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27/10/2009

Guerra de verdade agora faz parte da missão alemã no Afeganistão

The New York Times
Nicholas Kulish, em Kunduz (Afeganistão)
Obrigado a enfrentar a crescente insurgência no outrora pacífico norte do Afeganistão, o exército alemão está envolvido em combates terrestres contínuos e sangrentos pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

Perto da cidade de Kunduz, no norte do país, soldados da Alemanha estão tendo que responder a uma campanha cada vez mais feroz dos insurgentes talebans. Eles carregam o fardo especial de serem uma das primeiras unidades a quebrar o tabu alemão contra combates militares no exterior desde a era nazista.
  • Romeo Gacad/AFP

    Soldados americanos vigiam base militar ao sul do Afeganistão, próximo à fronteira com o Paquistão



Não se sabe por quanto tempo a oposição na Alemanha permitirá que as tropas permaneçam no Afeganistão e lutem, e nem se elas terão permissão para abandonar as regras estritas de combate a que estão sujeitas a fim de que possam fazer um trabalho de contra-insurgência que é defendido pelos generais norte-americanos. A questão agora é saber se os norte-americanos acabarão travando um tipo de guerra diferente daquele que é conduzido pelos outros aliados.

Para os alemães, a percepção de que os seus soldados estão no momento engajados em ofensivas terrestres em uma guerra sem prazo para terminar e que se intensifica cada vez mais exige uma reavaliação fundamental dos princípios que norteiam o país.

Após a Segunda Guerra Mundial, a sociedade alemã rejeitou o uso da força militar, a não ser para auto-defesa, e o pacifismo é uma causa defendida há várias gerações, o que tem frustrado os pedidos de apoio militar que não seja para assistência humanitária feitos pelos aliados. Mas nos últimos anos os líderes alemães vêm se afastando dessas restrições ao combate, e isso ficou particularmente claro nos ataques aéreos durante a guerra do Kosovo.

Mesmo assim, o legado da proibição de missões de combate persiste na forma de regras estritas para enfrentamento e uma mentalidade enraizada segundo a qual só se deve atirar como último recurso, que têm gerado tensões significativas com os Estados Unidos no Afeganistão.

Movidos pelas necessidades, os cerca de 4.250 soldados alemães que estão aqui, o terceiro maior contingente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país, já afastaram-se bastante dessa tradição.

Em 20 de outubro, eles forneceram cobertores, bolas de vôlei e lanternas como gesto de boa vontade aos moradores da aldeia de Yanghareq, que fica cerca de 35 quilômetros a noroeste de Kunduz. Cerca de uma hora depois, insurgentes portando metralhadoras e lançadores de granadas emboscaram outros membros da mesma companhia. Os alemães reagiram, matando um dos atacantes, antes que a poeira e a confusão tornassem impossível distinguir os talebans em fuga dos civis.

"Se eles atiram contra nós, nós atiramos de volta", diz o sargento Erik, S, que, segundo as regras das forças armadas alemãs, não pode revelar o seu nome completo. "Vai morrer gente dos dois lados. É simples assim.
Isto aqui é uma guerra".

"A palavra 'guerra' está ressoando cada vez mais alto na sociedade, e os políticos não podem mais mantê-la em segredo", acrescentou o militar.

De fato, os políticos alemães têm se recusado a pronunciar essa palavra, tentando em vez disso retratar a operação no Afeganistão como uma mistura de missão de paz e de reconstrução, em apoio ao governo afegão.
Mas essa imagem está ficando cada vez menos plausível à medida que a insurgência expande-se rapidamente no oeste e no norte do país, onde a Alemanha lidera o comando regional e fornece a maioria das tropas.
  • Joint Staff/Reuters - 8.abr.2006

    O general Stanley McChrystal, principal comandante americano no Afeganistão, está pressionando os aliados da Otan para que estes contribuam com mais tropas para a guerra



Os alemães podem não ter ido à guerra, mas agora a guerra veio até eles.

Autoridades alemãs e da Otan dizem que isso é, em parte, uma evidência da astúcia política do Taleban e dos líderes da Al Qaeda, que estão conscientes da oposição à guerra na Alemanha. Eles esperam capitalizar isso e forçar os soldados alemães a se retirarem - desta forma cindindo a aliança da Otan -, por meio de ataques contra militares alemães no Afeganistão e de ameaças de ataque terroristas em solo alemão, gravadas em áudio e vídeo, e exibidas antes das eleições alemães do mês passado.

