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13/10/2009

Applebaum: Quem se importa com o ganhador do Prêmio Nobel da Paz?

The New York Times
Anne Applebaum*

O prêmio foi merecido?


Por que deram o prêmio a ele? Ele o mereceu? Deveria tê-lo aceitado? Em vez dele, quem é que deveria ter recebido o prêmio? O que ele diria? O país inteiro só fala do Prêmio Nobel da Paz do presidente Barack Obama. Eis aqui uma pergunta melhor para fazermos a nós mesmos: por que deveríamos nos importar com essa questão?

Pensem só nisso: O Comitê Norueguês do Nobel consiste de cinco noruegueses selecionados pelo Parlamento da Noruega. No seu testamento, Alfred Nobel, o sueco que inventou a dinamite e que elaborou todo esse processo, manifestou o seu desejo específico de que noruegueses escolhessem o vencedor, aparentemente porque os cidadãos da Noruega, por não estarem inseridos no universo europeu típico, estariam menos propensos à corrupção política.
  • Liester Filho/Folha Imagem - 15.jun.2005

    Primeiro presidente americano de origem africana, Obama foi escolhido por seus esforços na redução dos estoques de armas nucleares e por reiniciar o estagnado processo de paz no Oriente Médio



O problema é que os noruegueses, exatamente por estarem fora do universo europeu típico, apresentam também uma maior propensão à excentricidade. A Noruega é um país maravilhoso, e os noruegueses possuem um dos mais elevados padrões de vida do mundo - graças à sua pequena população e às suas substanciais reservas de petróleo e gás -, mas da última vez em que estive lá, tive uma discussão com alguém sobre que país seria mais nefasto: os Estados Unidos ou a Coreia do Norte. Tendo esse episódio ocorrido alguns anos atrás, no ápice do terror de Bush, dá para adivinhar de que lado os noruegueses se encontravam nesta polêmica.

Talvez como um resultado da sua excentricidade, os cinco noruegueses que escolhem os vencedores do Prêmio Nobel da Paz têm tomado algumas decisões bastante esquisitas nos últimos anos. Vejamos os mais recentes ganhadores norte-americanos. De que maneira Al Gore, independentemente do que se pense a respeito do seu filme sobre o aquecimento global, atende aos desejos de Alfred Nobel, que desejava que o seu dinheiro fosse concedido "à pessoa que mais tenha contribuído ou que tenha feito o melhor trabalho em prol fraternidade entre as nações, pela abolição ou redução de exércitos mobilizados e pela manutenção e promoção de congressos da paz"? Jimmy Carter foi o ganhador em 2002, supostamente pela sua habilidade em ser um ex-presidente, embora eu não esteja certo de onde ele tenha estabelecido qualquer paz ou reduzido quaisquer exércitos mobilizados.

O Prêmio Nobel da Paz, assim como todos os prêmios, é um rolar de dados, e, assim, a premiação às vezes é concedida aparentemente a pessoas que o merecem - Martin Luther King Jr. o ganhou, assim como o Dalai Lama - mas em muitas ocasiões ganha quem não mereceu. Gandhi nunca o ganhou, mas Iasser Arafat sim. Será que eu preciso dizer mais? Geralmente o comitê é acusado de uma tendenciosidade favorável à esquerda, e de fato há uma certa verdade nisso -, embora, é claro, exista algo profundamente esquerdista, para início de conversa, quanto à ideia de promover congressos da paz. Mas às vezes a decisão de premiação parece ser mais estranha do que esquerdista. E, aliás, não há muita coisa de esquerda em relação a Henry Kissinger, o laureado em 1973.

"Obama mania"

  • Finbarr O'Reilly/Reuters - 11.jul.2009

    Saiba mais sobre a trajetória do presidente norte-americano



Temo que o mesmo seja verdade em relação ao Prêmio Nobel de Literatura, que é selecionado por juízes suecos. A Suécia é um lugar maior e mais cosmopolita do que a Noruega. No entanto, quase que invariavelmente, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura acaba sendo um escritor obscuro, geralmente europeu, cujos trabalhos são pouco conhecidos fora dos países de língua alemã ou de cultura germânica (as exceções ficam por conta dos franceses, cujos livros são pouco conhecidos em inglês, e Harold Pinter). Acho que essa tendência pode ter prevalecido também no que se refere à vencedora deste ano, Herta Muller, por mais fascinante que possa parecer a história da sua vida. Pelo menos os temas por ela abordados - totalitarismo, ditadura - são mais dignos do que aqueles de, digamos, Elfriede Jelinek, a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2004, que ficou famosa pelos seus textos sobre perversão sexual. Porém, nesta categoria também são escolhidos grandes escritores. Mas Leon Tolstoi, por exemplo, não ganhou o Nobel.

É de se presumir que as enormes quantias que acompanham esses prêmios expliquem uma parte da sua mágica. E ainda o fato de ele ser também concedido a cientistas, embora eu saiba que o processo envolvendo a seleção desses laureados seja quase imprevisível. É claro que sou totalmente favorável à distribuição aleatória de grandes quantidades de dinheiro para escritores, químicos, físicos e até mesmo o ocasional ativista da paz que trabalham arduamente, especialmente se eles já não sejam ricos e famosos. Por que não? Contanto que o resto de nós não leve muito a sério o processo de tomada de decisão de cinco escandinavos.

*Anne Applebaum é colunista do "The Washington Post" e da revista "Slate" (www.slate.com ), onde esta coluna foi originalmente publicada. Ela é autora de "Between East and West: Across the Borderlands of Europe" ("Entre Leste e Oeste: Pelas Fronteiras da Europa") e "Gulag: A History" ("Gulag, uma História"), pelo qual recebeu o Prêmio Pulitzer para obras de não ficção em 2004. Para ler mais artigos como este, visite www.slate.com )

Tradução: UOL

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