UOL Notícias Internacional
 

25/10/2009

Para uma paróquia anglicana, um caminho para o catolicismo

The New York Times
Laurie Goodstein
Em Rosemont (EUA)
Quando o Vaticano anunciou na última semana que acolheria grupos de anglicanos tradicionalistas na Igreja Católica Romana, líderes de uma paróquia episcopal celebraram como se um navio tivesse chegado para resgatá-los de um bloco de gelo à deriva.

"Estivemos rezando por isso diariamente durante dois anos", disse o bispo David L. Moyer, que lidera a Igreja do Bom Pastor, uma paróquia no subúrbio de Main Line, na região metropolitana da Filadélfia, que está lutando para manter sua propriedade histórica. "Quando ouvi a notícia, fiquei sem fala; então vieram a alegria e as lágrimas".

A paróquia pode ser uma das primeiras nos Estados Unidos a se converter em massa depois que o Vaticano concluir os planos de uma nova estrutura que permita aos anglicanos se tornarem católicos mantendo muitas de suas tradições espirituais, como o Livro de Oração Comum e os padres casados.

O arranjo foi feito especialmente para uma paróquia "anglo-católica" como esta, que se opôs vigorosamente a decisões da Igreja Episcopal como a de permitir que homens homossexuais e mulheres se tornassem padres e bispos. A missa aqui é celebrada no estilo da "alta igreja" reminiscente das igrejas católicas tradicionais, com incenso, vestes elaboradas e um coro que pode cantar em latim.

"A maioria de nossos membros embarcará na mudança", disse o reverendo Aaron R. Bayles, pastor assistente, enquanto terminava de celebrar uma missa do meio-dia dedicada à unificação da igreja numa pequena capela iluminada por velas azuis.

Ele disse que se sentiu jubiloso quando ficou sabendo da notícia do Vaticano porque sempre esperou ver a unificação das igrejas Anglicana, Ortodoxa Oriental e Católica Cristã.

"Este pode ser um passo nessa direção", disse Bayles, novo coadjutor e capelão da Guarda Aérea Nacional. (O primeiro coadjutor deixou a igreja para se tornar católico.)

A Igreja do Bom Pastor estava há tempos em desavença com a Igreja Episcopal, o braço americano da Comunhão Anglicana global. Este ano, a Diocese Episcopal da Pensilvânia entrou com um processo para assumir o prédio da igreja, uma magnífica réplica em pedra de uma paróquia de interior inglesa do século 14, que foi construída em 1894. A propriedade da igreja é estimada por seu contador em US$ 7 milhões.

Por 17 anos, a paróquia recusou-se a permitir que o bispo episcopal local viesse para uma visita pastoral ou confirmação, e depois parou de pagar sua taxa financeira anual para a Diocese Episcopal da Pensilvânia.

Até o título e o status do padre da paróquia são sinal do conflito. Moyer não é um bispo na Igreja Episcopal, mas usa esse título porque foi consagrado bispo na Comunhão Anglicana Tradicional, um grupo conservador dissidente que desempenhou um papel crucial em persuadir o Vaticano a acolher os anglicanos.

Na sala de estar de seu escritório, onde ele tem fotos enquadradas do papa João Paulo 2º e do papa Bento 16, Moyer disse que foi um dos 38 bispos da Comunhão Anglicana Tradicional a assinar uma petição ao papa Bento 16 em outubro de 2007 pedindo um novo arranjo que unisse os anglicanos com a Igreja Católica.

Ele disse que os bispos assinaram solenemente uma cópia do Catecismo da Igreja Católica para simbolizar sua total aceitação da doutrina católica. Enquanto isso, a Comunhão Anglicana global, com 77 milhões de membros, lutou para se manter intacta à medida que os conservadores se separavam ou protestavam internamente. Alguns eram anglo-católicos, mas outros eram anglicanos evangélicos, dedicados a uma interpretação conservadora das escrituras e atentos a Roma e à autoridade papal.

No documento que define o arranjo, o Vaticano diz que permitiria padres anglicanos casados, mas não bispos casados. Moyers, pai de três filhos, disse que está esperando ouvir se ele e outros bispos podem ser exceções à regra.

Ele reconheceu que alguns dos 400 membros de sua paróquia prefeririam deixar a igreja a se tornarem católicos. Alguns são ex-católicos que podem não querer voltar. Outros se sentem leais à Igreja Episcopal, apesar do conflito.

Mas Lynn Shea, fiel da paróquia Bom Pastor há dez anos, disse que não ligava para qual denominação a paróquia pertencesse desde que o serviço religioso fosse reverente, a comunidade fosse unida e o pastor fosse um professor genuíno.

"Para nós não importa muito qual é exatamente o título da igreja, só importa como as pessoas são com as outras pessoas", disse ela. Seu filho de 15 anos se suicidou neste ano e ela sentiu que a Igreja acolheu sua família.

Shea disse que conhece alguns membros da paróquia que podem resistir, porque têm memórias ruins das igrejas e escolas católicas rígidas, ou impressões ruins por causa dos escândalos de abuso sexual envolvendo padres católicos.

Moyer disse que ele se tornou cada vez mais ansioso para entrar na Igreja Católica à medida que o chão sob seus pés se tornou cada vez mais instável. Em 2002, seu antigo bispo diocesano, Charles E. Bennison, o excomungou por ele ter se recusado a se submeter à autoridade do bispo, mas Moyer continuou no cargo. (O próprio Bennison foi excomungado em 2008 depois que um julgamento da igreja descobriu que ele havia encoberto durante anos o abuso sexual de uma menina cometido por seu irmão, que também é padre.)

Mesmo com o aumento das disputas, a Igreja do Bom Pastor nunca deixou formalmente a Igreja Episcopal, diferentemente de muitas outras paróquias conservadoras e quatro dioceses. Grande parte do motivo é que a Bom Pastor não queria ser expulsa de suas propriedades. Outras paróquias conservadoras perderam no tribunal o direito de manter suas propriedades ao tentarem sair da Igreja Episcopal.

Moyer vive na reitoria da paróquia. Ele disse que espera resolver o "atoleiro legal" da igreja em relação ao prédio antes que decidam ir para a Igreja Católica. Ao abrir a porta de madeira que dá para a entrada de carros em frente à igreja, cena parecia um cartão postal de Kent, na Inglaterra, em um magnífico dia de outono.

"É uma bela igreja", disse ele. "Espero que possamos ficar com ela."

Tradução: Eloise De Vylder

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