UOL Notícias Internacional
 

06/10/2009

Paquistão resiste aos esforços dos EUA para aumentarem sua influência

The New York Times
Jane Perlez
Em Islamabad (Paquistão)
As medidas dos Estados Unidos para expandir enormemente sua ajuda ao Paquistão, assim como as pegadas de sua embaixada e empresas de segurança privadas contratadas para atuar aqui, estão agravando um sentimento antiamericano já volátil, à medida que Washington pressiona por uma maior ação do governo contra o Taleban.

Um pacote de ajuda de US$ 1,5 bilhão, aprovado pelo Congresso na semana passada, pede ao Paquistão que deixe de apoiar grupos terroristas em seu solo e assegure que o militares não interfiram na política civil. O presidente Asif Ali Zardari, cuja associação com os Estados Unidos aumenta sua impopularidade, concordou com as exigências do pacote de ajuda.
  • Rizwan Tabassum/AFP

    Ativista paquistanês do partido fundamentalista islâmico Jamaat-i-Islami participa de um protesto em Karachi contra a presença americana no país e os ataques com mísseis em áreas tribais

Mas muitos aqui, especialmente no poderoso exército, são contrários às condições como uma interferência nos assuntos internos do Paquistão e estão interpretando a maior pegada americana de formas mais sinistras.

As autoridades americanas dizem que a embaixada e sua presença de segurança devem expandir para permitir o monitoramento de como o novo dinheiro será gasto. Elas também têm preocupações reais de segurança, que foram ressaltadas na segunda-feira, quando um homem-bomba, trajando um uniforme das forças de segurança paquistanesas, matou pelo menos cinco pessoas em um escritório da ONU no coração de Islamabad, a capital.

A embaixada americana publicou planos para um vasto novo prédio em Islamabad, para cerca de 1.000 pessoas, com a segurança para alguns diplomatas fornecida por uma empresa privada com sede em Washington, a DynCorp.

O plano para a embaixada, com as exigências americanas de importação de mais veículos blindados, representa uma expansão significativa em relação aos últimos 15 anos. Ele ocorre em um momento de discussão intensa em Washington sobre a ampliação das operações americanas e ajuda ao Paquistão -uma base para a Al Qaeda- como uma alternativa ao maior envolvimento americano no Afeganistão, com a adição de mais forças.

A forte oposição aqui está revelando tensões profundas na aliança. Mesmo em seu nível atual, a presença americana está alimentando um senso de ocupação entre os políticos paquistaneses e autoridades de segurança, disseram várias autoridades paquistanesas, que não quiseram que seus nomes fossem citados por temerem antagonizar os Estados Unidos. Os americanos são vistos agora como se comportando no Paquistão da mesma forma que no Iraque e Afeganistão, eles disseram.

Em particular, os militares e os órgãos de inteligência paquistaneses temem que a DynCorp esteja sendo usada por Washington para desenvolver uma rede paralela de pessoal de segurança e inteligência dentro do Paquistão, disseram funcionários do governo e políticos próximos do exército.

As preocupações são sérias o bastante para, no mês passado, uma empresa local contratada pela DynCorp, para fornecer paquistaneses para serem treinados como seguranças para os diplomatas americanos, ter sofrido uma batida pela polícia de Islamabad. O proprietário da empresa, a Inter-Risk Security Company, o capitão Syed Ali Ja Zaidi, foi posteriormente preso.

A ação contra a Inter-Risk, que aparentemente visava minar o programa da DynCorp, foi realizada sob ordens do alto escalão do governo paquistanês, disse um funcionário familiarizado com a batida, que não estava autorizado a falar oficialmente.

Todo o trabalho da DynCorp dentro do Paquistão agora está sob revisão pelo governo paquistanês, disse um alto funcionário do governo envolvido diretamente com os americanos, que falou francamente sob a condição de anonimato.

As tensões estão vindo à tona à medida que os Estados Unidos estão pressionando o Paquistão a lidar não apenas com aqueles grupos talebans que ameaçam seu governo, mas também com a liderança taleban que usa o Paquistão como base para organizar e conduzir sua insurreição contras as forças americanas no Afeganistão.

Em uma declaração pública, a embaixadora americana, Anne W. Patterson, sugeriu na semana passada que o Paquistão deveria eliminar o líder taleban afegão, o mulá Omar, um ex-aliado dos paquistaneses que Washington diz atualmente estar baseado no Baluquistão, a província na fronteira afegã. Se o Paquistão não eliminar o mulá Omar, os Estados Unidos o fariam, ela sugeriu.

