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23/10/2009

Para os americanos, deixar o Iraque é uma façanha que exige um Exército

The New York Times
Marc Santora
Joint Base Balad (Iraque)
Não há sinal maior de que os Estados Unidos estão deixando a guerra do Iraque para trás do que a colossal operação para retirada de seus materiais: 20 mil soldados, quase um sexto da força local, designados para um esforço logístico focado em desmantelar cerca de 300 bases e embarcar de volta 1,5 milhões de peças de equipamentos, de tanques a máquinas de café.

Trata-se da maior movimentação de soldados e material em mais de quatro décadas, segundo os militares.
  • Jim Young/Reuters

    Diante de plateia composta por militares em base na Carolina do Norte, o presidente dos EUA, Barack Obama, anuncia seu plano para a retirada de tropas do Iraque, em fevereiro deste ano

Por si só, uma retirada como essa já seria intimidante, mas é ainda mais complicada por causa dos ataques de uma insurgência que permanece ativa; as sensibilidades do governo iraquiano a respeito de uma presença visível dos EUA; desacordos com os iraquianos sobre o que será deixado para eles; e considerações sobre quais equipamentos são urgentemente necessários no Afeganistão.

Por todo o tempo, o exército precisa manter sua força atual de 124 mil tropas ao longo do país, transportando combustível, alimentos e outros suprimentos essenciais, enquanto determina o que deixar para os 50 mil soldados que permanecerão no local, num papel principalmente de aconselhamento, até 2011.

"É um verdadeiro cubo mágico", disse o brigadeiro-general Paul L. Wentz, comandante dos soldados de logística do exército, durante uma entrevista realizada neste enorme complexo militar ao norte de Bagdá, que servirá como centro de comando para o esforço de retirada.

Porém, assim como o desenvolvimento no deserto kuaitiano - antes da invasão de 2003 - deixou claro que os Estados Unidos estavam quase certos que iriam à guerra, as preparações para a retirada apontam com a mesma clareza para o final do papel militar dos americanos por aqui. Reverter este processo, mesmo se a relativa estabilidade no Iraque se deteriorar em violência, fica mais difícil a cada dia que passa.

A escala da retirada é impressionante. Considere uma comparação com a primeira Guerra no Golfo Persa, em 1991: ela durou 1.012 horas, ou cerca de seis semanas, e quando acabou, o tenente-general William G. Pagonis, responsável pelas operações logísticas do exército na ocasião, escreveu um livro, "Movendo Montanhas" (Harvard Business Press Books, 1992), sobre os desafios de mover soldados e equipamentos para dentro e para fora do palco.

Ele afirmou que a tarefa era o equivalente a mover todas as pessoas do Alasca, com seus pertences, ao outro lado do mundo, "sem aviso prévio".

A atual guerra no Iraque durou mais de 57 mil horas, ou mais de seis anos e meio. Agora, o filho de Pagonis, o Coronel Gust Pagonis, é um dos principais especialistas em logística designados com a tarefa de descobrir como resgatar a América do meio do deserto.

"Quando disse a meu pai qual era minha missão, ele apenas riu e disse boa sorte", contou Pagonis.
  • Maya Alleruzzo/AP

    Soldados americanos se preparam para retirada das tropas dos EUA de cidades iraquianas



Uma redução substancial nas tropas não está agendada para ter início até depois das eleições nacionais, em janeiro. Todavia, as preparações para essa retirada podem ser vistas nas estradas de todo Iraque, com uma média de 3.500 caminhões por noite atravessando o país em missões de apoio e redisposição.

Em grande parte, os militares já identificaram quais materiais não são mais essenciais, e começaram a retirá-los do país, em alguns casos para o Afeganistão. Por exemplo, madeira, munição e barreiras usadas para defesa contra carros-bomba são todos desesperadamente necessários em território afegão, e conforme as bases são desmontadas aqui, esses itens estão entre aqueles enviados para a luta de lá, afirmam os comandantes.

Em agosto, cerca de três mil contêineres de embarque e dois mil veículos foram enviados para fora do Iraque, e os envios pesados estão apenas começando.

"Quando as equipes de combate de brigada saírem, quero estar numa posição onde eu não tenha de lidar com o equipamento e o material em excesso ao mesmo tempo", disse Wentz. Numa sala de conferências da base, dúzias de soldados monitoram os movimentos de cada caminhão americano no país em duas enormes televisões de tela plana, usando tecnologia GPS e comunicação via rádio, para obter informações atualizadas sobre ataques e o progresso dos comboios. Cada movimento é planejado com 96 horas de antecedência para dar tempo à ensaios e reajustes.

Conforme o ritmo da retirada é acelerado, o exército dos EUA também precisa acalmar as preocupações dos políticos iraquianos, que querem uma discrição maior das tropas americanas - assim, a maioria das missões precisa ser realizada na escuridão da noite.

Os americanos esperam, até a próxima primavera, estar operando o que descrevem como um sistema "hub-and-spoke", com seis bases muito grandes e 13 menores. Menos bases significam viajar maiores distâncias, sofrendo maiores riscos.

"A distância entre dois pontos não fica mais curta", disse Gust Pagonis, afirmando que os técnicos em logística sob seu comando - conhecidos como "loggies" - também são guerreiros. Entregar as antigas bases aos iraquianos, e decidir o que dar a eles, provou estar entre os maiores desafios.

Até maio, não havia nenhum sistema nem mesmo para definir quem era legalmente o dono da propriedade onde os americanos haviam montado acampamento. Isso levou a cenas como a do Forward Operating Base Warhorse, onde um comandante iraquiano local apareceu e essencialmente exigiu alguns itens que os americanos não estavam prontos para entregar.

Assim, na última primavera, foram organizados painéis formados por autoridades iraquianas e dos Estados Unidos para ajudar a definir algumas dessas questões.

O Congresso dos Estados Unidos limitou o valor total de equipamentos - como computadores, telefones e mobiliário - que o exército pode deixar aos iraquianos em aproximadamente US$15 milhões por base, mas essa quantidade não inclui itens considerados parte da infra-estrutura, como prédios, sistema de esgotos e estações de energia.

Até mesmo chegar a um valor para alguns dos investimentos dos EUA é difícil, pois em muitos casos os custos iniciais foram inflados por grandes desperdícios para segurança. Os comandantes dizem que muitas vezes é simplesmente mais econômico entregar equipamentos aos iraquianos, pois o custo de mudança é proibitivo.

Em setembro, o exército anunciou o fim de suas operações de detenção em Camp Bucca, na fronteira com o Kuwait, e disse que o equivalente a US$50 milhões em infraestrutura e equipamentos seria dado aos iraquianos.

Os Estados Unidos também fecharam um contrato com uma rede iraquiana de transportes, comandada por uma coalizão de xeiques tribais, para transportar equipamentos que não são considerados sensíveis entre as bases. Os transportadores atualmente levam 3% de todos os materiais americanos aqui, segundo os comandantes.

Os comandantes também disseram que iriam olhar de perto as eleições de janeiro, o que dirão a respeito da confiabilidade nas forças de segurança do Iraque e a direção que o país está tomando. Entretanto, para os autores do plano de retirada, não há tempo para esperar para ver.

"Você não pode ficar esperando pelo momento certo", disse o brigadeiro-general Heidi Brown, subcomandante encarregado de supervisionar a retirada. "Isso não lhe dá flexibilidade. Isso apenas o coloca dentro de uma caixa".

Tradução: Pedro Kuyumjian

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