O general Stanley McChrystal, o principal comandante estadunidense e aliado no Afeganistão, está pressionando os aliados da Otan para que estes contribuam com mais tropas para o esforço de guerra, ainda que países como a Holanda e o Canadá estejam discutindo planos para uma retirada. Até o momento a Alemanha tem resistido aos apelos para que envie mais soldados ao Afeganistão.

As relações entre a Alemanha e os Estados Unidos ficaram tensas no mês passado devido a um bombardeio aéreo, ordenado pelos alemães, contra dois caminhões-tanques capturados pelos insurgentes, que matou tanto civis quanto combatentes talebans. Muitos alemães, de políticos de alto escalão a soldados, acharam que McChrystal apressou-se ao condenar o ataque antes que fosse feita uma investigação completa.

As tropas de combate alemãs foram pegas em meio a esse desentendimento.
Em entrevistas concedidas à imprensa na semana passada, soldados da 3ª Companhia, do 391º Batalhão de Infantaria Motorizada, disseram que estão carecendo de mais tropas para a missão cada vez mais complexa. Dois membros da companhia foram mortos em junho. Até agora 36 soldados alemães morreram na guerra afegã.

Os soldados manifestaram frustração devido às dúvidas lançadas quanto ao ataque aéreo. Essas dúvidas foram manifestadas não só pelos aliados, mas também pelos próprios políticos alemães. Além disso, eles ressentem-se da falta de apoio popular na Alemanha.

Embora a intensidade da insurgência taleban no sul do Afeganistão tenha recebido a maior parte das atenções, a situação do setor alemão no norte do país está se deteriorando rapidamente. Os soldados dizem que há apenas um ano eram capazes de conduzir patrulhas em veículos não blindados. Agora há regiões nas quais eles não podem se deslocar nem mesmo em veículos blindados, a não ser com o apoio de uma companhia inteira de soldados.

Autoridades norte-americanas têm argumentado que uma ênfase na missão de reconstrução e de paz, bem como em evitar a violência, têm proporcionado ao Taleban uma base sólida para retornar ao norte do país.

Oficiais alemães aqui dizem que ajustaram as suas táticas à essa mudança, e que muitas vezes trocam tiros com o Taleban durante horas, com apoio aéreo próximo. Em julho deste ano, 300 soldados alemães juntaram-se à polícia nacional e ao exército afegão em uma operação na província de Kunduz que matou mais de 20 talebans e resultou na prisão de mais seis insurgentes.

O jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" classificou a operação de "uma transição fundamental de uma postura defensiva para outra ofensiva".

As ações militares da Alemanha são controladas por uma autorização parlamentar, que deverá ser submetida à renovação em dezembro. Fazem parte do contingente alemão aviões não tripulados e desarmados e caças Tornado, que estão restritos a missões de reconhecimento, não contando com permissão para conduzirem operações de ataque.

Os soldados alemães geralmente permanecem no Afeganistão por apenas quatro meses, algo que pode fazer com que seja difícil manter a continuidade dos trabalhos com os seus parceiros afegãos. A autorização parlamentar também impõe um limite de 4.500 soldados ao contingente alemão no país.

Uma autoridade da Otan, que deu entrevista com a condição que o seu nome não fosse revelado, já que ela não tem autorização para falar publicamente sobre o assunto, chamou a autorização parlamentar de "camisa de força".

Uma companhia de paraquedistas alemães no distrito de Chahar Darreh, onde a atividade insurgente é particularmente intensa, repeliram uma série de ataques e permaneceram na área, patrulhando o local a pé e reunindo-se com anciões locais durante oito dias e sete noites.

"Quanto mais tempo estivemos lá, melhor foi a resposta da população à nossa presença", diz o capitão Thomas K., o comandante da companhia. Uma outra companhia assumiu o lugar deles durante três dias, mas a seguir abandonou a posição onde, segundo informações da inteligência, haveria uma bomba aguardando o próximo grupo de soldados alemães.

"Desde que saímos, nenhuma companhia retornou para lá", afirma o capitão.

*Stefan Pauly, em Berlim, contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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