UOL Notícias Internacional
 

06/10/2009

Na África rural, um mercado fértil para celulares

The New York Times
Sarah Arnquist
Em Bushenyi, Uganda
Laban Rutagumirwa carrega seu celular com uma bateria de carro, porque sua casa de chão de terra batida, nas profundezas das colinas remotas, cobertas de bananeiras, do oeste de Uganda não possui eletricidade.

Quando a bateria fica descarregada, Rutagumirwa, um produtor rural de 50 anos, caminha mais de seis quilômetros para carregá-la, para que possa manter sua posição como centro de comunicação e monitoramento da doença da banana para seus vizinhos rurais.
  • Sarah Arnquist/The New York Times

    David Bangirana, líder local treinado pela Grameen, diz ver o potencial de usar as redes de líderes comunitários, armados de celulares como ele, para educar e coletar dados em aldeias remotas



Em uma área onde a eletricidade é escassa e as conexões de Internet virtualmente inexistem, o celular revolucionou a capacidade dos cientistas de monitorar este mal das plantações e comunicar os mais recentes avanços científicos para os produtores rurais remotos.

Com seu telefone, Rutagumirwa coleta fotos digitais, estabelece as coordenadas pelo sistema de posicionamento global e guarda pesquisas completas com 50 questões de produtores rurais próximos com plantas doentes. Ele envia seus dados, sem fio e instantaneamente, para os cientistas na capital de Uganda, Campala.

"Nós nunca tivemos a ideia de obter informação pelo telefone", disse Rutagumirwa. "Era um mistério. Agora nossa mente está bem aberta."

A África tem o mercado de telefonia celular que mais cresce no mundo. Empreendedores e organizações de desenvolvimento estão aproveitando avidamente a oportunidade apresentada por esse crescimento. Eles estão criando aplicações para celulares para empreendimentos visando lucro ou sem fins lucrativos por todo o continente. Milhões de africanos, por exemplo, agora usam seus celulares para transferir dinheiro, ligar as cisternas, saber resultados de futebol e comprar e vender bens.

A penetração da telefonia celular é muito maior do que a da Internet na África, especialmente nas áreas rurais, a transformando no instrumento de comunicação mais acessível, disse Jon Gossier, fundador e presidente da Appfrica, uma empresa de tecnologia com sede em Uganda.

A recente conclusão dos primeiros de vários cabos submarinos planejados ligando o Leste da África à Internet de banda larga aumentou as esperanças de que o acesso de alta velocidade à Internet aumentará aqui. Mas Gossier disse que espera que os aplicações que utilizam mensagem por celular serão necessárias por muito mais anos. O desenvolvimento de conteúdo útil e local de Internet ainda demorará após a queda dos preços da Internet, o que provavelmente levará muito mais que um ano, ele disse.

"Eu não acho que o desenvolvimento que está ocorrendo no momento para os celulares vai parar", disse Gossier, "mas sim que veremos toda uma nova geração de aplicações surgindo na África, incluindo aplicações envolvendo celulares que utilizam a Internet".

Monitorar a doença da banana e educar os agricultores sobre como proteger suas plantações está entre as várias aplicações do celular que a Fundação Grameen, uma agência não-governamental que busca reduzir a pobreza por meio de microfinanciamento e nova tecnologia, está testando em Uganda.

A Grameen fez uma parceria com a maior operadora de telefonia celular de Uganda, a MTN, para criar a AppLab Uganda, uma iniciativa para explorar formas de usar as tecnologias móveis para melhorar as vidas das pessoas, disse o diretor do programa, Eric Cantor.
  • Sarah Arnquist/The New York Times

    Em uma área onde a eletricidade é escassa
    e as conexões de Internet virtualmente inexistem,
    o celular revolucionou a capacidade dos cientistas de monitorar a doença da banana nas plantações
    e comunicar os mais recentes avanços
    científicos para os produtores rurais remotos



"As pessoas já carregam os telefones em seu bolso, já precisam de informação e algumas organizações já fornecem a informação", disse Cantor. "Nós estamos acelerando essas conexões."

Desenvolver aplicações para a agricultura parecia lógico em um país que é predominantemente rural e dependente de pequenas fazendas, ele disse.

Rutagumirwa está entre os vários líderes das comunidades rurais que foram treinados pela Grameen para entrevistar e educar os produtores vizinhos a respeito dos métodos apropriados para conter a doença da banana. Nos últimos anos, a disseminação de duas doenças dizimou as plantações de banana no Leste da África, ameaçando a segurança alimentar e o sustento de cerca de 30 milhões de produtores rurais, segundo o Instituto Internacional de Agricultura Tropical.

Apenas em Uganda, as bananas cobrem cerca de 40% das terras cultiváveis do país e são um alimento básico para mais de 12 milhões de pessoas. Estima-se que os prejuízos com a doença da banana sejam de US$ 70 milhões a US$ 200 milhões por ano.

Na vizinha Ruanda e na República Democrática do Congo, outra doença chamada vírus do topo em leque também está devastando as plantações de banana. Essa doença ainda não foi encontrada em Uganda, mas as autoridades estão em alerta a respeito.

Assim que o vírus do topo em leque se estabelece em uma área, é quase impossível erradicá-lo, disse Idd Ramathanni, um microbiólogo do Instituto Internacional de Agricultura Tropical, em Uganda. Usando celulares para conectar os produtores rurais mais remotos com os cientistas em Campala, a vigilância foi enormemente melhorada, assim como a possibilidade de prevenir sua devastação, disse Ramathanni.

"É melhor prevenir do que curar um problema que já está aqui", ele disse.

David Bangirana, outro líder local treinado pela Grameen, disse que viu o potencial de usar as redes de líderes comunitários, armados de celulares como ele, para educar e coletar dados em aldeias remotas a respeito de assuntos além da doença da banana.

Bangirana, 60 anos, um ex-professor e chefe de aldeia, veste uma camiseta amarela como "Me Pergunte" escrito no peito. Sua comunidade agora o procura com perguntas a respeito de práticas agrícolas e questões de saúde, e ele pode obter rapidamente respostas usando mensagens de texto do Google e uma operadora. Ele disse que às vezes leva seu celular até as escolas primárias da aldeia, para mostrar às criança a informação ilimitada disponível para elas.

"O uso do celular", disse Bangirana, "deu poder à comunidade ao permitir que tomasse conhecimento do que não conhecia e fizesse qualquer pergunta a respeito de tudo que a cerca".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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