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03/11/2009

Setor empresarial hondurenho continua mergulhado em problemas

The New York Times
Blake Schmidt Em Copán (Honduras)
Na manhã em que o presidente hondurenho foi deposto, Flavia Cueva despertou os 30 hóspedes que participaram de uma festa de casamento e retirou-os do resort ecológico na selva. Ainda zonzos devido à festa da noite anterior, que contou com uma banda mariachi, fogos de artifício e uma cerimônia conduzida por um xamã em antigas ruínas maias feitas de rocha calcária, os hóspedes saíram apressadamente.
  • Joel Silva/Folha Imagem

    Manifestantes esticam a bandeira hondurenha durante um protesto em Tegucigalapa, após o governo golpista decretar estado de sítio no país. A crise política dura mais de quatro meses

Para Cueva, uma hondurenha-americana que passou os últimos dez anos transformando a fazenda de gado dos seus pais em um centro turístico que fornece aulas de ioga, passeios a cavalo e comida maia para um paladar moderno, a tempestade política em Honduras teve um efeito calamitoso sobre as reservas.

"Demorei dez anos para inserir este lugar no mapa, passo a passo", diz ela, tomando vinho na sua varanda, de frente para as ruínas de Copán. "Isso foi uma catástrofe". Ninguém sabe se um acordo firmado na semana passada entre o presidente deposto, Manuel Zelaya, e o seu sucessor de facto, Roberto Micheletti, resolverá o impasse político que já dura quatro meses. Mas o estrago econômico já foi feito, isolando um país que só recentemente começou a atrair investimentos internacionais e turistas.

As praias preservadas e as ruínas maias de Honduras trouxeram 1,5 milhão de turistas ao país no ano passado. Mas as visitas caíram até 70% depois da derrubada de Zelaya em 28 de junho, segundo Ricardo Martinez, que era o ministro do Turismo no governo Zelaya.

Honduras já foi o reino dos magnatas norte-americanos da banana que derrubavam governos para assegurarem um melhor tratamento fiscal. Mais recentemente, o país foi uma base de treinamento e suprimentos para os rebeldes Contras, apoiados pelos Estados Unidos, que travavam na Nicarágua uma batalha inserida no contexto da Guerra Fria.

Quando a Guerra Fria terminou, Honduras superou a era de regimes militares e passou a ser conhecida pela sua relativa estabilidade política, atraindo nos últimos anos investidores estrangeiros que adquiriram propriedades à beira da praia, abriram indústrias e construíram hotéis ao longo da costa caribenha do país, que é uma região internacionalmente famosa para a prática do mergulho. A comunidade de estrangeiros no país, que antigamente consistia de funcionários de agências de ajuda humanitária, missionários e militares reformados, passou a incluir aposentados apreciadores de charuto, estudantes da língua espanhola, empresários e investidores do setor imobiliário.

A Embaixada dos Estados Unidos na capital do país, Tegucigalpa, diz que há 15 mil norte-americanos registrados como moradores de Honduras, mas até 30 mil ao se levar em conta os turistas de longo prazo, indivíduos de dupla nacionalidade e empresários que moram aqui.


A derrubada de Zelaya e a condenação internacional provocada por esse ato fizeram com que o país ficasse novamente isolado. Os empresários estrangeiros em Honduras tendem a apoiar Micheletti, que substituiu Zelaya, mesmo sabendo que mandar Zelaya para o exílio pode ter sido um ato ilegal. Mas eles concordam inteiramente que a confusão no país está atingindo as suas carteiras.

Chris e Will Haughey, dois irmãos de Saint Louis, escolheram Honduras como o local para montarem uma fábrica de brinquedos de madeira com certificação de consciência social devido às florestas do país, ricas em madeira, às áreas isentas de impostos industriais e à isenção de tarifas prevista no Acordo de Livre Comércio da América Central, uma acordo comercial com os Estados Unidos.

Eles pretendiam vender os seus blocos magnéticos de madeira para executivos como enfeites de mesa de trabalho e para pais de crianças como uma alternativa ecológica ao brinquedo Lego. Apesar da burocracia do país, eles consideraram Honduras um local mais estável do que os vizinhos El Salvador e Nicarágua. Mas algo que não fazia parte dos seus planos empresariais era a deposição do presidente.

Chris Haughey, um engenheiro formado na Universidade Stanford que apaixonou-se por Honduras ao fazer trabalhos voluntários em um abrigo para crianças de rua, passou uma manhã recente negociando com um grupo de apoiadores de Zelaya, armados de pedras, para que estes o deixassem passar por um bloqueio na estrada no seu caminho rumo ao trabalho. Os irmãos tentam dar conta das encomendas antes dos feriados de final de ano, mas eles perderam vários dias de trabalho, já que os toques de recolher impostos pelo governo obrigaram vários dos seus funcionários a ficar em casa.

"Isso é simplesmente frustrante", afirma Haughey, que abandonou a sua meta de inaugurar a fábrica em agosto, já que a crise política em junho veio juntar-se à já formidável burocracia de Honduras para provocar novos atrasos. Ele diz agora que tentará abrir a fábrica no mês que vem.

Daniel O'Connor, um consultor de investimentos que mudou-se da Flórida para Honduras para gerenciar um dos hotéis mais luxuosos da capital na década de 1990, o Honduras Maya, diz que a confusão política tornou as coisas ainda mais difíceis para investidores que já se viam pressionados pela crise econômica.

Comemoração na embaixada brasileira

  • Esteban Felix/AP

    Na Embaixada brasileira em Tegucigalpa, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya (de chapéu), comemora com simpatizantes o acordo que pode permitir a restituição dele ao poder

"Esta é a tempestade perfeita", diz O'Connor. Alguns resorts de luxo nas ilhas ao largo da costa hondurenha interromperam as obras de construção depois que Zelaya foi deposto, diz ele, culpando a cobertura de manifestações violentas feita pela mídia, que segundo ele faz com que o país pareça ser uma zona de guerra.

"Os meus amigos nos Estados Unidos ficam surpresos quando lhes digo que não estamos entrincheirados com um estoque de comida para seis meses e armas", diz ele, saboreando rum com Coca-Cola no Hotel Intercontinental, em Tegucigalpa. Crítico feroz de Zelaya, O'Connor montou um centro de informações no hotel para fornecer aos jornalistas informações para justificar a derrubada do líder.

Empresários do país esperam que o acordo alcançado na última quinta-feira, que prevê o retorno de Zelaya ao cargo para que este conclua os seus três meses restantes de mandato, e que ainda precisa ser aprovado pelo congresso do país, venha a restaurar a normalidade em Honduras.

Mas ainda não houve qualquer recuperação econômica. Cueva, a dona do resort ecológico, tem demitido funcionários e cortado as horas de trabalho daqueles que ainda restam. Para reduzir os custos, ela está desligando geladeiras e cortando as viagens à cidade para a aquisição de suprimentos.

"Eu acredito que isso seja algo maior do que todos nós", afirma Cueva, acendendo um cigarro em uma vela guatemalteca enquanto as ruínas de Copán desaparecem no crepúsculo. "Esta é uma revolução socialista do século 21".

Tradução: UOL

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