UOL Notícias Internacional
 

13/10/2009

Um pacote de ajuda insere os EUA na divisão paquistanesa

The New York Times
Jane Perlez
Em Islamabad (Paquistão)
O novo pacote de ajuda ao Paquistão, aprovado pelo Congresso americano no mês passado - uma promessa de US$ 7,5 bilhões para necessidades civis ao longo dos próximos cinco anos - colocou não intencionalmente os Estados Unidos no centro de um relacionamento perenemente difícil entre os poderosos militares do Paquistão e seus fracos governos civis.
  • The New York Times/Pakistan Press Information Department

    O presidente paquistanês, Asif Ali Zardari (à esquerda) encontra-se com o chefe das Forças Armadas do país, general Ashfaq Parvez Kayani, para discutir a crise política atual, em Islamabad



Neste caso, os Estados Unidos se inseriram no meio do que os políticos descrevem como um relacionamento em deterioração entre o chefe do exército, o general Ashfaq Parvez Kayani, e o presidente Asif Ali Zardari, ao insistir em uma maior supervisão civil das forças armadas como condição para a ajuda.

Com sua economia em frangalhos e uma insurreição tenaz, que no último fim de semana invadiu um quartel-general militar nos arredores da capital, o Paquistão parece necessitar mais do que nunca do tipo de assistência que Washington está oferecendo.

Em vez disso, na segunda-feira, virtualmente sob ordens dos militares, o ministro das Relações Exteriores, Shah Mehmood Qureshi, foi enviado para Washington para dizer às autoridades americanas que o Paquistão não aceitaria ser microadministrado.

Agora parece que o pacote de ajuda, em vez de auxiliar Zardari e melhorar as relações dos Estados Unidos com o Paquistão, ameaça minar o presidente e expor os problemas no coração da aliança entre os dois países.

Ao apoiar Zardari aparentemente às custas das forças armadas, os americanos atingiram um nervo exposto, disseram vários políticos paquistaneses.

Kayani deixou claro que apoia a democracia no Paquistão e que as forças armadas não têm intenção de derrubar o governo civil, disseram os políticos paquistaneses.

Mas o que parece ser uma aversão pelo governo Zardari agora mal dá para disfarçar. No sábado, no meio do sítio ao quartel-general do exército, o general tomou um helicóptero até o palácio presidencial para uma reunião com o presidente, seu ministro das relações exteriores e o primeiro-ministro, Yousaf Raza Gillani.

Depois, Qureshi foi enviado para Washington para dizer ao governo Obama que o Paquistão tinha profundas reservas em relação às intenções americanas.

Os militares, sem dúvida, também têm profundas reservas em relação a ceder poderes há muito acumulados, assim como os benefícios que os acompanham, para um governo sem experiência que eles criticam por má administração de uma economia aos pedaços.
  • Rizwan Tabassum/AFP

    Ativista paquistanês do partido fundamentalista islâmico Jamaat-i-Islami participa de um protesto em Karachi contra a presença americana no país e os ataques com mísseis em áreas tribais



"O exército está dizendo privativamente que apesar de tudo, o exército permanece uma instituição rigorosa, baseada no mérito, no Paquistão, e se os políticos botarem suas mãos nas promoções, esse será seu fim", disse um membro do Parlamento, que não quis ser identificado por não estar autorizado a revelar o pensamento dos militares.

Autoridades americanas e paquistanesas que apoiam o pacote de ajuda estão expressando preocupação cada vez maior de que os críticos da ajuda estão fabricando uma crise, visando desacreditar e minar o governo civil.

Os valores no projeto de lei de ajuda, eles notam, não são mais onerosos do que os de pacotes de ajuda anteriores, incluindo aqueles dados durante os oito anos de governo anterior do general Pervez Musharraf. Na época, os militares não fizeram objeções.

Além disso, a nova ajuda para as necessidades civis é uma adição aos mais de US$ 1 bilhão por ano que os Estados Unidos já dão ao exército paquistanês.

