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25/10/2009

Avanço tecnológico: cegos podem voltar a enxergar

The New York Times
Pam Belluck
Barbara Campbell começou a ficar cega na adolescência, e, perto dos 40 anos, sua doença acabou com o que havia sobrado da sua visão. Confiante em um computador que lê em voz alta e uma bengala para andar por Nova York, onde mora e trabalha, Campbell, agora com 56 anos, faria de tudo para ver alguma coisa. Qualquer coisa.

Agora, que está fazendo parte de um experimento surpreendente, ela pode. Campbell já consegue detectar a armação do seu espelho, as bocas do fogão para fazer sanduíche de queijo grelhado, e identificar se o monitor do seu computador está ligado.
  • Bruno Miranda/Folha Imagem

    Mulher caminha em uma plataforma do metrô
    de São Paulo com o auxìlio de um cão-guia



Ela está iniciando um intensivo projeto de pesquisa de três anos, que envolve uma retina artificial: eletrodos cirurgicamente implantados em seus olhos, uma câmera na parte superior do seu nariz e um processador de vídeo amarrado em sua cintura.

Alguns dos outros 37 participantes que estão no projeto há mais tempo já conseguem diferenciar pratos de xícaras, grama de calçada, encontrar meias brancas entre as escuras, distinguir portas e janelas, identificar letras grandes do alfabeto, e ver onde as pessoas estão, contudo, sem muito detalhes.

Linda Morfoot, 65 anos, de Long Beach, Califórnia, cega há 12 anos, diz que agora pode arremessar uma bola na cesta de basquete, andar com os seus netos pela sala, e "ver onde está o pastor" na igreja.

"Para quem já foi totalmente cego, isso é realmente extraordinário", disse Andrew P. Mariani, diretor do programa no Instituto Nacional de Olhos. "Eles conseguem recuperar um pouco da visão".

Os cientistas envolvidos no projeto dizem que eles têm planos de desenvolver a tecnologia e permitir que essas pessoas leiam, escrevam e reconheçam rostos.

O projeto, envolvendo pacientes dos Estados Unidos, México e Europa, é parte de uma pesquisa explosiva recente, focada em um dos maiores desafios da ciência: fazer o cego enxergar.

Tal meta parecia fora de alcance porque o sistema visual do olho e do cérebro é muito complexo. Porém, os avanços na tecnologia, genética, ciência cerebral e biologia estão tornando várias abordagens mais viáveis. Algumas, incluindo a retina artificial, já estão produzindo resultados.

"Por muito tempo, os cientistas e médicos foram muito conservadores, mas uma hora ou outra você deve sair do laboratório e focar os experimentos clínicos em humanos reais," disse Timothy J. Schoen, diretor de ciência e desenvolvimento pré-clínico da Foundation Fighting Blindness. Agora, "temos um incentivo real," disse ele, porque "existem muitas pessoas cegas, e nós temos que ajudá-las."

Mais de 3.3 milhões de americanos com 40 anos ou mais, mais ou menos de 1 a cada 28, são cegos ou têm tão pouca visão que até mesmo com óculos, remédio ou cirurgia, não conseguem executar as tarefas diárias, segundo o Instituto Nacional de Olhos, uma agência federal. É provável que esse número dobre nos "próximos 30 anos". Mundialmente, cerca de 160 milhões de pessoas estão nessas condições.

"Com uma população cada vez mais idosa, é obvio que isso será um cada vez maior,"disse Michal D. Oberdorfer, administrador do programa de neurociência visual do instituto, responsável por financiar vários projetos de restauração visual, incluindo a retina artificial. Pesquisas de ampla abrangência são importantes, disse ele, pois diferentes métodos poderiam ajudar diferentes causas da cegueira.

As abordagens do estudo incluem a terapia gênica, que tem melhorado a visão de pessoas cegas devido a uma doença congênita rara. Pesquisas de células-tronco são consideradas promissoras, embora longe de produzirem resultados. Outros estudos envolvem uma proteína que responde à luz e transplantes de retina.
  • Marlene Bergamo/Folha Imagem

    Os cientistas americanos acreditam ser possível criar uma tecnologia para permitir que cegos possam ler, escrever e reconhecer rostos



Os pesquisadores também estão implantando eletrodos em cérebros de macacos para verificar se áreas visuais estimuladas diretamente podem fazer com que pessoas sem funções visuais consigam enxergar.

