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05/11/2009

Procedimentos médicos invasivos deveriam ser realizados em spas?

The New York Times
Camille Sweeney Em Nova York (EUA)
Há pouca coisa para se imaginar que o TriBeCa MedSpa em Manhattan seja uma clínica médica, pelo menos no sentido tradicional. Na área de espera, chamada de Sala da Tranquilidade, a água de uma cascata artificial desce pela parede. Os clientes podem fazer as unhas dos pés ou submeter-se a um tratamento facial antes de entrarem em um espaço suavemente iluminado no qual um cirurgião plástico realiza tratamento Flaxal a laser ou outros procedimentos minimamente invasivos que custariam o dobro do preço em um consultório médico.

O TriBeCa MedSpa é um dos 1.800 spas médicos dos Estados Unidos, instalações híbridas que oferecem tratamentos como remoção de pelos a laser e lipoaspiração, bem como massagens e outros serviços tradicionais oferecidos por spas. Nos últimos anos, esse negócio transformou-se em uma indústria madura. De julho de 2007 a dezembro de 2008, o número de spas médicos aumentou 85%, segundo a Associação Internacional de Spas, superando em muito o crescimento de spas diários, turísticos e de resorts.
  • Beatrice de Gea/The New York Times

    Uma das salas de tratamento do TriBeCa MedSpa, um dos 1.800 spas médicos dos Estados Unidos, com instalações híbridas que oferecem tratamentos como remoção de pelos a laser
    e lipoaspiração, bem como massagens e outros serviços tradicionais oferecidos por spas

Os tipos de procedimentos realizados nos spas médicos também aumentaram.
No Spa Park Avenue Medical, em Armonk, no Estado de Nova York, por exemplo, os clientes que foram submetidos a quimiocirurgia para câncer de pele, que pode deixar a pele marcada, podem se submeter a cirurgia reconstrutiva, um tratamento que não se enquadra estritamente na categoria estética e que pode indicar a nova direção rumo a qual a indústria está evoluindo.

"Sem dúvida, ao que parece, esta é a onda do futuro", afirma Gerald Ginsberg, um cirurgião cosmético e diretor médico do TriBeCa MedSpa, que observa que, cada vez mais, os pacientes estão se tornando "clientes" em busca do melhor negócio naquilo que ele chama de "empório médico atual".
Para ele, isso é mais um motivo pelo qual é importante impor regulações para "assegurar que nós ofereçamos o melhor tratamento pelo melhor preço".

De fato, apesar da existência de várias instalações respeitadas como o TriBeCa MedSpa, o rápido crescimento da indústria está sendo cada vez mais escrutinado. Entre as legislações propostas estão aquelas no sentido de intensificar o controle sobre as credenciais daqueles que podem ser proprietários de spas médicos, determinar que procedimentos podem ser realizados e em que locais; e estabelecer a quantidade de treinamento a que uma pessoa precisa submeter-se para realizar procedimentos específicos. Tais legislações estão sendo discutidas em vários departamentos médicos estaduais, incluindo os de Massachusetts, Nova York, Utah e Flórida, onde a morte no mês passado de uma paciente, Rohie Kah-Orukotan, está gerando mais preocupações.

Em 25 de setembro, Kah-Orukotan, uma enfermeira de 37 anos de idade, entrou no Weston MedSpa em Weston, no Estado da Flórida, para submeter-se a uma lipoaspiração pouco invasiva para remover gordura do abdômen e das coxas. Durante o tratamento, ela sofreu convulsões e jamais recuperou a consciência.

Michael Freedland, o advogado da família, diz que ela recebeu lidocaína e propofol, uma droga que induz a sedação e que teria contribuído para a morte de Michael Jackson.

O caso, que ainda está sob investigação, gera diversas dúvidas que preocupam especialistas de todo o país. Primeiro, deveria o tratamento - que pode ter sido na verdade, segundo a classificação estadual, uma operação de lipoaspiração mais avançada, do Grau 2 - ter sido realizado no Weston MedSpa, que tem licença para funcionar como clínica de eletrólise, e não clínica médica?

"Acreditamos que a senhora Kah-Orukotan recebeu mais do que uma lipoaspiração minimamente invasiva do Grau 1 em uma instalação que era inapropriada", afirma Freedland. De fato, uma nova regra apresentada ao departamento estadual de medicina não permitirá a realização de nenhum procedimento cirúrgico que exija sedação em instalações que não estejam registradas como centros de cirurgia do Grau 2.

Além disso há a questão da experiência do médico que realizou a lipoaspiração em Kah-Orukotan. Omar Brito Marin, um médico especializado em medicina ocupacional, aprendeu a fazer lipoaspiração em um curso intensivo de três dias, segundo o seu advogado, Brian Bieber, que diz acreditar que este não foi um caso de má prática médica.

