UOL Notícias Internacional
 

09/10/2009

Repelindo denúncias, Berlusconi promete "seguir adiante"

The New York Times
Rachel Donadio, em Roma (Itália)
Um dia após o Tribunal Constitucional da Itália ter derrubado uma lei que concedia imunidade contra processos judiciais a Silvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano, de forma desafiadora, classificou a iniciativa de "absurda" e afirmou que o seu governo "seguirá adiante calmamente".
  • Alessandra Tarantino/AP

    "Tenho vontade de ir embora da Itália, e faria isso se não fosse o que meus inimigos desejam", disse Berlusconi, às vésperas de perder a imunidade



Mas agora, podendo enfrentar processos relativos aos casos de corrupção que o afligem há décadas, o normalmente carismático e alegre Berlusconi parece longe de estar calmo. Em entrevistas na rádio e na televisão, o primeiro-ministro, que também encontra-se sob pressão devido a escândalos sexuais e ao nervosismo em meio aos seus próprios aliados políticos de centro-direita, parece estar tão pronto para brigar que muitos observadores italianos se perguntam se ele não estaria perdendo o controle - se não sobre o país, certamente sobre o seu temperamento.

Ao falar em uma programa de entrevistas na televisão na noite da última quarta-feira, Berlusconi fez um ataque bastante incomum contra o comedido presidente do país, Giorgio Napolitano, de 84 anos. Ele acusou o presidente, um cargo normalmente considerado acima das agitações politicas, de encher o tribunal de juízes esquerdistas - observações que fizeram com que Napolitano convocasse uma reunião na quinta-feira (08) com os presidentes da Câmara e do Senado na tentativa de evitar uma crise institucional.

Quando uma convidada do mesmo programa, Rosy Bindi, uma integrante graduada do parlamento pelo Partido Democrático e ex-ministra da Saúde, afirmou que os ataques feitos por Berlusconi sabotam a autoridade do gabinete do presidente, o primeiro-ministro retrucou de forma curta e
grossa: "Você sempre foi mais bonita do que inteligente".

Bindi, 58, e uma das poucas mulheres da vida pública italiana que têm cabelos grisalhos, respondeu secamente: "Senhor primeiro-ministro, eu sou uma mulher que não está à sua disposição". O incidente deixou evidente mais uma vez que Berlusconi sempre foi mais Technicolor do que tecnocrata. "Se hoje Berlusconi agisse mais normalmente, eu diria que ele enlouqueceu", afirmou Gianluca Nicoletti, um comentarista da Rádio Il Sole 24. "O paradoxo é que as pessoas achariam que Berlusconi endoidou caso ele começasse a agir normalmente".

O tom do debate constitui-se em mais uma evidência de que a vida pública da Itália centra-se na personalidade hipertrofiada e nos problemas pessoais de Berlusconi - em detrimento de tudo mais.

"O que quer que aconteça, bom ou ruim, ele ainda é o protagonista em toda a sua glória", disse Nicoletti.

Falando na rádio na quinta-feira para tentar convencer os italianos de que as acusações contra ele são "ridículas", a voz do primeiro-ministro parecia tensa, e o seu carisma sem limites estava apagado.

"Esses dois julgamentos são risíveis", disse ele. "Eu vou me defender nos tribunais e ridicularizar os meus acusadores, mostrando aos italianos a minha verdadeira coragem".

Berlusconi vem se defendendo há meses de escândalos sexuais envolvendo mulheres jovens e pelo menos uma prostituta que disse ter sido paga para participar de festas suntuosas dadas pelo primeiro-ministro. Berlusconi negou ter cometido qualquer impropriedade, mas declarou também aos
italianos: "Não sou nenhum santo".

A decisão de quarta-feira classificou como inconstitucional uma lei que concedia imunidade judicial às quatro autoridades públicas mais graduadas do país. A lei impedia que Berlusconi participasse de um julgamento de crimes de corrupção no qual um juiz descobriu em fevereiro que o advogado britânico de Berlusconi, David Mills, recebeu US$ 600 mil (R$ 1,04 milhão) para prestar falso testemunho. Agora o julgamento recomeçará da estaca zero, com um novo juiz, e tendo Berlusconi como réu.

Na quinta-feira, Berlusconi observou que foi eleito com a maioria dos votos populares. Ele governa com uma ampla maioria parlamentar. Desde que entrou na política em 1994, Berlusconi acusa repetidamente os magistrados de terem preconceitos esquerdistas, uma opinião atualmente compartilhada por muitos dos seus seguidores.

Apesar de todo o drama em torno da decisão, poucos comentaristas italianos preveem uma mudança radical de regime. E eles tampouco acreditam que a esquerda será capaz de capitalizar a fraqueza de Berlusconi. O principal grupo de oposição, o Partido Democrático, está dividido por lutas internas e ainda não elegeu um novo líder, mais de seis meses após o último ter renunciado.

Tradução: UOL.

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