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04/11/2009

Para Obama, é o trabalho árduo da governança

The New York Times
Peter Baker Em Washington (EUA)
Para um presidente elevado ao poder nas costas da história, as lágrimas e euforia em Grant Park parecem ter ocorrido há mil anos. Faz apenas um ano, é claro, desde a eleição de Barack Obama, um ano desde o momento em que seus simpatizantes sentiram que tudo era possível em meio à conversa inspiradora de "refazer esta nação" e os cantos determinados de sim, nós podemos.

Um ano depois, à medida que algumas poucas eleições menores resultaram em um julgamento mais temperado, a esperança e o excesso de confiança deram lugar ao trabalho árduo da governança, a agenda lotada de reuniões aguardando pela manhã, os grossos livros de briefing aguardando à noite, as milhares pequenas concessões que ocorrem no intervalo entre eles. A educação de um presidente é complicada e enquanto Obama passava os últimos 12 meses aprendendo a exercer o poder, seu país aprendeu mais a respeito dele.
  • Doug Mills/The New York Times

    Após lidar com a maior recessão em gerações, Barack Obama agora preside uma economia
    que está finalmente crescendo de novo, mas que ainda perde empregos e acumula dívidas

Dada a enormidade das crises que ele herdou e o tamanho do pacote econômico que ele defendeu nas primeiras semanas no cargo, pode parecer estranho sugerir que as escolhas mais duras e mais definidoras só agora estão diante de Obama.

Mas ao chegar ao final de sua campanha para reformar o sistema de saúde e determinar se ocorrerá uma escalada na guerra no Afeganistão, ele terá que decidir quanto está disposto a liderar, quanto do capital político que obteve em Grant Park ele gastará para levar a nação para fora de sua zona de conforto.

As decisões difíceis poderão ajudar a compor o quadro emergente de que tipo de presidente ele se tornou. Até o momento, é seguro dizer que Obama é um ativista com apetite por ideias transformadoras mesmo ao evitar defini-las, ou a si mesmo, nitidamente.

Ele é um estudo em dicotomia, ousado mas cauteloso, radical mas pragmático, tudo dependendo do prisma que você usar. Ele descobriu que a oratória que provou ser tão poderosa na campanha não move tão facilmente os votos no Capitólio ou sensibiliza as almas no Kremlin. Sua fé em sua capacidade de unir pessoas fracassou em uma capital polarizada, assim como seu interesse em tentar.

Após lidar com a maior recessão em gerações, Obama agora preside uma economia que está finalmente crescendo de novo, mas que ainda perde empregos e acumula dívidas. Ele provavelmente conseguirá a aprovação de uma reforma da saúde, um feito não conseguido por presidentes por décadas, mas nenhuma de suas opções para o Afeganistão oferece alguma garantia de sucesso. E além dessas questões se encontra o Irã, a mudança climática, Guantánamo, imigração e regulamentação financeira, entre outras.

"A questão central que surge após esses meses é se ele poderá fazer com que tudo funcione?" disse Lee H. Hamilton, um ex-deputado democrata que, nos últimos anos, ajudou a liderar as comissões que cuidaram do 11 de Setembro e da Guerra no Iraque.

"Esses problemas parecem mais simples quando você fala com um público como aquele", no Grant Park em Chicago, disse Hamilton. "Mas são muito mais difíceis do que isso. Eu acho que ele aprendeu que governar é muito mais difícil do que fazer campanha, e acho que ele aprendeu isso duramente."

Na Casa Branca, o anseio por dias mais simples é palpável. "O dia estava repleto de emoção, esperança e cordialidade", disse David Axelrod, o alto assessor de Obama, lembrando o dia da eleição no ano passado. "Mas é um pico emocional que é impossível de ser mantido no dia a dia, à medida que você governa. O desafio é manter aquele grau de idealismo e otimismo enquanto trabalha em meio ao moedor de carne."
  • Damon Winter/The New York Times

    Há um ano, as lágrimas e a euforia tomaram conta do Grant Park com a vitória de Barack Obama



"Tudo na política em Washington funciona contra a esperança, o otimismo e a unidade. Então é preciso combater isso todo dia, ciente de que será um resultado final imperfeito." Ele acrescentou: "Aquela noite foi sublime. E muito do que acontece em Washington é prosaico. Ou profano".

