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10/10/2009

Marcela Sanchez: para escapar do intervalo perdido

The New York Times
Marcela Sanchez

L'Atelier du Chocolat é uma fábrica de chocolate gourmet no México, com US$ 2 milhões (R$ 3,4 milhões) em vendas anuais e 63 funcionários. Entre os clientes da fábrica está a Liverpool, uma das maiores lojas de departamentos do México, mas o L'Atelier du Chocolat só consegue atender sete das 130 lojas da Liverpool.

"Para poder atender todas eu teria que investir em maquinário", disse a proprietária, Marisol Alfaro. "Mas eu não tenho acesso a financiamento porque não tenho o contrato." E Alfaro não pode obter o contrato até poder provar que tem como cumpri-lo. "É um círculo vicioso", ela disse.

L'Atelier du Chocolat está entre as milhões de empresas latino-americanas de pequeno e médio porte presas no "missing middle" (intervalo perdido): grandes demais para se qualificarem ao microempréstimo, mas não grandes o bastante para interessar às grandes instituições de empréstimo, as empresas de pequeno e médio porte lutam para obter os recursos necessários.

Alguns líderes mundiais declararam este lacuna um dos obstáculos mais significativos ao crescimento e criação de empregos. O ex-presidente Bill Clinton, cuja fundação lançará em breve um fundo de US$ 20 milhões (R$ 34,6 milhões) para empresas de pequeno e médio porte na Colômbia, disse recentemente para um grupo de autores de políticas, líderes empresariais e representantes da sociedade civil latino-americanos, na Conferência das Américas do "The Miami Herald", que "a maior escassez de capital no mundo atualmente é a de capital de investimento para empresas de pequeno e médio porte".

E não é apenas por causa da crise financeira atual. Mesmo em tempos de maior liquidez, as pequenas e médias empresas estavam indevidamente atendidas pelas instituições financeiras tradicionais. Segundo um levantamento de 2006 do Banco Mundial, apenas uma entre cada cinco empresas na América Latina e Caribe recebeu um empréstimo bancário. No México, apenas uma em 38 empresas recebeu.

"Nós o vemos como um segmento que é ignorado", disse Greta Bull, gerente do programa de acesso ao financiamento para a América Latina e Caribe da Corporação Internacional de Finanças (IFC, na sigla em inglês), a divisão para o setor privado do Banco Mundial. O IFC e outros grupos estão tentando argumentar junto aos bancos que serviços bancários e financiamento para empresas de pequeno e médio porte podem ser tão lucrativos quanto empréstimos para corporações.

Até o momento, entretanto, os bancos latino-americanos que buscam explorar os novos mercados mostraram mais interesse em emprestar para microempresários do que para os proprietários de empresas de pequeno e médio porte.

Isto é facilmente explicável pela bem documentada alta taxa de retorno do microfinanciamento, no geral, e por seu longo retrospecto de sucesso na América Latina, em particular. Semanas atrás, um novo ranking global de microfinanciamento da Economist Intelligence Unit mostrou que dos 10 países no mundo mais "apoiados por setores de microfinanciamento ativos e fortes níveis de desenvolvimento institucional", seis estão na América Latina.

Algumas instituições financeiras na região que já se concentraram em microempréstimos, como o Banco de Crédito do Peru, começaram a considerar empréstimos para empresas de pequeno e médio porte. Mas como Bull observou, instituições como essas são "raras" na América Latina.

Um motivo, alguns podem argumentar, é a informalidade: a maioria das empresas de pequeno e médio porte na América Latina está fora da vista - e proteção - de seus governos. Logo, os bancos as consideram um risco de investimento alto demais. Mas o grande sucesso do microfinanciamento na região provou que informalidade não é sinônimo de irresponsabilidade - que informalidade não significa calote.

Uma explicação mais plausível é a de que os bancos tratam de forma precipitada as pequenas e médias empresas como tratariam as grandes empresas. Os custos administrativos que acompanham os empréstimos, por exemplo, são obstáculos tanto para os bancos quanto para as empresas. Se para conceder empréstimos às pequenas e médias empresas, os bancos tiverem que passar pelo mesmo processo que consome tempo que aquele para os clientes corporativos, um empréstimo de algumas poucas centenas de milhares de dólares sempre será menos atraente do que um empréstimo multimilionário.

Os especialistas em desenvolvimento propõem que os bancos utilizem outras formas de garantia, como estoques, para aprovar um empréstimo para as empresas de pequeno e médio porte. Formas mais tradicionais de garantias, como declarações financeiras auditadas, não estão prontamente disponíveis para pequenas e médias empresas.

No ano passado, o governo da Guatemala tentou facilitar os empréstimos para pequenas e médias empresas ao criar um registro de garantia para bens móveis, como maquinário. Mas segundo o relatório anual "Fazendo Negócios" do Banco Mundial, poucos outros governos na região fizeram esforços semelhantes.

Talvez o maior desafio para os bancos seja o de reconsiderar os termos de seus empréstimos. Hoje, Alfaro precisa de um empréstimo de US$ 1 milhão. Para fornecê-lo, os bancos mexicanos pediriam uma garantia no valor de US$ 3 milhões (R$ 5,1 milhões) e cobrariam uma taxa de juros de 24% a 26%, ela disse. "Com nossa margem de lucro em 30%, eu trabalharia para eles."

Alfaro, que participou recentemente da Conferência de Mulheres Empreendedoras - Caminhos para a Prosperidade, organizada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, disse estar à procura de bancos que entendam as dificuldades enfrentadas pelas empresas de pequeno e médio porte. Agora ela está considerando pedir um empréstimo junto a uma instituição financeira nos Estados Unidos - uma boa oportunidade perdida por uma instituição mexicana.

(Marcela Sanchez é uma jornalista sediada em Washington desde o início dos anos 90. Suas colunas são distribuídas para vários jornais há mais de seis anos.)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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