UOL Notícias Internacional
 

10/10/2009

Crise financeira fez com que Europa perdesse ímpeto de crescimento

The New York Times
Nelson D. Schwartz e Matthew Saltmarsh
Em Paris (França)
Dois anos atrás, a Europa estava crescendo mais rapidamente do que os Estados Unidos, e o velho continente parecia finalmente preparado para enfrentar antigos desafios econômicos como os rígidos mercados trabalhistas, gastos governamentais descontrolados e o envelhecimento rápido da população.

Mas, enquanto a Ásia e os Estados Unidos emergem da crise econômica global, a Europa parece ser provavelmente a retardatária do mundo, correndo o risco de retornar à era da "Euroesclerose". Líderes que costumavam falar com otimismo sobre mudanças fundamentais com o objetivo de aumentar a produtividade voltam-se agora para tarefas mais prosaicas como proteger empregos e evitar escolhas políticas dolorosas.

"Isso é pior do que retornar à estaca zero", afirma Gilles Moeeck, economista do Deutsche Bank em Londres.

E, exatamente quando ela é mais necessária, a vontade política para enfrentar os problemas econômicos maiores da Europa está ausente, segundo vários especialistas da região e do mundo.

Quando foi eleito presidente da França em 2007, Nicolas Sarkozy falava da necessidade de uma "ruptura", incluindo a flexibilização de um mercado de trabalho altamente regulado para possibilitar uma melhor competição na economia global.

"Mas agora o presidente Sarkozy deu uma guinada, que se não é de 180 graus, é de pelo menos 90º na direção oposta", afirma Charles Wyplosz, diretor do Centro Internacional de Estudos Monetários e Bancários em Genebra. "As coisas sobre as quais falamos naquela época ainda precisam ser feitas se quisermos crescer, mas a crise desacelerou parte do ímpeto para mudança."

Na Alemanha, Angela Merkel, que foi eleita no mês passado para um segundo mandato como chanceler, também evitou enfrentar os poderosos sindicatos e os bancos regionais do país. Elas abraçou a "economia de mercado social" e insistiu que a única alternativa à dependência das exportações para promover o crescimento são os consumidores.

Além disso, o governo de Angela Merkel passou a sofrer um ataque incessante de outros países da Europa por ter fornecido bilhões de euros de auxílio para salvar a empresa automobilística Opel, preservando empregos alemães no seu país, possivelmente em detrimento de trabalhadores na Bélgica, Reino Unido e Espanha.

Com a Europa sofrendo devido à enorme capacidade manufatureira excedente, as companhias automobilísticas provavelmente sofrerão mais prejuízos. Após experimentarem um aquecimento neste ano devido a incentivos para a troca de carros velhos por novos em vários países, espera-se que as vendas de automóveis na Europa Ocidental sofram uma queda de 5% a 6% neste ano, segundo o Credit Suisse.

Na Alemanha, onde a indústria automobilística é um símbolo tão forte quanto a Oktoberfest, o Credit Suisse prevê que as vendas para compradores individuais cairão 21%, contrastando com um aumento esperado de 18% nos Estados Unidos.

E não é só o setor automobilístico que se encontra ameaçado: os analistas também afirmam que os recentes testes de estresse aplicados nos bancos do continente não foram tão efetivos quanto aqueles utilizados nos Estados Unidos.

Apesar dos prejuízos referentes à dívida norte-americana das hipotecas subprime e dos empréstimos locais em economias como a Espanha, a Irlanda e os países bálticos, "o sistema bancário não foi realmente reestruturado", diz Nicolas Veron, pesquisador do Bruegel, um centro de políticas em Bruxelas. Como resultado, a Europa corre o risco de repetir a "década perdida" do Japão nos anos noventa, quando os enormes prejuízos saturaram as folhas de balanço dos bancos e inibiram os novos empréstimos.

A desaceleração é uma reversão abrupta em relação ao período que conduziu à crise. A economia irlandesa cresceu 5% ao ano de 1999 a 2007 e o país ficou conhecido como o Tigre Celta, enquanto o desemprego caía durante o crescimento contínuo nas maiores economias da Europa, a Alemanha e a França.

Sublinhando o novo pessimismo, novas estatísticas divulgadas na última quarta-feira revelaram que houve uma contração de 0,2% na zona do euro no segundo trimestre deste ano, o que é pior do que o previsto.

