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01/11/2009

Por que ele quer se eleger ao Parlamento?

The New York Times
Landon Thomas Jr. De Londres
Zac Goldsmith, playboy milionário, eco-guerreiro e candidato conservador quixotesco ao Parlamento britânico, está tentando explicar por que sua disputa pelo poder político deve ser considerada mais que o capricho ambientalista de um menino rico.

  • NYTimes

    Zac Goldsmith ouve o líder do partido David Cameron, em encontro de campanha em Richmond



"Quero dizer, o que há de tão radical em lutar por uma frota de carros limpos daqui a cinco anos ou por impostos ambientais?", ele disse, enquanto dirigia seu Prius amassado pelas ruas escuras de Richmond, o afluente subúrbio de Londres em que ele faz sua campanha. A ponta de um cigarro enrolado à mão - pelo menos o seu vigésimo do dia - está presa a seus dentes, mas não diminui a metralhadora de sua conversa aristocrática.

"Nosso manifesto verde é o mais verde da história do Partido Conservador", ele continuou, mas disse que seria um desafio, enquanto elogiava a boa-fé ambiental do chefe do partido, David Cameron, que Goldsmith havia apresentado em um evento político naquela noite. "Você sabe que eu realmente não tenho fé nos políticos - este é um negócio bastante sujo. Mas não há lei que diga que todos os políticos vão se transformar em vilões."

Isso é bem verdade, e para novatos como Goldsmith outra lei fundamental da política é "Não prejudique o líder do partido" - especialmente quando ele está no alto das pesquisas, como Cameron, que vai enfrentar o criticado Gordon Brown em uma eleição geral nesta primavera.

Então, após uma breve apresentação por Goldsmith, o show foi de Cameron. Depois Cameron saiu sem sequer cumprimentar o homem que ele fora apoiar.

Perguntado sobre essa saída abrupta, os assessores de Cameron alegaram uma agenda apertada. Mas dispensar os apertos de mão e sorrisos habituais é um lembrete de que, conforme a eleição se aproxima, os conservadores não têm muita certeza do que fazer com Frank Zacharias Robin Goldsmith.

Afinal, ele é um multimilionário de 34 anos que fuma feito uma chaminé e foi expulso de Eton, defende uma agenda ambiental ativista que é mais Greenpeace do que Al Gore e cujos encontros com a cunhada de seu irmão, a socialite Alice Rothschild - Goldsmith se separou recentemente de sua mulher, Sheherazade Ventura, com quem tem três filhos pequenos - foram carne de vaca nos tablóides predadores de Londres. ("As visitas secretas de Goldsmith à herdeira", gritou "The Daily Mail" três anos atrás, quando o caso se tornou público.)

Mas para se entender o filho é preciso começar pelo pai - sir James Goldsmith, o empreendedor cavaleiro corporativo cuja mistura de charme natural, ambição empedernida e amor por idéias abrangentes e polêmicas constituem um complexo modelo paterno.

As semelhanças são muitas. Como seu pai, Goldsmith deixou Eton cedo, desprezou a educação superior e acha difícil resistir a mulheres bonitas (James Goldsmith disse certa vez que quando você se casa com sua amante cria uma vaga; ele teve filhos com três mulheres). Também como o pai, Zac gosta de jogar, tem uma baixa estima pela imprensa e está convencido da necessidade de uma ação drástica e radical para salvar o planeta.

Com seu porte alto e flexível, seus modos tranquilos de cavalheiro, Goldsmith domina a maioria das salas em que entra - combinando uma descontração informal do tipo Obama, com ternos escuros e camisas brancas sem gravata, com seus cabelos louros cuidadosamente despenteados.

No início de outubro ele estava em seu elemento em um leilão para angariar fundos em um elegante clube do Soho, cercado de amigos, parentes e outros apoiadores que incluíam Ade, o ator de origem nigeriana que interpretou o motorista de fuga em "Snatch", de Guy Ritchie, e os irmãos empresários bilionários Simon e David Reuben.

"Este país chegou a um impasse", ele disse. "Eu tenho de ganhar em Richmond Park, por isso espero que vocês sejam generosos esta noite."

E de fato o dinheiro fluiu - 10 mil libras, ou cerca de US$ 16,5 mil por um fim de semana para quatro casais em um iate em Nice, patrocinado pelos Reuben. E cerca de US$ 18 mil por dois prêmios doados pelo cantor Sting, um bom amigo de Goldsmith - um fim de semana em Paris para vê-lo em um concerto e uma guitarra-baixo assinada.

"Não há coisas como notas de 100 no círculo de Goldsmith", o leiloeiro espetou, pedindo à rica multidão para procurar mais fundo em seus bolsos. E funcionou.

