UOL Notícias Internacional
 

05/10/2009

Tráfico de drogas de Mianmar aumenta ao longo da fronteira tailandesa

The New York Times
Thomas Fuller
Em Doi Chang Moob (Tailândia)
Por mais de meio século a heroína tem sido transportada através das montanhas cobertas de florestas daqui, na primeira etapa de uma jornada que culmina com a entrega das drogas em cidades tão longínquas quanto Sydney ou Vancouver, no Canadá. Mas as autoridades antinarcóticos estão esfregando seus olhos diante do espetáculo que testemunham agora: uma inundação de heroína e metanfetaminas vindas de Mianmar provocada pelos traficantes que, em pânico, tentam se livrar de seus estoques.

"É uma queima de estoque", disse Pornthep Eamprapai, diretor da divisão norte do Escritório de Controle de Narcóticos tailandês, que tem quase três décadas de experiência rastreando drogas ilícitas vindas de Mianmar. "Alguns negociantes na fronteira estão comprando a crédito. Eles não precisam nem mesmo pagar em dinheiro. Esta é a primeira vez que eu vejo isso."

A apreensão de heroína pela polícia no norte da Tailândia aumentou mais de 2.100% em relação ao ano passado: nos período de dez meses que terminou em agosto, as autoridades apreenderam 1.268 quilos de heroína, comparados a 57 quilos no ano anterior, de acordo com o Escritório de Controle de Narcóticos.
  • Tariq Mahomood/AFP

    Homem injeta heroína na veia: apreensões da droga crescem 2.100% na Tailândia



A principal razão para o aumento no tráfico, dizem os oficiais, é a deterioração da situação política nas regiões mais ao norte de Mianmar. Antecipando-se à introdução de uma nova Constituição no ano que vem, o governo militar de Mianmar está reprimindo os grupos étnicos localizados ao longo das fronteiras com a Tailândia, Laos e China. Os grupos étnicos, muitos dos quais têm uma longa história de produção de uma variedade de drogas ilícitas, estão se preparando para lutar contra a junta de Mianmar e correndo para transformar seus estoques de heroína e metanfetaminas em dinheiro para comprar armas.

"Vários traficantes estão liquidando seus estoques", disse Pamela Brown, uma agente do U.S. Drug Enforcement Administration sediado em Chiang Mai, Tailândia. "Eles estão tentando tirar grandes carregamentos de heroína do país, e alguns conseguiram."

Os grupos étnicos são desconhecidos para a maioria dos estrangeiros - entre eles estão os Wa, Kachin e Shan -, mas o destino desses grupos é crucial para o futuro do tráfico de heroína no mundo, dizem os especialistas.

Nas montanhas rochosas do norte de Mianmar, fabricar drogas às vezes é a única fonte de renda disponível.

A situação no norte de Mianmar entre os grupos étnicos e o governo central é uma anomalia na Ásia moderna, um retrocesso a tempos muito mais instáveis. Os Wa e os Kachin tem exércitos grandes e bem equipados e governos semelhantes aos pequenos reinos que existiam na Ásia antes que as potências coloniais europeias introduzissem o conceito de Estado-nação.

Agora, em uma tentativa desesperada de proteger seus domínios, os grupos étnicos estão ativando uma grande rede para conseguir mais armas, de acordo com o coronel Peeranate Katetem, comandante da unidade especial antinarcóticos tailandesa na cidade de Chiang Rai, no norte da Tailândia. Há três meses, ele recebeu um telefonema de um representante Wa que disse que estava querendo gastar cerca de US$ 25 milhões para comprar rifles de assalto M-16 e "qualquer coisa capaz de explodir". O coronel Peeranate disse que o grupo parecia ansioso para trocar a heroína pelas armas. Ele disse que se recusou a ajudar.

A junta de Mianmar e seus representantes confrontaram os rebeldes étnicos Karen em junho, e atacaram e derrotaram o grupo étnico chinês Kokang em agosto. Isso deixou a liderança dos outros grupos étnicos se perguntando quem serão os próximos.

O Triângulo Dourado, como a região é conhecida, já foi uma das maiores fontes de heroína do mundo. Nos últimos anos, ele produziu cerca de 5% do fornecimento mundial da droga, superado pelo Afeganistão, que hoje produz a maior parte.

Os especialistas alertam que isso pode mudar caso a guerra civil dormente de Mianmar estoure.

"O comércio de drogas floresceria", disse Ko-Lin Chin, criminologista da Universidade Rutgers e autor de um livro sobre o Triângulo Dourado publicado neste ano. Chin acredita que o plantio de papoulas para produzir ópio, que foi suprimido em muitas áreas, poderia ser retomado em grande escala. "Eles inundariam o mundo com ópio."