Reforçando a embaixadora, o conselheiro de segurança nacional, o general James L. Jones, disse no domingo que os Estados Unidos consideram lidar com os santuários da Al Qaeda no Paquistão, como o "próximo passo" no conflito no Afeganistão.
  • Romeo Gacad/AFP

    Soldados americanos vigiam base militar ao sul do Afeganistão, próximo à fronteira com o Paquistão



O chefe do exército paquistanês, o general Ashfaq Parvez Kayani, em uma reação incomumente forte na semana passada, disse que ataques com mísseis por aeronaves não-tripuladas americanas no Baluquistão, como os americanos deixaram implícito, "não seriam permitidos".

Os paquistaneses também se queixaram de que não estão sendo suficientemente consultados a respeito da decisão pendente da Casa Branca de enviar mais tropas ao Afeganistão.

O chefe da agência de espionagem do Paquistão, os Interserviços de Inteligência, ou ISI, o general Ahmed Shuja Pasha, se encontrou com altos funcionários da Agência Central de Inteligência (CIA) na semana passada, em Washington, onde argumentou que o envio de mais tropas não era a resposta no Afeganistão, disse um funcionário paquistanês com conhecimento a respeito da visita.

O exército paquistanês, em alta após sua campanha para retirar do Taleban o controle do Vale de Swat , continua nervoso a respeito das intenções de Washington na região e a pressão contra a nova ajuda é um reflexo dessa ansiedade, disseram autoridades paquistanesas.

Apesar do governo Zardari estar anunciando a nova ajuda como um triunfo, as autoridades dizem que os termos da legislação ignoram as prerrogativas a respeito da soberania paquistanesa, tornando os US$ 1,5 bilhão uma venda difícil.

"Agora todos têm um argumento para usar contra o governo Zardari", disse um alto funcionário paquistanês envolvido no diálogo entre americanos e paquistaneses, mas que não quis que seu nome fosse mencionado porque não queria inflamar a discussão.

A maior presença de segurança americana se tornou outro ponto de ataque. A DynCorp tem atraído atenção especial após a imprensa paquistanesa ter noticiado que a Blackwater, a empresa privada que gerou controvérsia devido às suas táticas agressivas no Iraque, também estava presente no Paquistão.

Recentemente surgiram muitas queixas dos moradores de Islamabad, que disseram ter sido tratados de forma violenta por americanos corpulentos à paisana, portando armas, supostamente da DynCorp, disseram altos funcionários paquistaneses envolvidos com os americanos.

O Ministério das Relações Exteriores do Paquistão enviou duas queixas diplomáticas formais nas duas últimas semanas à embaixada americana a respeito desses incidentes, disse um funcionário.

A embaixada recebeu as queixas, e confirmou dois incidentes, disse um funcionário americano, mas a embaixada negou ter recebido algum protesto formal do Ministério das Relações Exteriores. Ela também se recusou a comentar sobre a presença da Blackwater, agora conhecida como Xe Services, no Paquistão.

Funcionários da CIA disseram que funcionários da Blackwater trabalharam em uma base remota em Shamsi, no Baluquistão, onde carregavam os mísseis e bombas nas aeronaves não-tripuladas usadas para atacar os militantes do Taleban e da Al Qaeda.

A operação das aeronaves não-tripuladas em Shamsi foi transferida pelos americanos para o Afeganistão neste ano, disse um alto oficial militar paquistanês.

Vários funcionários da Blackwater também trabalharam na província da Fronteira Noroeste, supervisionando a construção de um centro de treinamento para o Corpo de Fronteira do Paquistão, disse um oficial paquistanês da região.

Havia um desconforto considerável com a presença diplomática americana em Peshawar, a capital da província da Fronteira Noroeste, disse um dos altos funcionários do governo. Políticos perguntavam por que os Estados Unidos precisavam de um consulado em Peshawar, que faz fronteira com as áreas tribais onde o Taleban e a Al Qaeda estão baseados, já que aquele consulado não emitia vistos, ele disse.

Outra pergunta, ele disse, era por que o consulado planejava comprar o maior e mais moderno prédio na cidade, o hotel Pearl Continental -que sofreu um atentado a bomba em um ataque terrorista neste ano- para transformá-lo em sua nova sede.

Enquanto o Parlamento se prepara para discutir o pacote de ajuda americano na quarta-feira, a expectativa é de que o tom do debate seja feroz. Em um programa de entrevistas na televisão, o senador Tariq Aziz, um membro do partido de oposição, a Liga Muçulmana Paquistanesa-Q, chamou a legislação de ajuda de "a carta para a nova colonização".

"As pessoas acham que este governo nos vendeu de novo para os americanos para atender seus próprios interesses egoístas", disse Jahangir Tareen, um ex-ministro e membro do Parlamento, em uma entrevista. "Algumas pessoas acham que os Estados Unidos querem pegar o Paquistão, tornar o Paquistão inofensivo, destruir o exército como existe no momento para que não possa combater a Índia, ou minar a capacidade dos ISI de influenciar os eventos na Índia e no Afeganistão. Todo mundo está dizendo a respeito dos americanos: 'Eu não disse'."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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