Recentemente, Sharron Kay Thornton, 60 anos, de Smithdale, Mississippi, cega por uma doença de pele, voltou a enxergar com um olho depois que os médicos da Universidade de Miami, da Faculdade de Medicina Miller, extraíram um dente canino, que foi raspado, usado como base para lentes de plástico e substituíram sua córnea.

Foi a primeira vez que o procedimento, Osteo-Odonto-Queratoprotesis, foi realizado nos Estados Unidos. O cirurgião, Dr. Victor L. Perez, disse que a cirurgia pode ajudar as pessoas com córneas severamente danificadas por produtos químicos ou combate.

Outras técnicas focam no retardamento da cegueira, incluindo uma que envolve uma cápsula implantada no olho para liberar proteínas capazes de atrasar a morte das células que respondem à luz. Em um sistema chamado BrainPort, uma câmera usada por um cego capta imagens e transmite sinais para eletrodos na língua, causando sensações de formigamento que possibilitam à pessoa conseguir decifrar o local e o movimento de objetos.

A retina artificial de Campbell funciona da mesma maneira, porém não gera o formigamento na língua. Desenvolvida pelo Dr. Mark S. Humayun, cirurgião de retinas na Universidade do Sul da Califórnia, foi usada em implante coclear para os surdos e está parcialmente financiado um fabricante de implantes de cóclea.

Tem sido também usada em pessoas com retinite pigmentosa, na qual células fotorreceptoras, responsáveis por captar luz, se deterioram.

Gerald J. Chader, chefe científico do Instituto da Retina da Universidade do Sul da Califórnia, onde Humayun trabalha, disse que deveria também funcionar para degeneração macular relacionada à idade.

No caso da retina artificial, uma camada de eletrodos é implantada no olho. A pessoa usa óculos com uma câmera minúscula, capaz de captar as imagens que um receptor de vídeo traduz em padrões de claro e escuro, como a "imagem pixelizada vista no placar dos estádios," disse Jessy D. Dorn, cientista pesquisador do Second Sight Medical Products, empresa produtora do aparelho, em colaboração com o Departamento de Energia (outro grupo de pesquisadores está desenvolvendo aparelhos similares).

O captador de vídeo direciona cada eletrodo para transmitirem sinais representando o contorno de um objeto, o brilho e o contraste, que pulsa até os neurônios ópticos no cérebro.

Atualmente, "é uma imagem muito imprecisa", disse Dorn, porque o implante tem apenas 60 eletrodos; muitas pessoas vêem apenas flashes ou feixes de luz.

Brian Mech, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Second Sight's, disse que a empresa estava procurando por aprovação federal para vender a versão de 60 eletrodos, o que custaria 100 mil dólares e poderia ser coberto pelo seguro. Também planejamos a versão 200 e 1.000 eletrodos; um número maior pode fornecer resolução suficiente para leitura.

"Cada indivíduo recebeu um tipo de recepção visual", disse Mech. "Há pessoas que não estão impressionadas com os resultados, enquanto outras estão super satisfeitas"

Dean Lloyd, 68 anos, advogado de Palo Alto, Califórnia, ficou "muito decepcionado" quando ele começou a usar o aparelho em 2007, mas desde que seu implante foi ajustado e mais eletrodos responderam, ele disse estar "muito mais feliz". Ele usa o aparelho constantemente, e pode ver "cantos e limites" e flashes de objetos altamente refletores como vidro, água ou olhos.

Campbell, conselheira de reabilitação vocacional da Comissão de Nova Iorque para os Cegos e Deficientes visuais, tem, há muito tempo, saído sozinha do seu apartamento, localizado no quarto andar, ido ao teatro, e cuidado de sua sobrinha na Carolina do Norte.

Entretanto, algumas pequenas coisas a deixam irritada, como nao saber se as roupas estão manchadas e precisar de ajuda para comprar cartões de aniversário. Tudo é um "nevoeiro acinzentado, como se eu estivesse dentro de uma nuvem" ela disse.

O aparelho não a fará "ver como antigamente", disse ela. "Mas vai ser muito mais do que eu tenho. Não é apenas para mim. É para tantas outras pessoas que me seguirão".

Tradução: Fernanda Goulart

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