbolizar o entusiasmo do Vietnã em abraçar o capitalismo depois de um difícil período pós-guerra de restrições comunistas à iniciativa privada livre.

Alguns vilarejos, como Thuong Tin, nos arredores rurais de Hanói, agora parecem pequenas cidades em meio a plantações de arroz com casas de três e às vezes quatro andares enfileiradas ao longo de pequenas estradas de concreto.

  • Chitose Suzuki/AP - 27.mar.2008

    Produtor rural em meio a uma plantação de arroz no Distrito de Dong Anh, em Hanói, Vietnã



As exportações de artesanato, muitas delas feitas por empresas dos vilarejos, somaram US$ 1 bilhão no ano passado, de acordo com os números oficiais.

Agora as coisas mudaram, tanto em Wall Street quanto no pequeno vilarejo de Thuong Tin. À medida que a economia mundial se contrai e os mercados desaparecem, vilarejos que sobreviviam do artesanato como este se tornaram uma lição sobre as dificuldades e os riscos de entrar no mercado global.

A maioria dos 3 mil vilarejos que sobrevivem de artesanato espalhados por todo o país estão com problemas, disse Luu Duy Dan, vice-presidente da Vietnam Association of Crafts Villages. Apenas 30% deles estão operando com total capacidade agora, disse ele, e, se nada mudar até o fim do ano, metade deles irá entrar em colapso total, com um prejuízo de cerca de 5 milhões de empregos.

"Desde o final de 2008, os vilarejos que vivem do artesanato enfrentaram tantas dificuldades causadas pelo impacto do declínio econômico global, como a falta de capital e matéria-prima e o encolhimento do mercado consumidor", disse Dan.

"Não é tão simples se juntar à economia mundial", disse ele. "É complicado. Não é fácil. Nós deveríamos ter mais coordenação e melhores normas."

Muitos vilarejos já estão falidos, de acordo com o Ministério da Agricultura, incluindo alguns que fabricavam cerâmica, porcelana, sapatos e papel de alta qualidade.

Diferente de Truong, 76, muitos desses novos capitalistas abandonaram suas fazendas e agora não têm nenhuma segurança econômica. Em muitos casos, eles não tiveram escolha, foram pressionados a saírem de suas terras como muitas populações rurais por causa do avanço da indústria.

Aqui em Thuong Tin, os artesãos de bordado vendem seu trabalho para Do Thanh Huong, uma exportadora de Hanói cuja família é do vilarejo e que organizou-os em cooperativas.

Huong, que administra a tecelagem Tan My e a boutique Tan My Design em Hanói, disse que ela continua fazendo pedidos para ajudar os artesãos e sobreviver à crise.

Mas ela disse que suas exportações para a Europa caíram 60% e que seus clientes nos Estados Unidos haviam parado totalmente de comprar. E ela ainda não pode receber os produtos do vilarejo uma vez que seus estoques estão lotados com toalhas de mesa, guardanapos e fronhas com desenhos florais delicados, peixes multicoloridos e padrões geométricos elaborados.

"Quando as pessoas não compram em Nova York, sentimos os efeitos no vilarejo aqui", disse Huong.

"Mesmo o maior e mais bem sucedido dos vilarejos artesãos está sofrendo", disse Dan, como o vilarejo de Bat Trang, que é famoso por suas tigelas e vasos, simples e lustrosos. Esse vilarejo, próximo a Hanói, que já empregou 8.200 trabalhadores em 800 pequenos negócios, perdeu milhares de empregos, disse ela.

Muitos outros estão com dificuldades por causa de uma falta de experiência em manufatura ou marketing, da redução de capital e tecnologia e das diferentes exigências de importação das nações consumidoras, disse Dan.

Lien Mihn, funcionário sênior do Ministério da Agricultura, disse em junho que por causa do desenvolvimento descuidado e sem planejamento, 80% dos vilarejos artesãos não tinham dinheiro para comprar o equipamento que precisavam.

De certa forma, essas dificuldades refletem os desafios mais amplos que o Vietnã enfrenta à medida que se adapta ao mercado internacional. Sua taxa de crescimento, que estava em média de 8% por ano, caiu este ano para cerca de 4,5% segundo algumas estimativas, a mais baixa em quase duas décadas.

O Vietnã sofreu bem menos durante a crise da economia asiática de 1997, quando ainda era em grande parte isolado da economia mundial.

Depois de anos de debate interno, o Vietnã se juntou à Organização Mundial do Comércio em janeiro de 2007, um passo que exigiu revisões de sua infraestrutura legal, sistema bancário e regulações que ainda estão causando problemas quando são aplicadas.

O Vietnã ainda está formulando sua identidade pós-guerra, e há uma luta de forças constante entre suas raízes culturais e a excitação em relação a um futuro moderno.

Numa visita a Thuong Tin há 13 anos, quando o capitalismo ainda era jovem no Vietnã, Huong disse: "Eu explico para eles e explico para eles, deixem as plantações e trabalhem só no bordado. É lá que vocês ficarão ricos. Mas eles dizem: 'Somos fazendeiros. As plantações vêm primeiro'."

Embora seduzidos pela riqueza potencial, a maioria dos fazendeiros aqui continuaram a trabalhar em suas plantações, mesmo durante os anos de bonança, e o ritmo das agulhas às vezes dava lugar às demandas sazonais do plantio e da colheita.

"A lavoura é a sobrevivência, é como eu alimento minha família", disse Truong. "Se você trabalha na lavoura, tem comida suficiente para se alimentar."

O bordado deu a ele uma mobilidade na escala social que se compara à emergência do país que deixou a pobreza da guerra e dos anos do pós-guerra.

Quando ele sobe no pátio sobre o telhado de sua nova casa de quatro andares, ele olha para uma selva urbana em miniatura que inclui três casas grandes construídas por seus filhos, que também são artesãos do bordado.

Logo além delas, os campos de arroz se estendem até o horizonte, viçosos e imóveis enquanto os grãos crescem. Logo estarão prontos, e as pessoas de Thuong Tin irão para os campos para a colheita.

Tradução: Eloise De Vylder

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