"Esta é uma crise inventada, por pessoas que não leram o projeto de lei e nem querem descrevê-lo corretamente, cuja meta é desestabilizar o governo ou mudar algumas das prioridades dos militares paquistaneses", disse o deputado Howard L. Berman, democrata da Califórnia, que lidera o Comitê de Relações Exteriores da Câmara.

O porta-voz de Zardari, Farhatullah Babar, apareceu na televisão paquistanesa parecendo às vezes ser uma voz solitária em defesa do pacote de ajuda, acusando que a crítica feroz à ajuda americana é na verdade um ataque direto a Zardari.

Talvez mais importante, o projeto de lei colocou os americanos no meio de uma briga entre o presidente Zardari e Kayani em torno da futura liderança do exército. O mandato de três anos de Kayani, com quem os comandantes militares americanos dizem estar desfrutando de um relacionamento cada vez melhor, termina em novembro de 2010.

Zardari poderia querer nomear seu próprio general, disseram políticos paquistaneses, apesar de funcionários do governo Zardari terem dito que o presidente ainda não tomou nenhuma decisão. Acredita-se que Kayani gostaria de uma renovação do mandato, algo inédito na história militar paquistanesa para um general que não serviu como presidente.

Mas Kayani está em alta. Os 10 militantes que atacaram um prédio da inteligência militar pareceram apenas fortalecer a posição dos militares aos olhos do público e dos programas de entrevista patrióticos e agitados do Paquistão.

As dúvidas sobre a solidez da segurança no centro nervoso militar foram compensadas pelos elogios aos comandos que resgataram 39 reféns, alguns deles oficiais que ficaram sentados em uma sala com um homem-bomba por 20 horas.

O exército continua sendo a instituição mais reverenciada do país. Sua irritação com as intrusões americanas se encaixa bem com o amplo sentimento antiamericano presente aqui, que não mudou com o governo Obama.

Surpreendente para os americanos, a raiva contra as condições para o pacote de ajuda é tão ampla que até mesmo os líderes cívicos e advogados, que foram às ruas há dois anos contra Musharraf, não têm defendido a ajuda americana.
  • Romeo Gacad/AFP

    Soldados americanos vigiam base militar ao sul do Afeganistão, próximo à fronteira com o Paquistão



"Críticas vindas de fora afetam o ego paquistanês", disse Athar Minallah, um líder do movimento dos advogados que no final reconduziu ao cargo o ministro-chefe do Supremo Tribunal afastado por Musharraf, Iftikhar Muhammad Chaudhry. "As pessoas perguntam: por que estas ordens devem vir de fora?"

Os paquistaneses tendem a ter boa memória e veem o retrospecto americano de vai e vem no Paquistão com profunda desconfiança, uma história que influencia a postura atual.

Os advogados pareceriam ser as vozes naturais para ajudar a gerar apoio à nova assistência civil. Mas sob o governo Bush, Washington permaneceu notadamente em silêncio quando os advogados investiram contra Musharraf, e os advogados sentem pouca obrigação em ajudar Washington agora.

Um tema comum no Parlamento nos últimos dias foi rotular o US$ 1,5 bilhão por ano de "amendoim" - o mesmo termo usado pelo ditador militar, o general Muhammad Zia ul Haq quando rejeitou os US$ 400 milhões oferecidos pelo presidente Jimmy Carter. Um ano depois, Zia obteve um pacote de US$ 3,2 bilhões em seis anos do presidente Ronald Reagan.

Mas Washington também tem boa memória e o histórico do Afeganistão tem suas infidelidades aos olhos americanos. As autoridades americanas não esqueceram da rede global de proliferação nuclear que era comandada do Paquistão, nem do apoio que o país deu aos grupos terroristas contrários à Índia.

Mas quando se trata do Paquistão, Washington tem se mostrado insensível, disse Maleeha Lodhi, que serviu como embaixadora paquistanesa em Washington na época dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. "A parte ofensiva da legislação transforma o país em ajuda de aluguel e coloca os militares no banco dos réus, presumidamente culpados de muitos crimes e precisando provar sua inocência a Washington."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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