UOL Notícias Internacional
 

29/10/2009

Corrupção agita o frágil Estado iraquiano

The New York Times
Marc Santora
Em Bagdá (Iraque)
Enquanto as autoridades iraquianas trabalham para atribuir a culpa pelos ataques mortais no coração do governo no domingo, cresce a preocupação de que uma maior ameaça à segurança pode vir de dentro do sistema, na forma da corrupção, desde a alta liderança dos ministros até os soldados que ocupam os postos de controle.

Um recente relatório interno sobre a corrupção, de autoria do inspetor geral do Ministério do Interior, menciona especificamente a propina para os guardas dos postos de controle: a explosão no domingo no Ministério da Justiça, que é cercado por postos de controle, matou quase 160 pessoas, enquanto um ataque semelhante em agosto, contra os ministérios das Relações Exteriores e Finanças, matou pelo menos 122.
  • Johan Spanner/The New York Times

    Campanha "Vamos expor os corruptos", dizia um cartaz do governo iraquiano em Bagdá, em 25 de setembro de 2009. Um relatório interno centra-se na corrupção desenfreada nos ministérios



"Esses carros-bomba não vieram do céu!" disse o juiz Abdul Sattar al Beiriqdar, porta-voz do Alto Conselho de Justiça. "Eles devem ter sido dirigidos pelas ruas até chegarem ao seu alvo. Se não houvesse corrupção, os agressores não correriam o risco de passar pelos postos de controle."

Mas a corrupção vai muito mais fundo, colocando em risco o frágil senso de segurança no Iraque, à medida que os Estados Unidos reduzem suas forças, com serviços de segurança que parecem voltados mais para enriquecer a si mesmos do que para proteger os iraquianos comuns, segundo dezenas de entrevistas com policiais e oficiais, além do relatório do Ministério do Interior.

"A corrupção é um fenômeno que forma a verdadeira ameaça à estrutura do Estado", disse Jawad Bolani, o ministro do Interior, em uma recente entrevista. Seu ministério é o segundo maior do Iraque, empregando um entre quatro iraquianos que trabalham no setor público, que é responsável pela grande maioria dos empregos no Iraque.

O relatório detalha como a corrupção ocorre em seu ministério, que ele argumenta que conseguiu grandes avanços para coibi-la.

Dinheiro é desviado dos salários. Contratos são manipulados e fraudados para obtenção de lucro pessoal. Policiais fantasmas são listados nas folhas de pagamento, para que os comandantes possam ficar com seus salários, e outros policiais são supostamente demitidos para que os comandantes possam continuar recebendo seus pagamentos. Criminosos e insurgentes são libertados por suborno, antecedentes criminais são apagados por pagamento, detidos sofrem abusos pelos guardas visando extorquir dinheiro dos parentes.

Além da corrupção financeira direta, há também a corrupção política, onde os partidos que disputam o poder aqui procuram assegurar a lealdade de grande parte do aparato de segurança, segundo autoridades iraquianas e ocidentais.

Os policiais confirmaram grande parte do que está no relatório e deram outros exemplos do tipo de corrupção que ameaça a estabilidade das forças de segurança. "Nosso comandante de brigada rouba US$ 34 mil dos US$ 41 mil destinados mensalmente para alimentação", disse um policial. "Ele substituiu quatro vezes nosso comandante de batalhão porque eles não estavam cooperando com ele."

Outro oficial descreveu como há pessoas na folha de pagamento que nunca aparecem para trabalhar, mas surgem apenas para receber seu pagamento, que compartilham com seu patrono.

"Todo oficial com patente de coronel para cima possui pelo menos 10 policiais dos quais ele fica com todo ou parte de seus salários", disse o oficial. "Nós chamamos esses policiais de 'fadhaei'", cuja tradução aproximada é de alienígenas do espaço.

A corrupção vai dos mais altos oficiais até o policial de esquina, segundo altos investigadores, mas o relatório em si é cuidadoso para não citar diretamente o nome dos oficiais.

Bolani defendeu os esforços de seu ministério para reduzir a corrupção, progresso que as autoridades ocidentais e outros especialistas também reconhecem. Ele citou a eliminação dos esquadrões da morte, que costumavam operar de dentro do ministério, como sendo uma "revolução". Ao longo dos últimos dois anos, cerca de 62 mil funcionários que tinham antecedentes criminais foram demitidos.

Apesar do expurgo no ministério, Aqeel al Turaihi, seu inspetor-geral, disse que ainda há milhares de pessoas na folha de pagamento com antecedentes preocupantes.

Apenas na primeira metade deste ano, os inspetores encontraram US$ 122 milhões em fundos roubados, apenas uma fração do que os funcionários corruptos desviaram da imensa burocracia, segundo o relatório.

Especialistas dizem que há partes do governo do Iraque que exibem uma lenta melhoria. Nos primeiros seis meses deste ano, 1.455 mandados de prisão foram expedidos pela Comissão Iraquiana de Integridade Pública, encarregada dos processos por corrupção (apesar de apenas 397 pessoas terem sido condenadas por acusações de corrupção desde que a comissão deu início aos seus trabalhos, em 2004, até o final do ano passado).

No início deste ano, o ministro do Comércio foi forçado a renunciar após um escândalo de fraude ligado à distribuição de alimentos.

E neste mês, o vice-ministro dos transportes foi preso após ser pego tentando receber de uma firma de segurança em mais de US$ 100 mil para concessão de um contrato de fornecimento de segurança ao Aeroporto Internacional de Bagdá, segundo autoridades iraquianas.

A corrupção há muito atormenta o Iraque, mas à medida que os americanos exercem um papel cada vez menor nas operações de segurança, ela passa a ser uma ameaça cada vez maior, dizem autoridades tanto iraquianas quanto americanas.

"A corrupção endêmica dentro do sistema iraquiano -não apenas nas forças de segurança, mas no sistema- ainda é provavelmente o maior problema enfrentado pelo Iraque", disse o general Ray Odierno, o comandante das forças americanas no Iraque, durante uma recente entrevista para a "BBC".
  • Johan Spanner/The New York Times

    Ameaça Policial em posto de controle de Bagdá.
    A crescente corrupção é vista como uma ameaça
    à segurança do país, alvo de constantes ataques



As leis que fortaleceriam a mão fos investigadores e daqueles que combatem a corrupção estão paradas no Parlamento, tornando a reforma mais difícil. Esta dificuldade pode ser vista nas tentativas do Ministério do Interior de se livrar dos soldados fantasmas.

"Nós estamos fazendo o melhor que podemos para controlar o mecanismo de distribuição de salários", disse Abdul Basit Turki, o chefe do Conselho Supremo dos Auditores, que realiza a auditoria de todas as agências do governo. Entretanto, eles perceberam que só conseguiam fazer progressos visitando todas as delegacias locais e federais do país no dia do pagamento.

Após encontrarem grandes discrepâncias, eles eram informados pelos comandantes locais que os nomes na lista que não estavam presentes eram de pessoas em férias.

"Agora nós checaremos os nomes de quase 500 mil funcionários para ver quem estava ou não em férias", ele disse.

Combater a corrupção aqui também pode ter um alto custo. Turki, após emitir um relatório de auditoria sobre a Suprema Corte Criminal Iraquiana, que examina os crimes cometidos sob Saddam Hussein, foi informado -por meio da imprensa local, ele disse- que um juiz daquele tribunal emitiu um mandado de prisão contra ele.

"O juiz disse inicialmente que a acusação contra mim era de 'extermínio da raça humana'", ele disse. "Isso foi mudado e agora sou acusado de fraude."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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