UOL Notícias Internacional
 

20/10/2009

Irã faz ameaça velada enquanto negociações nucleares começam

The New York Times
David E. Sanger
Em Viena (Áustria)
Na segunda-feira, o Irã deu início a dois dias de negociações nucleares com os Estados Unidos, Rússia e França com uma ameaça pública velada de que poderia recuar de um acordo para envio de mais de três quartos de seu estoque de combustível nuclear para fora do país, a menos que o Ocidente ceda às exigências iranianas de fornecimento de novo combustível.

No final de uma sessão de quase quatro horas, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, disse pouco a respeito das negociações exceto que "começamos bem".

Outros participantes nas negociações, que encheram um grande salão de conferências na sede da agência, disseram que apesar dos representantes do Irã não terem rejeitado a ideia do envio do combustível do país para a Rússia e França para enriquecimento adicional, seus negociadores não reafirmaram as declarações feitas pelo país nas negociações de 1º de outubro.

"Esta foi uma postura de primeiro dia", disse um participante, se recusando a ser identificado porque todos os lados concordaram em não discutir detalhes específicos das negociações. "Os iranianos são experientes nisso e era de se esperar que sua posição inicial não seria aquela que você deseja ouvir."

As negociações são anunciadas como um encontro de peritos técnicos, mas muito mais está em jogo. Se o Irã seguir seu plano de usar seu próprio combustível pouco enriquecido - produzido em violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU - para abastecer um reator em Teerã usado para fins medicinais, as autoridades americanas disseram que fazê-lo afastaria, por cerca de um ano, o temor de que o Irã poderia usar o combustível para produção de uma arma nuclear. Depois disso, a produção contínua de urânio pelo Irã reabasteceria seus estoques.

"Nosso objetivo e retirar do país uma quantidade considerável de urânio pouco enriquecido, tornando o mundo mais seguro", disse Robert Gibbs, o secretário de imprensa do presidente Obama, em uma coletiva de imprensa na Casa Branca.

Um alto funcionário do governo disse que, "até o final desses próximos dois dias, nós saberemos se os iranianos estão falando a sério e se teremos tempo" para dar continuidade à diplomacia, sem temer que o Irã esteja correndo para produzir uma arma com combustível anunciado para outros propósitos.

As declarações públicas do Irã a respeito do acordo deste mês não foram totalmente negativas; algumas expressaram apoio ao acordo. Funcionários americanos disseram que ainda não podem determinar a posição real do Irã, caso ela já tenha sido decidida.

"Publicamente, é difícil para eles serem vistos fazendo uma concessão", disse um funcionário americano. "Mas talvez eles já tenham decidido, por motivos próprios, que isso estabelece um precedente que eles gostam, porque legitimiza de certa forma o combustível que produziram quando o Conselho de Segurança ordenou que parassem."

O negociador-chefe do Irã não participou da sessão daqui, trazendo lembranças da diplomacia nuclear na guerra fria, quando União Soviética e Estados Unidos frequentemente se encontravam em territórios comparativamente neutros da capital austríaca. A delegação do Irã foi liderada pelo seu embaixador na Agência Internacional de Energia Atômica, Ali Asghar Soltanieh. Alguns participantes saíram da reunião com a impressão de que as instruções de Soltanieh eram de arrastar as negociações.

Até o momento, aparentemente o Irã não enriqueceu o combustível além de 5%, o nível necessário para reatores. Um enriquecimento de 90% ou mais é necessário para uma arma sofisticada.

No domingo, a Agência Internacional de Energia Atômica supostamente começará a inspecionar o centro de enriquecimento de urânio recém revelado perto de Qom.

A proposta sendo negociada nasceu do pedido do Irã de reabastecer o pequeno reator médico, que há muito é submetido a inspeções internacionais e não é considerado parte de um programa de armas nucleares. Na metade do ano, o principal assessor de controle de armas de Obama, Gary Samore, apresentou uma proposta para testar as declarações do Irã de que está enriquecendo urânio apenas para usos pacíficos: oferecer ajuda ao Irã para fabricar combustível para o reator, mas apenas a partir de seus próprios estoques. Segundo a maioria das estimativas, o estoque total conhecido de combustível do Irã seria suficiente para uma ou duas bombas, caso fosse ainda mais enriquecido.

Se ele exportar 1.200 quilos desse combustível, a quantidade que diz precisar para o reator médico, para refino adicional no exterior, os especialistas dizem que o país não seria capaz de repor esse combustível em um ano. A Rússia aprovou a ideia, mais recentemente quando o presidente Dmitri A. Medvedev se encontrou com Obama na ONU, no mês passado. Deixar o combustível existente no país seria perigoso demais, disseram os Estados Unidos, Europa e Israel, dada o histórico do Irã de ocultar atividades nucleares dos inspetores internacionais.

"As negociações serão um teste da sinceridade desses países", disse Ali Sharisdian, o porta-voz da Organização de Energia Atômica Iraniana. "Se as negociações fracassarem ou os vendedores se recusarem a fornecer ao Irã o combustível que precisa, o Irã enriquecerá urânio ao nível de 20% que precisa."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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