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14/10/2009

Músico muda a tonalidade de um bairro pobre no Brasil

The New York Times
Fernanda Santos
Em Salvador (Brasil)
De uma varanda do Candyall Ghetto Square, um estúdio de gravação e espaço de ensaios para a sua banda de percussão Timbalada, o músico Carlinhos Brown analisa os mundos contrastantes que definem o bairro onde ele cresceu.

Uma casa de tijolos inacabada está à sua esquerda. Isso foi tudo o que o dono teve condições de construir. Atrás dele estão modestas casas de barro em uma via inclinada rebatizada de Rua Bob Marley. Ao lado do campo de futebol lá embaixo vê-se uma fileira de barracos feitos de madeira descartada. No topo das montanhas que rodeiam a área estão os elegantes edifícios nos quais moram os membros da classe alta desta cidade, a terceira maior do Brasil, com cerca de três milhões de habitantes.
  • Eduardo Martins/Agência A Tarde - 25.fev.2009

    O músico Carlinhos Brown no tradicional Arrastão, que percorre na Barra, em Salvador (BA)

"A pobreza não é desculpa para nada", afirmou Brown, 46, em uma recente tarde cinzenta aqui, com os olhos protegidos por enormes óculos escuros. "A pobreza é uma oportunidade".

Brown - um cantor, compositor e percussionista que é um dos artistas mais bem conhecidos do Brasil -, no passado fazia música batucando em tonéis de água que ele levava para casa para a sua mãe, que ganhava a vida como lavadeira. Naquela época, o seu bairro, o Candeal Pequeno, tinha tantas frutas que uma criança só passaria fome se não fosse capaz de subir nas árvores.

Mas, à medida que Salvador cresceu, Candeal, criado naquilo que no passado foi uma faixa de floresta tropical no meio da cidade, tornou-se tão grande e com tanta rapidez que não conseguiu mais se auto-sustentar.
O esgoto corria a céu aberto nas ruas em que as crianças brincavam.
Estradas de chão ficavam alagadas quando chovia, enchendo as casas de lama, lixo e doenças. Ligações ilegais à rede de energia elétrica abundavam, e mesmo assim muitas casas ficavam às escuras durante a noite.

Brown diz que com dinheiro e prestígio veio a percepção de que, para ajudar o seu antigo bairro, ele teria que fazer mais do que simplesmente compor músicas descrevendo os problemas do local.

Quinze anos atrás, ele deu o primeiro passo, fundando uma escola de música para crianças que no passado eram como ele: pobres e com poucas esperanças, mas repletas de sonhos. Ele batizou a escola de Pracatum, em uma alusão ao som emitido pelos tambores tocados com as mãos que são usados em bandas de percussão, instrumentos como o timbaú e o tan-tan.

Assim teve início a profunda transformação de Candeal, que foi ainda mais notável por ter sido promovida por um negro em uma cidade preponderantemente negra e onde os negros raramente são agentes de mudanças.

Brown convenceu os moradores locais a ingressarem em uma associação civil que ele criou e passou a pressionar todo mundo com quem se
encontrava: políticos, filantropistas e dignatários como o rei Juan Carlos da Espanha, que visitou Candeal em 2005, e o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Clifford M. Sobel, que foi ao local em fevereiro deste ano. "No dia em que a minha rua foi pavimentada, eu percebi que poderia realizar qualquer coisa", diz Maria José Menezes dos Santos, 68, integrante ativa da associação que mora no bairro há 38 anos e que nele criou os 11 filhos.

Candeal possui uma localização privilegiada, próxima à praia e a meio caminho entre a cidade velha de Salvador e o seu novo centro financeiro.
Ele não é uma favela nem uma invasão - comunidades ilegalmente construídas em terrenos vazios. Mas o bairro tem alguns elementos das duas coisas. A única pesquisa ampla que foi realizada no bairro até hoje, feita em 1997, concluiu que quase um quinto dos seus 5.500 moradores constituía-se de desempregados e que quatro em cada cinco ganhavam US$ 80 (R$ 138) ou menos por mês. Além disso, a pesquisa revelou que 25% das casas corriam o risco de desabar.

Embora a Escola Pracatum tenha produzido uma lista de músicos talentosos - pessoas como Leo Bit Bit, que toca na banda Scorpions; os gêmeos Du e Jo, que tocam com Caetano Veloso; e Marivaldo dos Santos, que toca no "Stomp" -, a associação passou a trabalhar para resolver os problemas de Candeal. Ela persuadiu a secretaria de saúde a abrir uma clínica lá, a primeira do bairro. A escola arrecadou verbas para construir e renovar mais de 200 casas e rebocar e pintar 60 outras. Ela convenceu a prefeitura a instalar uma rede de esgoto e reformar uma fonte pública de água que muitas famílias utilizam para lavar as suas roupas.

Neste ano, os moradores uniram-se para consertar o arruinado campo de futebol, a única fonte de lazer para muitas das crianças que moram no bairro.

"Antigamente as pessoas procuravam maneiras de se mudar daqui devido ao aspecto do local", conta Mário Sena, 27, o morador de Candeal que foi o primeiro a matricular-se na Pracatum e que agora é o diretor do estúdio musical da escola. "Agora ninguém mais quer partir. Candeal é pobre, mas tem dignidade".

Orgulho do lugar de onde vieram é o que Brown afirma desejar passar para os moradores de Candeal, por meio da sua música e do seu trabalho social, e, ao que parece, ele está tendo sucesso. Em uma oficina de moda criada pela Escola Pracatum três meses atrás, por exemplo, 20 mulheres que nunca antes tinham pegado em uma agulha decidiram usar o seu bairro e os seus vizinhos como inspiração para uma linha de joias e cordões.

Uma aluna gravou em uma placa, "Dá-se escova", imitando um cartaz pendurado em um salão de beleza local. Uma outra, Elaine Gualberto, 21, costurava em um pedaço de pano a sua própria versão do santo que é patrono do bairro, Santo Antônio, um negro com bata de padre e penteado afro.

"É muito bom morar em Candeal", diz Elaine, que nasceu e foi criada no bairro. "Todo mundo conhece o lugar. Carlinhos Brown o colocou no mapa".

Brown, que usa as sua longas tranças dentro de uma boina, um estilo que foi copiado por um grupo de jovens que um dia desses estavam em frente a Escola Pracatum, afirma que as mudanças foram possibilitadas pelo esforço coletivo da comunidade. "Tudo o que fiz foi usar o meu nome para fazer com que as pessoas escutassem", afirma o músico.

"Não sou melhor nem mais inteligente do que ninguém", afirma Brown. "Mas, toda vez em que encontrava uma porta fechada, eu a escancarava".

Tradução: UOL

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