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05/11/2009

Choques em Teerã marcam o 30º aniversário da tomada da embaixada americana

The New York Times
Robert F. Worth Em Beirute (Líbano)
O sitiado movimento de oposição do Irã lutou para se reafirmar na quarta-feira, quando dezenas de milhares de manifestantes enfrentaram agressões policiais e nuvens de gás lacrimogêneo às margens de um grande comício antiamericano patrocinado pelo governo.

Os protestos - em Teerã e em várias outras cidades - foram as maiores manifestações de rua da oposição em quase dois meses e ocorreram no 30º aniversário da tomada da embaixada americana no Irã, um evento que foi crucial tanto para o Irã quanto para os Estados Unidos. Apesar da imensa força policial ter afastado à força e dispersado muitos deles, os manifestantes recuperaram a coragem de desafiar publicamente o governo, apesar dos muitos alertas de todos os níveis do establishment conservador do Irã.
  • Vahid Salemi/AP

    Milhares de manifestantes participam de passeata contra os Estados Unidos no aniversário de 30 anos da invasão da embaixada americana em Teerã. O evento foi patrocinado pelo governo iraniano. Opositores de Mahmoud Ahamadinejad fizeram outra manifestação, próxima à oficial

Até mesmo algumas autoridades do governo reconheceram a contragosto que a oposição tinha - pela primeira vez - perturbado o comício antiamericano anual. A agência de notícias oficial "IRNA" informou durante a tarde que "baderneiros", muitos usando a cor verde da oposição, tinha se reunido diante de seus comitês na Rua Valiasr cantando "Morte ao ditador" e outros slogans contra o governo.

Ao mesmo tempo, um novo tema surgiu, com muitos manifestantes declarando sua impaciência com a política do presidente Barack Obama de diálogo com o governo iraniano. Muitos podiam ser ouvidos cantando: "Obama, Obama - ou você está conosco ou com eles", disseram testemunhas.

Obama divulgou sua própria declaração na quarta-feira para marcar o aniversário da tomada da embaixada, repetindo seus apelos para que os dois países deixem para trás sua desconfiança mútua. A declaração expressava simpatia pelo movimento de oposição do Irã e sugeriu que o prazo para aceitação do plano apoiado pela ONU, visando evitar um confronto em torno das ambições nucleares do Irã, estava se esgotando.

"O mundo continua a testemunhar seus poderosos apelos por justiça e sua busca corajosa por direitos universais", disse a declaração a respeito do povo iraniano. "É hora do governo iraniano decidir se deseja se concentrar no passado, ou se fará as escolhas que abrirão as portas para maiores oportunidades, prosperidade e justiça para seu povo."

Os manifestantes zombaram abertamente da mensagem antiamericana oficial do dia, com cerca de 1.000 pessoas reunidas do lado de fora da embaixada russa em Teerã cantando: "O verdadeiro covil de espiões é a embaixada russa".

A embaixada americana é chamada de "covil de espiões" no Irã há décadas. Mas muitos simpatizantes da oposição ficaram enfurecidos com a rápida aceitação pela Rússia da vitória contestada de Mahmoud Ahmadinejad na eleição presidencial do Irã, em junho.

Na terça-feira, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, fez um discurso furioso acusando os Estados Unidos de ditarem os termos do acordo nuclear, sugerindo que Obama não era diferente de seu antecessor.

Há relatos de várias dezenas de prisões nos protestos de quarta-feira, incluindo alguns fora de Teerã, e muitos feridos. O clérigo reformista Mehdi Karroubi, que se tornou o crítico mais franco do governo, escapou por pouco de ser ferido quando as forças pró-governo dispararam um cilindro de gás lacrimogêneo contra ele, enquanto ele marchava com os manifestantes em Teerã, segundo a "Radio Farda", uma emissora apoiada pelos americanos. Dois de seus guarda-costas pularam para protegê-lo e foram hospitalizados devido aos seus ferimentos, informou a emissora.