Para alguns especialistas nessa área, a questão do treinamento e da experiência talvez seja o motivo de maior preocupação. Darrick Antell, um cirurgião plástico de Manhattan, observa que com grande frequência indivíduos começam a realizar um determinado procedimento e migram para um outro sem terem experiência suficiente. "Por exemplo, o indivíduo começa fazendo extração de pelos a laser, e pouco depois está conduzindo tratamentos para celulite", diz Antell, que afirma que os membros dos spas médicos estão ampliando os limites daquilo que é permitido.

Wendy Lewis, consultora de cirurgias estéticas e autora do livro "Plastic Makes Perfect" (algo como "A Plástica faz a Perfeição"), afirma: "O incidente na Flórida é simplesmente trágico, e sinto muito pelos filhos e a família da mulher que morreu. Eu digo aos clientes que tomem cuidado".

Tais pontos de vista aplicam-se a um outro procedimento popular realizado em spas médicos: a remoção de pelos a laser. Há anos ouvem-se reclamações relativas à ocorrência de queimaduras de segundo, e até de terceiro, grau durante esse tipo de procedimento. Mas em lugares como o Estado de Nova York, isso ainda não é considerado um procedimento médico, apesar dos vigorosos protestos de muitos membros da comunidade médica.

"Em Nova York, até mesmo um barbeiro poderia realizar esse procedimento legalmente, o que não quer dizer que ele de fato faria isso", critica Davis Goldberg, um dermatologista cosmético que atua em Nova Jersey, Nova York e Flórida, e que também é professor de direito da Universidade Fordham e assessor legal da Sociedade de Spas Médicos.

Em Massachusetts, uma força tarefa de spas médicos foi criada para assessorar a assembleia estadual sobre qual é a melhor forma de submeter essas instalações a regulações. "Estamos tentando estabelecer alguns padrões, mas que sejam suficientemente flexíveis para acomodarem-se às rápidas mudanças ocorridas nessa indústria", afirma Russell Aims, diretor da Diretoria de Registro da Medicina do Estado de Massachusetts.

"Não queremos dizer ao consumidor que não se submeta a esses procedimentos, e nem declarar a um médico que ele não pode beneficiar-se desse negócio potencialmente lucrativo, mas creio que passei a ficar preocupado quando vi um lugar oferecendo aplicações de Botox em um shopping center", diz Aims.

"Para mim, isso tudo se parece muito com o setor de hipotecas", afirma Ranella Hirsch, uma dermatologista de Cambridge, no Estado de Massachusetts, e defensora de regulações mais rigorosas para os spas médicos. "Embora isso possa possibilitar maior acesso a tratamentos e procedimentos médicos, há também uma incidência bem mais elevada de danos permanentes", explica Hirsch.

Hirsch diz ainda acreditar que um sistema de regulações federais de spas médicos seria mais coesivo do que o atual modelo, que baseia-se em regulações diferentes para cada Estado. Mas ela acredita que é improvável que isso ocorra, já que os comitês médicos e outros, como os de enfermagem, eletrologia e esteticistas, são regulados e licenciados pelos Estados individuais.

"O mais provável (e o que está ocorrendo atualmente) é que organizações nacionais como a Sociedade Americana de Cirurgia Dermatológica, que representa os dermatologistas de toda a nação, forneçam diretrizes para orientação legislativa em cada Estado", disse ela em uma mensagem de e-mail.

Apesar de toda a polêmica em torno da segurança e das medidas regulatórias referentes aos spas médicos, há milhares de clientes dessas instituições que estão satisfeitos. Entre eles está Gail Fox, de Palm Beach Gardens, no Estado da Flórida, que foi ao Anushka Cosmedical Center Spa and Salon, em West Palm Beach, para receber enchimentos faciais que lhe foram aplicados por uma enfermeira. Ela diz que a experiência foi "um prazer". "O serviço estava sendo oferecido a um preço baixo. Foi isso que me atraiu. O ritmo é mais tranquilo do que o do consultório do meu dermatologista. Todas as minhas perguntas foram respondidas, e eu não me senti pressionada", conta Fox.

"Esses locais podem proporcionar uma oportunidade magnífica para que um cliente reduza o estresse e receba tratamento para o corpo inteiro", afirma Lynne McNees, presidente da Associação Internacional de Spas. "Mas, o fato de uma pessoa usar um jaleco branco não significa que ela esteja qualificada para realizar determinados procedimentos", adverte McNees.

Tanto McNees quanto Hannelore Leavy, diretora executiva da Associação Internacional de Spas Médicos, chama atenção para os esforços que as suas associações estão fazendo no sentido de educar os clientes de spas médicos. Por exemplo, a organização de Leavy conta com uma seção no seu website relativa à atual legislação referente aos spas médicos.

"Se alguém faz cortes em um cliente ou injeta algo no corpo dele, esses não são serviços de spas, e sim procedimentos médicos", diz McNees. "É preciso saber quem está realizando esses procedimentos, conhecer as suas credenciais e licenças e realmente pesquisar", alerta McNees. "Eu digo a todos que, se a pessoa não conhece todos os detalhes, ela não deve submeter-se a tais tratamentos".

Tradução: UOL

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