A heroína, que é refinada a partir do ópio, normalmente viaja através da Tailândia, Laos e Vietnã e termina na Austrália, Japão, Malásia e Taiwan, dizem os agentes antinarcóticos. A heroína também é exportada diretamente para a China, onde o uso de drogas aumentou dramaticamente nos anos 90, criando um mercado imenso para os traficantes. A heroína vendida nos Estados Unidos vem na maior parte da Colômbia, de acordo com autoridades norte-americanas.

É particularmente difícil impedir os traficantes ao longo das fronteiras de Mianmar, que são montanhosas e repletas de trilhas na floresta. Os militares tailandeses têm cerca de 1.500 tropas dedicadas ao combate aos narcóticos ao longo do trecho norte da fronteira com Mianmar, mas diz que precisa de melhores equipamentos, incluindo óculos para visão noturna.

O tráfico se pulverizou nos últimos anos: antes os traficantes cruzavam a fronteira em grupos fortemente armados de doze homens. "Agora é como uma pequena procissão de formigas", disse o coronel Peeranate. "Eles se dispersam para diferentes pontos."

No posto militar de Doi Chang Moob, o segundo tenente Rungrot Lobbamrung disse que vai dormir sabendo que os morros abaixo de seu quartel estarão repletos de traficantes quase todas as noites.

Ele e sua equipe de 23 soldados armam emboscadas para traficantes, analisam pegadas ao longo de trilhas remotas e cultivam fontes de inteligência entre as tribos das montanhas que povoam a área. Eles recebem bônus pelas drogas que apreendem. Mas o tenente Rungrot acredita que conseguem impedir apenas uma pequena fração do tráfico de drogas.

Até agora, neste ano, ele pegou 14 traficantes, em comparação a 5 no ano passado.

A sedução do dinheiro é grande para os traficantes: os pequenos traficantes, com frequência adolescentes, podem comprar um pacote de heroína do tamanho de uma unha por cerca de US$ 1,50 em Mianmar, caminhar algumas horas e vendê-lo por US$ 30 no lado tailandês, disse o tenente Rungrot.

Funcionários antinarcóticos dizem que os grupos étnicos parecem estar estocando grandes quantidades de drogas próximo à fronteira tailandesa e enviando uma série de pequenos pacotes para o outro lado.

O poder militar de Mianmar, que no passado fez vista grossa várias vezes para o tráfico porque ele beneficiava seus aliados ou era rentável para alguns oficiais, agora tem mais incentivo para impedir o comércio de drogas: a perspectiva de enfrentar grupos étnicos equipados com armas financiadas pelas drogas no campo de batalha.

Funcionários antinarcóticos da Tailândia disseram que as autoridades de Mianmar relataram enormes apreensões de drogas nos últimos meses, incluindo uma em agosto de 760 quilos. Vários milhões de pílulas de metanfetaminas também foram apreendidas na cidade fronteiriça de Tachilek, em Mianmar.

"Não houve nada nessa escala no ano passado", disse Leik Boonwaat, representante do Escritório para Drogas e Crime da ONU (Organização das Nações Unidas) no Laos. "Este ano tem sido bem atípico."

Além disso, no que seria uma grande mudança no comércio global de heroína, os funcionários antinarcóticos da Tailândia dizem que descobriram uma nova rota do tráfico de heroína que pode ajudar a explicar o aumento de heroína no Triângulo Dourado.

A heroína de baixa qualidade produzida no Afeganistão está sendo enviada através do Paquistão e da Índia para a região controlada pelos Wa no norte de Mianmar, onde depois é refinada e re-exportada.

Essa possível conexão entre as duas maiores regiões produtoras de heroína do mundo - o Afeganistão e Mianmar - combina a vastidão dos campos de papoula afegãos com as redes de distribuição e o conhecimento tecnológico dos Wa, cujos químicos são renomados por produzirem heroína de alta qualidade.

Nos últimos anos, os Wa têm se preocupado com sua imagem internacional, especialmente depois da acusação, há quatro anos, de oito líderes Wa por parte de um tribunal norte-americano, que descreveu o exército Wa como "uma organização criminosa de traficantes de narcóticos". Sob pressão da China, os Wa proibiram os fazendeiros de cultivarem papoulas em seu território. (Elas são agora cultivadas principalmente em territórios adjacentes controlados por outros grupos.) Mas a preocupação com as relações públicas pode se dissipar rapidamente em uma crise, disse Chin. "Quando há guerra, ninguém se preocupa com uma boa reputação internacional", disse ele. "A sobrevivência é mais importante."

Tradução: Eloise De Vylder

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