Assim como às perguntas sobre seu casamento, Goldsmith educadamente se recusa a discutir sua fortuna, e segundo as reportagens ela varia entre 10 milhões de libras e 300 milhões de libras. Este ano ele já levantou 248 mil libras, ou mais de US$ 400 mil, e sua adversária Susan Kramer, uma bem considerada liberal-democrata que continua popular em Richmond, admite que está arrasada. "O dinheiro faz diferença", ela disse. "Fomos superados por múltiplos."

Goldsmith nega essa afirmação, mas alega que são sua organização e seus temas, e não o dinheiro, o que vai contar no final. Mas a celebridade pode funcionar a seu favor.

Afinal, ele passou a infância em Richmond com seu irmão mais moço, Ben, e a irmã mais velha, Jemima, que também passou grande parte da vida adulta sob o olhar público - primeiro por seu casamento com o astro do críquete paquistanês Imran Khan e depois por seu relacionamento com o ator Hugh Grant.

Durante décadas, os controversos negócios de sir James e seus casamentos abertos fizeram dele e da família Goldsmith o prato preferido dos tablóides.

Por isso Richmond, um subúrbio rico, não estranha as peculiaridades dos ricos - especialmente quando se trata dos Goldsmith.

"Não organizo minha vida privada pensando em minha carreira", diz Goldsmith. "Eu sou quem eu sou, e até agora não tive uma questão sobre minha vida privada em Richmond."

Ao contrário de muitos americanos ricos, que primeiro saltam para a política e depois tentam descobrir por que o fizeram, o mergulho de Goldsmith é conduzido por uma paixão furiosa por literalmente salvar o mundo, senão seus eleitores.

Descrevendo o caso de uma idosa pobre em seu distrito que estava sendo perseguida por um grupo de valentões, ele tremeu de raiva, dizendo que queria "matar essa gente" e que se o conselho local não atendesse a suas queixas ele mesmo o faria.

Goldsmith é um defensor acirrado do consumo de alimentos locais e orgânicos, e diz praticar o que ele prega em sua fazenda de 120 hectares em Devon, onde cria porcos para fazer linguiça, vacas leiteiras e muitas outras delícias orgânicas.

Embora às vezes ele possa parecer ingênuo, sua energia e seu perfil destacado também podem produzir resultados. Ele teve um papel significativo na bem-sucedida oposição a uma terceira pista no aeroporto de Heathrow nos últimos dois anos e lutou para incluir essa posição na plataforma do Partido Conservador.

Em uma breve entrevista, Cameron disse que Goldsmith "não é um sonhador ecológico" e que suas idéias estão sendo "transportadas para todo o mundo".

De fato, quando Cameron assumiu o partido em 2005, ele apreciou a agenda ambiental de Goldsmith, acrescentando uma dose de política verde e moda ao que havia sido o mais cinzento dos partidos políticos britânicos - mesmo que depois disso o partido tenha se tornado menos enfático sobre as questões ambientais.

Entre seus itens mais polêmicos, o manifesto pedia para se limitar o estacionamento gratuito em shopping centers (em apoio ao comércio das pequenas cidades) e iniciativas que desencorajariam a produção de certos tipos de televisores de plasma que gastam muita energia - para não falar em propostas mais carnudas como baixar os impostos para residências verdes e criá-los para os voos domésticos.

Goldsmith atribui sua dedicação às coisas verdes ao amor pelos livros escritos pelo naturalista Gerald Durrell e aos primeiros estímulos de seu pai, que, já na década de 1960, advertia os amigos e sócios intrigados sobre o fim dos estoques de peixes e outras questões ambientais.

Até recentemente ele teve uma plataforma suficiente em "The Ecologist", a obscura mas bem considerada revista ambiental fundada por seu tio Teddy, um ativista verde. Mas Goldsmith diz que trabalhar na revista da família, para não falar em seu estilo de vida de jovem brilhante, não lhe daria o respeito e a seriedade que ele deseja.

"Veja, eu poderia apenas ir às corridas de cavalos e tirar lindas férias", disse. "Mas tenho algumas opiniões fortes e quero fazer uma diferença."

Sem falar em agradar a seu pai.

"Fui muito influenciado por ele", ele disse, enquanto caminhava ao redor do quarteirão do escritório de seu irmão em Londres. "Eu adoraria saber agora o que ele pensa de todas essas questões - foi o homem mais interessante que conheci."

James Goldsmith sem dúvida aprovaria - quanto aos eleitores de Richmond, bem, alguns continuam divididos. Enquanto o elã de Goldsmith galvanizou os eleitores jovens que são atraídos por seu pote transbordante de idéias do tipo "aja local, pense global", outros questionam sua falta de experiência (dirigir "The Ecologist" foi seu único emprego sério).

"Eu ainda não decidi", disse Carol Hegedus, uma eleitora de meia-idade, ao deixar o evento de Cameron. "Ele é um bom ambientalista, mas tem uma certa qualidade indefinida..."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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