Mir Hossein Mousavi, que foi o principal adversário de Ahmadinejad na eleição, foi impedido por agentes de segurança de participar dos protestos, noticiou a "Radio Farda".

No geral, a polícia pareceu ter reprimido os manifestantes mais agressivamente do que em setembro, quando manifestantes de oposição em número muito maior virtualmente tomaram um comício patrocinado pelo Estado, conhecido como Dia de Jerusalém.

O comparecimento de manifestantes na quarta-feira também pode ter sido limitado pelo fato de ter ocorrido em um dia de trabalho, diferente do protesto do Dia de Jerusalém. Ainda assim, começando ao amanhecer, as ruas do centro de Teerã estavam margeadas por policiais e membros da milícia Basij, disseram testemunhas. No metrô, agentes abordavam pessoas usando braçadeiras, braceletes ou lenços de cabeça verdes e os arrancavam.
  • AP

    Opositores do governo iraniano protestam perto
    da manifestação oficial que comemora os 30 anos da tomada da embaixada dos EUA em Teerã. O governo do Irã proibiu a imprensa de cobrir eventos não oficiais, como a manifestação de oposição



Um jovem que estava liderando os cantos antigoverno na Praça Valiasr resumiu assim os eventos do dia: "Um dia nós saímos e é nosso dia, em outros eles nos reprimem. Hoje não conseguimos que nossa palavra fosse ouvida, mas foi bom o bastante tê-los trazido para as ruas".

Mas o dia foi revigorante para a oposição, que tem lutado para manter seu momento desde a eleição de junho, que provocou os piores distúrbios domésticos do país desde a Revolução Islâmica de 1979. As autoridades reprimiram brutalmente o movimento nos últimos meses, por meio de uma combinação de prisões, julgamentos em massa e intimidação. Muitas importantes figuras reformistas permanecem na prisão, e apesar de alguns detidos terem sido soltos, o governo prende mais críticos a cada semana.

Os protestos m Teerã começaram na Praça Haft-e-Tir. Muitos manifestantes usavam máscaras cirúrgicas prevendo o gás lacrimogêneo. À medida que o número deles crescia, policiais com equipamento antichoque e membros da milícia Basij disparavam gás lacrimogêneo e investiam periodicamente contra a multidão para surrar ou prender os manifestantes.

Uma marcha desordenada teve início, se deslocando para oeste para a Praça Valiasr, cenário de muitos protestos anteriores. O comício oficial do governo ocorria em uma rota paralela ao sul e o posicionamento dos policiais e milicianos impediu os manifestantes de chegarem até ela. Na metade da tarde, ambas as manifestações pareciam ter acabado.

Muitos manifestantes pareciam conscientes da vulnerabilidade do governo, após uma semana na qual Ahmadinejad frequentemente parecia estar sozinho em seu apoio à conclusão do acordo nuclear com o Ocidente.

"Eles deviam acabar com todo esse 'morte a, morte a' - morte a quê?" disse uma mulher de meia-idade que marchava com suas duas filhas. "De um lado eles gritam 'Morte à América' e do outro eles vão negociar com eles."

O aniversário da tomada da embaixada ressaltou o desconforto com as relações com o Ocidente. O dia há muito é um marco para os revolucionários do Irã, mas o estender de mão por Obama complicou o antiamericanismo do Estado. Uma das principais vozes dos reformistas do Irã, o grão-aiatolá Hossein Ali Montazeri, surpreendeu muitos de seus compatriotas ao declarar na terça-feira que a tomada da embaixada, em 1979, "não foi a coisa certa a ser feita".

O próprio Ahmadinejad argumentou que o Irã domou a arrogância do Ocidente e agora deve aceitar o acordo nuclear proposto, segundo o qual o urânio do Irã deve ser enviado para o exterior para processamento e, no final, devolvido na forma de barras de combustível para um reator produzir isótopos medicinais.

Mas seus inimigos políticos, tanto conservadores quanto reformistas, aproveitaram a oportunidade para humilhá-lo, atacando o plano nuclear como uma rendição ao Ocidente - uma estratégia que ele usou contra eles no passado.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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