"Os europeus estão perdendo a sua oportunidade", diz Simon Johnson, professor da Escola Sloan de Administração do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). "Eles são os maiores perdedores da crise econômica, mesmo que a loucura das subprimes tenha ocorrido nos Estados Unidos."

A bem da verdade, a economia norte-americana também ainda não se recuperou, e o desemprego nos Estados Unidos ainda está subindo, os donos de imóveis continuam esmagados pelas dívidas de hipotecas e Washington fornece poucos detalhes sobre como pretende solucionar os seus próprios déficits governamentais enormes.

Mas o recente fortalecimento do euro em relação ao dólar reflete principalmente as altas taxas de juros no continente, e não perspectivas otimistas na Europa. E uma moeda mais forte na verdade torna as exportações europeias menos competitivas globalmente.

A fatia da zona do euro no comércio mundial já encolheu de 31% em 2004 para 28% em 2008, segundo a OMC (Organização Mundial de Comércio).

As economias da Espanha, da Irlanda e da Grécia deverão continuar encolhendo em 2010, enquanto a locomotiva econômica da região, a Alemanha, exibe penosamente um crescimento de apenas 0,3%, segundo um novo e sombrio relatório do FMI (Fundo Monetário Internacional).

E há sinais de que o desempenho econômico anêmico da Europa vai se traduzir em uma menor força politica. Os países europeus tinham uma voz importante no Grupo dos Sete, o principal fórum econômico mundial desde meados da década de setenta. Mas, no final deste mês, os líderes mundiais afirmaram que esse clube de elite será em breve eclipsado pelo Grupo dos Vinte, um conjunto bem mais global que inclui gigante econômicos emergentes como Brasil, China e Índia.

Embora simbólico, o deslocamento do G-7 para o G-20 cristalizou temores de que a economia mundial esteja sendo controlada por aquilo que C. Fred Bergsten, diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional, chama de G-2 - os Estados Unidos e a China. "Idealmente, isso seria o G-3, mas a Europa não fala com uma voz única e os países europeus são incapazes de coordenarem-se e funcionarem da mesma forma que os Estados Unidos e a China", explicou Bergsten.

Além do mais, a crise econômica também paralisou as iniciativas europeias para fazer frente a fatores de longo prazo que inibem o crescimento, como uma força de trabalho em processo de envelhecimento e a desaceleração do crescimento populacional em vários países.

No decorrer dos próximos 25 anos, a população da Europa Ocidental deverá aumentar apenas 0,7%, passando dos atuais 188,5 milhões de habitantes para 189,8 milhões, contra um aumento de 20% nos Estados Unidos no mesmo período, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Ao mesmo tempo, a população está envelhecendo em toda a região, da fronteira russa ao Atlântico.

A melhor forma de compensar uma população em processo de envelhecimento - e, portanto, um número menor de trabalhadores - é uma maior produtividade. Mas este indicador também está se movendo na direção errada. Após ter aumentado bastante nas década de setenta e oitenta, a produtividade na última década e meia cresceu apenas 0,9% anualmente na Europa, comparada a 1,7% nos Estados Unidos, diz Moeta.

"Ultimamente, o aumento da produtividade nos Estados Unidos não tem sido espetacular, mas ele é bem melhor do que o da Europa, e os Estados Unidos não enfrentam este problema demográfico maciço", diz ele. "Até agora, nós pensávamos na questão demográfica de maneira teórica, mas ela está começando a nos atingir concretamente."

No longo prazo, é provável que seja necessário que os trabalhadores reavaliem os seus generosos benefícios sociais, as longas férias e os planos de aposentadoria antecipada que eles costumavam ver como diretos adquiridos.

Louise Richardson, 65, pretendia se aposentar como diretora-executiva da Older Women's Network, uma instituição filantrópica de Dublin. Ela terá que adiar a aposentadoria por pelo menos dois anos devido ao impacto da crise financeira sobre as suas reservas de aposentadoria.

"Não posso me aposentar. Não tenho dinheiro para isso", lamenta Richardson, uma viúva cuja poupança caiu de 240 mil euros para 80 mil euros - ou US$ 118 mil (R$ 204 mil) -, no intervalo de uma década. "A minha pensão foi esmagada. O dinheiro foi simplesmente engolido."

Tradução: UOL

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