No processo, a imagem romantizada, hollywoodiana de Obama, registrada no filme da HBO, "By the People", que estreou na noite de terça-feira, dá lugar a uma imagem mais convencional de um político que inspira e decepciona, estimula e irrita. A promessa de um modo diferente de fazer política às vezes parece para muitos como a política de costume.

"Ele continua sendo uma figura muito inteligente, cheia de energia e carismática que o povo americano gosta", disse o deputado Jeb Hensarling do Texas, um importante legislador republicano. "Claramente eu não acho que ele se encontra no pedestal elevado que ocupava antes da eleição. As pessoas estão olhando para isso e pensando: 'Se nós votamos pela mudança, esta não é a mudança que queríamos ou é mudança demais'."

Ou insuficiente, dependendo do ponto de vista. "Quando vira apenas dar e não receber, isso começa a cansar você", disse o deputado Raul Grijalva do Arizona, um líder entre os democratas liberais que acham que Obama é predisposto demais a fazer concessões. "Parte da base começou a dizer que talvez as expectativas fossem altas demais; talvez esta seja uma agenda de primeiro mandato. Mas a base está começando a perguntar: onde estamos?" Pouca coisa frustra mais os assessores de Obama. Eles apontam para uma série de vitórias rápidas, mas altamente ignoradas, que promoveram as prioridades democratas estagnadas há mais de uma década: no atendimento de saúde às crianças, na regulamentação do tabaco, nas penas para crimes de ódio e equivalência salarial, para citar algumas.

Ao mesmo tempo, eles estabeleceram a meta de aprovar não apenas a reforma da saúde, mas também a da mudança climática e do setor financeiro até o final do ano, apesar dos alertas de que estavam tentando fazer demais, muito depressa - uma meta que agora todos concordam que está fora de alcance.

"Eles viram que o Congresso não pode digerir tudo o que eles querem fazer", disse Steven A. Elmendorf, um lobista que foi um alto assessor do ex-deputado Dick Gephardt do Missouri, quando ele comandava a bancada democrata na Câmara. "O sistema político não dá conta. A reforma da saúde provou ser maior e mais difícil do que eles imaginavam. Ele tirou grande parte do oxigênio da sala. Não dá para fazer tudo."
  • Doug Mills/The New York Times

    O presidente e a primeira-dama, Michelle Obama, após a cerimônia de posse. Enquanto Obama passava os últimos 12 meses aprendendo a exercer o poder, seu país aprendeu mais sobre ele



Obama repensou não apenas a estratégia, mas o conteúdo. Como candidato, ele apoiava a renegociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) com o México e o Canadá, era contrário à obrigatoriedade legal de que cada americano tivesse um plano de saúde e prometeu reforçar o esforço de guerra no Afeganistão. Como presidente, ele deixou o Nafta em paz, adotou a obrigatoriedade do plano de saúde e, após um reforço inicial no Afeganistão, ele agora está repensando toda sua estratégia lá.

Por ora, pelo menos, ele também abandonou a promessa de formação de um entendimento pós-partidário, após enfrentar desde cedo uma oposição republicana unida contra os seus planos de gastos. Era uma ideia que seus assessores mais experientes em Washington, como Rahm Emanuel e John D. Podesta, nunca tiveram muita esperança que vingaria, mas que apoiaram até o presidente perceber pessoalmente que Washington está dividida demais.

No final, naturalmente, todo presidente precisa aprender por si só. "Você nunca está preparado para ser presidente dos Estados Unidos até ser presidente de fato", disse Valerie Jarrett, uma assessora sênior de Obama.

William A. Galston, um ex-conselheiro da Casa Branca para o presidente Bill Clinton, disse que Obama ainda precisa definir sua identidade de forma vívida.

"Ele gosta de grandes metas mais do que frases marcantes", disse Galston, que atualmente está na Instituição Brookings. Mas, ele disse, "a questão de quem ele é ainda está aberta. Ele deseja genuinamente ser um presidente transformador. Ele não acha que foi eleito presidente para fazer coisas pequenas. Algumas coisas podem acabar sendo pequenas, mas não vão começar dessa forma".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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