UOL Notícias Internacional
 

06/10/2009

Mulheres tornam-se alvos da violência em Guiné

The New York Times
Adam Nossiter
Em Conacri (Guiné)
Fotos tiradas com celulares, feias e difíceis de refutar, estão circulando aqui e alimentando a revolta: elas mostram que mulheres foram alvos dos soldados guineanos que suprimiram uma demonstração política em um estádio nesta capital na semana passada, com vítimas e testemunhas descrevendo estupros, espancamentos e atos de humilhação intencional.
  • AFP

    Mulher se desespera em frente à grande mesquita de Conacri, onde o governo de Guiné expôs dezenas de cadáveres de oposicionistas mortos pelas forças de segurança do país em 2 de outubro, numa nova demonstração de força do chefe da Junta Militar, capitão Moussa Dadis Camara



"Não consigo dormir à noite, após o que vi. Estou com medo. Vi muitas mulheres serem estupradas, muitas mortas", disse uma mulher de meia idade de uma família tradicional, que tinha sido molestada sexualmente. Uma fotografia mostra uma mulher nua deitada na lama, com as pernas para cima, um homem de uniforme militar em frente a ela. Em outra foto, um soltado de boina vermelha está tirando a roupa de uma mulher que parece perturbada meio deitada, meio sentada na terra. Em uma terceira, uma mulher quase nua está deitada no chão puxando as calças para cima.

As fotografias de celulares estão circulando anonimamente, mas várias testemunhas corroboraram os eventos. Os ataques fizeram parte de uma repressão violenta no dia 28 de setembro no qual soldados mataram dezenas de manifestantes não armados no principal estádio da cidade, onde cerca de 50 mil pessoas estavam reunidas. Organizações de direitos humanos dizem que ao menos 157 morreram; o governo estipula um total de 56.

Contudo, mais do que o tiroteio, os ataques às mulheres - horríveis em qualquer lugar, mas encarados com particular revolta em países muçulmanos como este - parecem ter traumatizado os cidadãos e endurecido a determinação da oposição a forçar a saída do líder da junta militar, capitão Moussa Dadis Camara.

Diplomatas dizem que a violência tinha minado irreversivelmente a posição de Camara junto aos outros países. Se a oposição interna continuar crescendo, Camara pode ser forçado a deixar o poder ou a adotar um regime ainda mais autoritário. Bernard Kouchner, ministro de relações exteriores da França, antigo poder colonial da Guiné, disse que seu país não pode mais trabalhar com Camara e pediu uma "intervenção internacional".

O número exato de mulheres que foram violentadas não é conhecido. Por causa da vergonha associada com a violência sexual neste país da África Ocidental, as vítimas relutam em falar, e os médicos se recusam. As vítimas que falaram dos ataques não quiseram dar seus nomes com medo de retaliação.

Contudo, as testemunhas estão firmes. "Eu afirmo, de forma categórica, que mulheres foram violentadas, não apenas uma", disse Mamadou Mouctar Diallo, 34, líder da oposição que disse que apanhou muito. "Vi vários estupros".

Três mulheres atacadas descreveram seu suplício em uma entrevista nesta semana. "Não sabíamos que os soldados iam nos maltratar", disse uma senhora de meia-idade que não tem conseguido dormir. Ela contou sua história lentamente em uma sala escura, sentada em uma cama com duas outras mulheres, em uma casa em um distrito no subúrbio da capital.

"Ouvimos tiros, tentei fugir", disse ela. Subitamente, "era um caos".

Ela correu, mas um soldado a impediu de prosseguir. "Ele me bateu. E ele rasgou minhas roupas. Ele rasgou minhas roupas com as mãos." Depois, disse ela, "ele colocou a mão dentro de mim". O soldado bateu com o rifle na cabeça dela, que precisou levar pontos, disse ela. Ela também tem inchaços nas costas dos golpes que levou. "Estamos traumatizadas", disse lentamente, olhando para o chão.

Diallo disse que viu pelo menos 10 mulheres serem estupradas no estádio. Descrevendo um desses ataques, ele disse: "Vi rasgarem a roupa de uma mulher. Eles rasgaram e arrancaram suas roupas e a cercaram. Eles a fizeram se deitar, levantaram seus pés e um dos soldados avançou. Eles se revezaram."

Uma das mulheres entrevistadas na casa no subúrbio descreveu como um soldado rasgou seu vestido com uma faca. Ela tinha um corte grande nas costas, onde ele a espetou com a faca, e profundas feridas nos ombros.

A terceira mulher disse que tinha sido açoitada por um soldado. "Quando saí, vi um soldado deitado em cima de uma mulher", disse ela. "Muitas mulheres foram violentadas."
  • AFP

    Perguntado a respeito dos estupros, o chefe da Junta Militar de Guiné, capitão Moussa Dadis Camara, em seu escritório no amplo quartel militar, respondeu semana passada: "Eu não estava lá. Essas coisas as pessoas me contaram". Ele
    negou repetidamente a responsabilidade pelas mortes no estádio, culpando figuras da oposição



Pelo menos uma organização de ajuda internacional na capital guineana confirmou os atos de violência. Jerome Basset da missão de Conacri dos Médicos sem Fronteiras disse que sua equipe tinha tratado de três vítimas de estupro e três outras vítimas de violência sexual horas após a manifestação.

Eventos de repressão brutal de manifestações anti-governo já ocorreram na Guiné antes, notavelmente em 2007, quando forças de segurança mataram centenas de pessoas que demonstravam contra o regime repressor de Lansana Conte, que precedeu Camara.

O estupro é um instrumento de repressão militar bastante comum na África, mas a violência em grande escala contra mulheres não tinha sido uma tática do governo guineano antes. "Desta vez, chegou a outro nível", disse Sidya Toure, ex-primeiro-ministro que também foi agredido no estádio e testemunhou brutalidades. "Mulheres como alvos nos campos de batalha. Nunca podíamos ter imaginado isso."

"Onde as pessoas poderiam ter tido a ideia de começar a estuprar mulheres em plena luz do dia?", perguntou Toure em uma entrevista em sua casa. "É contrário à nossa cultura. Molestar mulheres usando rifles..."

Perguntado a respeito dos estupros, Camara, em seu escritório no amplo quartel militar, respondeu semana passada: "Eu não estava lá. Essas coisas as pessoas me contaram". Ele negou repetidamente a responsabilidade pelas mortes no estádio, culpando figuras da oposição.

Camara reiterou essas negativas em uma entrevista transmitida no domingo pela rádio France Internationale, enquanto Kouchner, ministro de relações exteriores da França, dizia em entrevista de rádio que "massacres grupais não são questões internas."

Membros da oposição disseram que estavam discutindo outras formas de combater o regime e que não seriam detidos pela repressão sangrenta da semana passada. Um diplomata, que se recusou a se identificar porque não estava autorizado a falar no assunto, disse no sábado que a junta já está desacreditada, "certamente junto à comunidade internacional e se espera que também junto à comunidade local."

Enquanto isso, a violência sexual e os desaparecidos após a violência da semana passada continuam a preocupar muitos aqui.

"Eles atacaram especialmente as mulheres. Queriam humilhá-las", disse outro ex-primeiro-ministro, François, Lonseny Fall, que também estava no estádio. "Queremos uma força de prevenção para nos proteger da ferocidade do exército guineano", disse Fall.

Tradução: Deborah Weinberg

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